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Provavelmente teria pensado mais sobre isso antes se não estivesse com a mente cheia com outros assuntos, mas aquela construção era esplendorosa. Nitidamente era antiga, talvez mais do que o burgo onde morava, mas bastante conservada, visto que fora construída em uma época em que as coisas eram feitas para durar.

Selene avançou na frente dos dois, enquanto Langer terminava de cuspir sangue na neve (esse dente já estava mole mesmo?) e Encre levava seu animal para um estábulo externo, tirando uma chave do bolso e abrindo o portão.

-- Os convidados chegaram! -- ela anunciou com ânimo que não havia visto antes em sua voz, antes de se voltar para o exterior, onde a dupla ainda estava -- São convidados, lembra? O convite formal já receberam. Entrem de livre vontade, saiam em paz, e deixem alguma felicidade quando partirem.

Encre estranhou a súbita mudança calorosa, mas acabou ignorando; estavam em um estrada no meio da neve, não poderia esperar algo diferente, então simplesmente agradeceu baixo e deu o primeiro passo para entrar, quando sentiu uma mãozinha puxar seu pulso.
Langer ainda tinha um fio de sangue na boca, e os olhos amarelos pareciam trêmulos de medo enquanto ele balançava a cabeça em negação.

-- Assustado? -- perguntou em tom calmo que era em parte forçado, vendo a criança acentir. Haviam demorado para chegar, e queria sair daquele frio, por favor! -- Eu sei que um lugar estranho, mas pode ser uma boa experiência. -- Não movia mais a cabeça, mas seus olhos já mostravam que não estava convencido; parece que cores e formas não são tão grandiosos em se tratando de transmitir o que se sente - os dele eram sempre iguais, mas diziam muito -- Vem, eu vou te carregar.

Não realmente esperou por resposta, apenas o pegou no colo, e o sentiu se agarrar a si como se fosse uma corda na boca de um precipício. Decidido, quando estiver terminado, vai o tirar de casa mais vezes.

Entrou o carregando, e escutou a mulher gata fechar o portão atrás de si. Foi uma mudança agradável, com o ar morno substituindo o frio intenso, fazendo a neve nas roupas derreter e molhar os tecidos.
Houveram mais passos se aproximando, e outra mulher entrou no lugar - outra metazoan, dessa vez uma coelha.

-- Seja bem vindo! Aqui, permita que eu lhe recolha esse casaco molhado. Algo aconteceu na vinda? -- a última parte saiu mais baixa ao ver o resto de sangue, e em resposta o menino mostrou o buraco onde estivera seu dente -- Awn, parabéns. Se façam confortáveis, que Lord Fallacy só chega novamente à noite. Se precisarem de qualquer coisa, meu nome é Gazelle.

Ok, não era exatamente um velhote, mas era um pouco difícil de acompanhar. Talvez estivesse lendo demais, mas ela parecia um pouco muito animada com sua presença, mas não queria ser mal educado, apenas apenas foi concordando até aquietar.

-- É a governanta, -- dessa vez quem falou foi Selene -- às vezes se empolga com gente nova, mas é uma boa moça.

-- Acredito em você.

A coelha (Gazelle, se lembrou) voltou pouco tempo depois, para lhes mostrar onde iriam dormir - não se pode apressar esse tipo de trabalho, e em inverno todo cuidado é pouco.

O cômodo lhe surpreendeu com a aparência. Sim, a arquitetura não contrariava em nada com o que pegou de relance ou pelo exterior, mas tinha uma aparência relativamente simples, com apenas cama, armário e escrivaninha - embora esta e a mesa de cabeceira tivessem mais gavetas do que imaginava que uma pessoa organizada saberia o que fazer com. Mas apenas a aparência: tocar nos lençóis e batucar na madeira deixou óbvio que qualidade não era algo que passava batido. Por um instante, se pegou se perguntando se era um cômodo para convidados desde o início, ou um cômodo servil convertido após algum tipo de incidente. Não que realmente importasse a si, que passara quase sete anos vivendo como camponês. Teria conforto e, apesar das paredes de pedra cinzenta, a lareira e a luz refletindo na neve ajudavam a manter uma boa iluminação.
Voltou a fitar a cama, ajustando a criança agora adormecida em seus braços, de repente bastante ciente que passou horas sobre um animal e entrou usando roupas molhadas. Não faria mal perguntar se poderia tomar um banho, certo? Lhe parecia errado considerar se deitar lá sujo.

