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-- ... Eu vou manter uma das chaves só para ter certeza que não vai bisbilhotar. Se alguma delas ficar irritada querendo ficar choca, não deixe. Eu não tenho um galo, só seria os aquecer para estragarem. E se for limpar as paredes, cuidado com os quadros.

A data havia chegado, e a decisão tomada. A receptora do discurso era uma masic jovem de cabelos castanhos. Pela maneira como falava, parecia ser um discurso repetido, mas não para ela. A última pessoa que recebeu algo semelhante, sequer igual... bom, não a via a mais de seis anos.

-- Entendo, Sr Lemiroy. O senhor também tome cuidado, que a estrada é traiçoeira após uma nevasca.

-- Irei, Aimée. Mesmo se não o soubesse, não estarei sozinho nela, então será o menor dos meus problemas. Agora, é melhor que eu parta logo e evite que a velhinha sofra desnecessariamente.
Falou ele indicando a mula com o que levaria. Nada enorme, só o que julgou necessário. Uma área cinza em uma coberta branca.

-- Moça Ai -- piou uma vozinha de criança -- se a Fifi dormir no chão, ela não caiu do poleiro, ela só gosta do chão.

Ele dá nome pros bichos? E separa por gostos?
-- Entendido, obrigada.
Isso pareceu satisfazer o menino, que se adiantou e praticamente escalou a mula para poder subir. Fora da sela.
-- Novamente, tenha uma boa viagem, Sr Lemiroy.

-- Obrigado, Aimée.

Feito tudo, se juntou sobre o animal e puxou o filho para que se apoiasse em si. Mesmo depois de tomar alguma distância, ainda via a jovem masic lhe acenando.

Houveram cumprimentos quando passou pela rua. Morar em uma vila, e ainda mais como artista, era quase garantia de ser conhecido. A maioria era simplesmente educados, com um ou outro expressando intenções nem tão puras. Não que fosse uma novidade. Mesmo com a proximidade dos trinta e o dever de maternidade a cumprir, era nítido que a beleza de Encre ainda não havia começado a murchar.

Para a sua felicidade, quem lhe recebeu já aguardava à porta da igreja. Era uma metazoan gata, que lhe acenou quando avistou.

-- Boa tarde! -- ela saldou -- Senhor Lemiroy?

-- Sim, senhorita...

-- Selene. Apenas Selene, por favor.

-- Entendido, Selene Por Favor. -- dos três presentes, foi o único que riu do próprio gracejo -- Este pequetucho aqui é o Langer. Imagino que lembre da minha carta?

-- Sim senhor. -- ela inclinou a cabeça enquanto o olhava, e algo no olhar dela o deixava desconfortável, fazendo se agarrar ainda mais às roupas da mãe -- Imagino que tenha pego a aparência do pai?

Talvez fosse a sensação de puxar acompanhando, mas o sentimento acabou correspondido.
-- Sim.
Foi a única resposta que deu. Não estava errada, não totalmente, mas que lhe interessava o companheiro que não teve?

Aparentemente, a resposta seca não era a que esperava, mas como uma profissional ajeitou sua expressão e voltou a oferecer o sorriso receptivo.

-- Entendi. Oh, bem, estamos gastando tempo quando nos cabe é a chegada. É solstício! A noite não terá piedade.

E a dupla partiu.

Houveram olhares, novamente, em que não notou a mesma gentileza de antes. Por quê? Bom, não é agora que vai ficar pensando sobre isso.

Depois de penetrarem com os animais na estrada, o montante de neve se tornou mais evidente do que nunca, já que quase não havia quem se incomodasse de retirar a cobertura branca.

-- Me siga, -- ela voceirou em certo ponto -- que há uma ramificação que encurta o caminho. Talvez não conheça, essa trilha não é muito usada, mas é segura e rápida.

Bom, evidentemente sua mula estava menos empolgada para seguir o caminho do que a si, mas, contrariando o estereótipo, acabou por aceitar e prosseguir.

Mesmo se o que a moça - Selene, lembrou a si próprio - disse era verdade, o caminho parecia estar tomando horas. Mesmo com copas de árvores no caminho, podia ver que o sol já havia mudado de posição.

-- Isso realmente é um atalho?

-- Ah, sim. O caminho é um tanto íngreme, entende? Então é necessário fazer muitas voltas para não ter uma queda horrível.

-- Sim, entendo.
É razoável, verdade. Ainda, deveria levar horas?

Mais adiante, e era como se estivessem se embrenhando no mato, em vez de seguindo uma estrada. Às vezes sentia o filho puxar sua roupa com mais força do que alguém que só quer manter firmeza, o que tomou por medo do lugar desconhecido, até lhe bater: patas, e galhos balançando. É claro, deviam haver animais por lá. E, considerando o tipo de animal que podia haver naquele ambiente, escolher uma alta de inverno se repente pareceu uma ideia bastante inteligente.

Atalho ou não, o ponto era que já devia ser baixa tarde quando realmente chegaram perto. Era impossível deixar escapar a aproximação de tal lugar, mas realmente estar perto fazia uma diferença que não conseguia descrever.

-- ... Mamãe?
A mula havia parado cansada pouco tempo antes do pouco mais alto do que um sussurro. Sempre quieto, hm? Mesmo quando chamando.
-- Eu preciso fazer xixi.

-- Não pode esperar um pouco? -- o pequeno fez que não, com a expressão de alguém segurando o choro; Encre suspirou -- Seja rápido, ok?

Langer acentiu, e se soltou, indo para atrás de uma das árvores.

-- Parece ser um bom menino -- Selene comentou na calmaria -- Facilita que seja quieto.

-- Às vezes eu me preocupo que seja quieto demais, senhorita.

Por um lado, havia dado algum tempo para os animais descansarem, por outro, não foi tão rápido quanto havia esperado.

Em parte, havia esperado um pedido de desculpas - conhecia o próprio filho, afinal -, mas no lugar recebeu um puxão na mão para pôr algo sobre ela. Uma vez recebido, a trouxe para perto do rosto, para ver melhor o objeto esverdeado.

Uma folha? Não.

Um dente.

Vampire Verse - Sun and MoonOnde histórias criam vida. Descubra agora