Vem o Arco-Íris Pt. I

204 27 17
                                    

Eram duas e quarenta da manhã.

Ela sabia que deveria estar dormindo, mas Sakura estava sentada na própria cama enquanto segurava o celular com força na mão direita e tentava respirar devagar. Não entendia a razão das batidas de seu coração estarem tão aceleradas, nem os calafrios que a agoniavam, apenas concentrava todas as energias em abastecer seus pulmões, fazer o ar passar, ainda que com dificuldade, por suas narinas até que o processo de oxigenação estivesse completo.

Ela não queria pensar. O dia fora tão perfeito, tranquilo, de fato estava mais leve quando Neji passou por sua porta e prometeu buscá-la pela manhã. Foram tantas risadas, Sakura ficara tão animada, até mesmo na rápida conversa com Hinata pelo chat de mensagens. Ela tinha tantas expectativas para aquela manhã de segunda feira, tantas expectativas boas, mas ainda assim, seu corpo parecia estar entrando em colapso naquele momento.

De fato momentos como aquele passaram a acontecer com maior frequência depois que se mudara para o apartamento, mas havia muito tempo desde que a rosada aprendera a lidar com eles sozinha. Era o que repetia para si mesma, e embora o mantra não fizesse o medo irracional ir embora, Sakura entendia, pouco a pouco, que não teria uma morte súbita e dolorosa em dois segundos. Ela puxou o ar com força, largando o aparelho no colchão e fechando os olhos. Enquanto as lágrimas faziam seu rosto pinicar, a Haruno cogitou ligar para alguém. Mas para quem?

Não queria preocupar Hinata. A amiga ficou louca na última vez em que Sakura ficara assim, passou a madrugada inteira no hospital de Konoha com a Haruno e discutiu com Mebuki quando a mulher foi informada por um colega que a rosada estava passando por uma crise de ansiedade e disse à filha que ela havia "tomado o lugar de alguém que realmente precisava de ajuda". Ela não queria passar pela humilhação de ter alguém dizendo a ela que não, ela não estava infartando nem tendo um AVC. Era tudo fruto de sua mente, uma alucinação. Não queria mais nenhum olhar de pena, não queria ser tratada como alguém instável, não queria que vissem o quanto ela estava se despedaçando.

Talvez por isso tenha se rendido aquela ideia maluca, talvez por isso estivesse olhando o chat com Neji Hyuuga e se permitindo o benefício da dúvida. E também por isso, bloqueou a tela e disse a si mesma que lidaria sozinha, mais uma vez. Se nem mesmo Sasuke, que era Sasuke, queria lidar com o que ela era, porque com Neji seria diferente? Era melhor manter-se "normal" antes que o Hyuuga fosse embora também, e ela se odiou.

O único consolo que teve foram as palavras ditas, anos antes, pelo próprio ex namorado: depois da chuva, vinha o arco-íris. Sempre vinha.

Nunca imaginou um dia chover tanto assim.

🌊

Sakura estava uma pilha de nervos.

Elegantemente sentada no banco do passageiro da Hillux preta de Neji enquanto os dois pegavam a trilha para o prédio de medicina da Universidade de Konoha, ela observou a rotatória, metros à sua frente, e remexeu os óculos de sol que protegiam seus olhos. Encarou o Hyuuga, que dirigia tranquilamente, relaxado sob o banco de couro, murmurando a letra de Old Yellow Bricks. Sorriu involuntariamente.

Como ele conseguia ficar tão sereno?

Bem, era verdade que a Haruno se acalmara, mas estava tão aflita por dentro, tão nervosa com aquela manhã. O que as pessoas diriam sobre o casal medicina? A verdade era que aquele questionamento era hipócrita, Sakura não estava nem aí para o que os outros diriam, a pergunta que queria fazer era o que ele diria? Como ele se sentiria? Sasuke ficaria quebrado, tão quebrado quanto ela estava?

— No que tanto pensa, amor de mi vida? — Seus pensamentos foram interrompidos por Neji, um sorriso de canto dançou pelos lábios da garota antes que ela respondesse:

— Nada, eu só... — Fez uma pausa, suspirando. — estou um pouco ansiosa.

— Não vai ser muito diferente do que fizemos na sorveteria ontem, e nos saímos bem. — Ele falou, a mulher apenas concordou com um aceno de cabeça. Não conteve uma risada nasalada. — É engraçado ver a senhora Sakura toda insegura.