Bom, seu anfitrião só chegaria à noite, então o fez, e para a sua alegria, não só foi permitido mas realmente recebeu privacidade para aquilo - talvez andou lendo contos demais, ou talvez foi por ter pego as mudas de roupa antes de entrar.

Langer acordou enquanto tirava seu capuz, mas não parecia mais tão assustado. Talvez foi apenas um temor temporário. Ainda tinha que o segurar e ajudar, sim, mas achava bonitinho que já começava a tentar sozinho por conta própria. No meio, acabou o mostrando que o dente bem ao lado do buraco - o canino - já estava mole também. Ele estava mole ontem? Ou de manhã? E logo após o primeiro cair? Porque estava estranhando o tempo de troca dos dentes, considerando que é o mesmo menino que o seguia com apenas os pés em menos de meio ano de nascido?

-- Você sabe que um lugar estranho não é nada comparado a ficar no frio, não sabe? -- perguntou ao filho enquanto o ajudava a se secar -- Não te culpo, porque já tive, mas pode ser algo bom.

-- Não foi do lugar, mamãe.

-- Então do que foi?

-- Não sei. Senti que alguma coisa ruim ia acontecer se entrasse.

-- Às vezes é assim mesmo que parece. Como eu disse, meu amor, pode ser algo bom.

A maior parte da roupa foi trocada, mas se recusou a não pôr seu capuz - lhe deu uma limpeza vagabunda e pôs ainda meio úmido, então o acompanhou quando resolveu andar pelo lugar enquanto esperava.

Sim, o lugar ser grande era algo óbvio, mas por dentro parecia ser ainda maior. A estrutura era bastante elegante, embora as paredes cinzentas lhe causassem certo incômodo (ao menos não eram brancas). Cinzas e bem lisas. As olhar lhe deixou mais claro do que nunca porque a necessidade de contratar um pintor e se preparar para que ficasse por dias.

O entardecer chegou lento e preguiçoso, os tons de amarelo e rosa banhando qualquer superfície que tocavam. Junto a ele, a nevasca mais impiedosa que já havia testemunhado, através da janela do salão principal. O vento batia com tanta força que podia o ouvir raspando contra o vidro. Por um momento, enquanto aninhava seu filho que parecia mais desconfortável a cada minuto, se pegou de perguntando se Lord Fallacy realmente conseguiria chegar em um pedaço só, considerando que as criadas deram a entender que estava fora.

Suas preocupações foram curtas, no entanto, quando ouviu passos entrarem pelo corredor até o cômodo onde estavam.

Para a sua surpresa, não parecia ser muito mais velho do que a si, talvez uns trinta e cinco anos. Tinha os ossos tão pretos que sequer podia dizer onde havia uma sombra, e a vestimenta, embora elegante em corte, totalmente em preto e cinza escuro, mas eram duas outras coisas que lhe chamavam mais a atenção: as órbitas, que possuíam em si cada cor primária e eram contornadas com marcas azuis que as enquadravam como duas partes de uma máscara, e seu crânio, que parecia se desfazer em fumaça e se restaurar constantemente.

-- Saudações. -- ele se pronunciou, pondo um braço cruzando seu peito, em um gesto respeitoso; sua voz era grossa e um tanto rouca, mas não algo desagradável de ouvir -- É um prazer vê-lo pessoalmente, jovem Encre.

Vampire Verse - Sun and MoonOnde histórias criam vida. Descubra agora