Prólogo

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Sexta-feira, janeiro de 2109.

Hoje o dia está mais nublado, o cheiro de carne queimada dos corpos está mais enlouquecedor, o barulho dos tiros está mais alto do que nunca. Eles estão perto. Não temos abrigo, estamos acampados na floresta, a cidade não é segura, temos só mais alguns minutos de liberdade. Somos a resistência, somos os que se opõe. Não poderíamos nos calar com tamanha falta de humanidade, não poderíamos fechar nossos olhos para esse massacre. Pessoas estão morrendo por serem o que realmente são, por não esconderem seus medos, seus amores, seus desejos, sua liberdade.

Corremos como se não houvesse um amanhã e talvez realmente não tenha. Os ruídos aumentaram, escutamos os barulhos dos comunicadores mais perto, aceleramos a corrida, nossos pulmões podem saltar para fora a qualquer momento. Era quase como se fossemos iguais aos corredores profissionais do último século. Eu tropeço em um galho e vou de encontro ao chão, um protetor me pega e imobiliza, grito ajuda, enquanto tento me soltar desse ogro. Eu sei que ninguém vai voltar, não podem! Precisam sobreviver para lutarem mais um dia! Precisam que alguém os alerte sobre os perigos das capitais e o que querem fazer conosco.

O protetor coloca meus braços atrás de meu corpo e algema minhas mãos, ele ri enquanto fala em cima de mim: "seus amiguinhos abandonaram você! Como se sente por estar do lado errado da história!", não respondo. Ele ri mais ainda quando percebe que estou chorando, ele me coloca de joelhos e ponta uma arma para minha cabeça. Já sei o que vai acontecer, é sempre assim! Não se pode deixar a escória sobreviver, elas precisam ser aniquiladas! Dão trabalho demais. Ao invés de fechar os olhos e abaixar a minha cabeça, eu o encaro. Não consigo ver nada além de seus olhos cor petróleo sem esperança, devido ao uniforme de elite, feito especialmente para os protetores que não podem ser identificados. Ele manda eu abaixar a minha cabeça, não o faço! Se matar alguém um dia, tenha o mínimo de respeito de encarar ela, porque cada olhar conta uma história. E o meu mesmo que silencioso é sincero e tomado da mais pura raiva que habita em meu ser. Ganho uma coronhada na cabeça, o sangue escorre livremente pelo meu rosto, em seguida de mais gritos da parte dele. O encaro de novo, ele não é intocável, não consegue encarar a morte de frente, não consegue tirar uma vida inocente sem parecer um covarde. Me encare! Escute meu protesto! Não estou sozinha, existem mais iguais a mim! Me encare! Me encare e se veja como um covarde! Me encare e pare de agir como um merda! Tenha a dignidade de me olhar enquanto minha vida deixa o meu corpo!

-EU MANDEI A BAIXAR A PORRA DA CABEÇA! - ele grita loucamente, fazendo gestos com a arma na mão, tranco o maxilar e falo:

-Nunca para o estado! Liberum mortis!- cuspo sangue nele, ganho mais uma coronhada, dessa vez ele consegue deslocar meu nariz e eu caio para o lado, volto a minha posição anterior e continuo o encarando, seus olhos começam a ficar vermelhos, o comunicador dele dá sinal de vida, ele responde com a mão livre e fica enfurecido, caminha na minha direção e eu ganho mais uma pancada. Dessa vez as cores vão ficando escuras enquanto eu caio, minha consciência vai me abandonando aos poucos antes de desmaiar escuto: "vadia, hoje é seu dia de sorte!"

A Rebelião - Unificação das NaçõesOnde histórias criam vida. Descubra agora