— Como assim? Não estou insegura. — Mentiu ela, empurrando a mochila para os pés e ocultando a sandália dourada de tirinhas que deveria deixá-la uns cinco centímetros mais alta. Sentiu o vento bater contra a própria mão quando a colocou fora da janela, tentando manter uma postura despreocupada. — E senhora Sakura? Ah, Neji. Você é impossível.

— Já falei que é amor, senhora Sakura. — Os dentes brancos do Hyuuga destacaram-se quando ele sorriu. — Depois eu que sou impossível, nunca vi mulher tão teimosa. Não é atoa que é melhor amiga da Hinata.

— Hina é outra, isso deve ser de família. — Sem perceber, ela estava sorrindo. Relaxou sob o banco, pensando em pegar o celular na mochila.

— Cuidado com o que fala, mi amor. — Pelo sorriso mordaz, ela sabia que mais uma gracinha estava a caminho. — Você é da família agora, uh?

— E você é atrevido, amor de mi vida. — Sakura adiantou-se, chegando perto dele, ou tão perto quanto o cinto de segurança permitia. — Já vou avisando que esse atrevimento logo vai acabar, viu?

— É mesmo? E vai acabar como? — Sob o pretexto da parada obrigatória, ele tirou as mãos do volante quando chegaram à rotatória, encarando a rosada diretamente. Ela disse a si mesma que a proximidade havia deixado-a atordoada, já que nunca havia ficado tão perto do Hyuuga até então. E era apenas isso, não estava nem reparando que as duas luas de Neji fitando sua boca, e com certeza seu coração acelerado não tinha nada a ver com o fato de que o mantra "ele vai me beijar" ecoava em sua mente. Não é que ela não conseguisse falar, Sakura só não queria.

Nem soube descrever o que sentiu no momento em que o primo de Hinata segurou seu queixo gentilmente, levando a outra mão para a nuca da garota, por trás dos fios róseos, e a beijou. Nada de selinhos castos dessa vez, ele invadiu a boca da Haruno, explorando cada canto com lentidão, quase como se a saboreasse.

Tudo o que conseguia pensar era que estava beijando Neji Hyuuga e gostava da sensação das línguas se misturando, do perfume amadeirado que exalava dele, dos arrepios que as carícias em seu cabelo proporcionaram, do quanto seu coração estava acelerado. Daquela adrenalina que aflorou de repente, deixando-a quase sem fôlego.

Mas ela não teve muito tempo para tentar pensar, porque assustou-se com o barulho alto da buzina. Eles acabaram separando-se, tentando regularizar a respiração, e Sakura olhou na direção do barulho, quase engasgando com o ar: era Sasuke que buzinava, impaciente, para os dois. A pele rubra da Haruno ficou lívida em instantes, enquanto ela encarava o Civic prata do Uchiha, que vinha da entrada contrária a deles.

As orbes ônix encontraram as esmeraldas, carregadas de fúria. Ele olhava para Sakura como se ela fosse sua pior inimiga, o ódio visível no rosto colérico, a rosada encolheu-se minimamente. Mas nada se comparava ao olhar que lançou à Neji, que tinha um sorrisinho cruel nos lábios. Encarou os olhos perolados que tanto odiava, apertando a buzina, tentando não esmagar o volante sob as mãos. Parou de fazer barulho.

Sakura podia perceber, todos haviam parado para observar, esperando uma reação de algum dos lados. Mas ela própria não tinha nenhuma reação, apenas escutou a risadinha provocativa do Hyuuga, enquanto ele encarava Sasuke. Até tentou fazer o mesmo, mas desconfiava que conseguira, no máximo, um sorriso amarelo. E a reação foi imediata.

Sasuke acelerou o motor, saiu cantando pneus.

Era oficial, Sasuke Uchiha pagaria por todos os seus pecados. E eles sequer haviam começado. 


━━━━━━ •☪• ━━━━━━


E aí meus amores!

Como vocês estão? Espero que bem. 

Pois agora o parquinho tá começando a pegar fogo, hein?! HAHAHAHAHA adorooooooooooooo! O que mais gostaram no capítulo? 


Beijoos, até o próximo!

Qᴜᴀɴᴅᴏ (Nãᴏ) Cᴏɴᴛʀᴀᴛᴀʀ Uᴍ Nᴀᴍᴏʀᴀᴅᴏ ᴅᴇ Aʟᴜɢᴜᴇʟ, NᴇᴊɪSᴀᴋᴜOnde histórias criam vida. Descubra agora