Capítulo 2: Guerreiro nível um.

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Não fazia ideia de onde Cecília tinha tirado aquilo, porque não ouvi absolutamente nada sobre qualquer torneio criado pelos falesianos para o nosso povo. Parecia uma coisa improvável. Eu tinha absoluta certeza de que eles não gostavam nem um pouco de nós. Eles podiam atravessar a barreira e vir até aqui, lutar na arena e fingir que eram boas pessoas, enquanto ficávamos presos nesse lugar. Eles distribuíam sorrisos pra nós, fingindo uma gentileza que eu não conseguia engolir.

De qualquer forma, torneio e Zaia Scott são coisas completamente incompatíveis, mesmo que eu treine sem parar e deseje ser uma guerreira. Meu tio nunca me deixou por os pés dentro da arena para lutar de verdade, com medo que eu fosse partida em pedaços. Batalhas aconteciam lá diariamente. Falesianos dando espetáculos para nos agradar e arcadianos competindo em torneios para saber quem era o melhor, além de ganhar uma boa quantia de moedas.

O que quer que os falesianos estejam preparando para o meu povo, estou muito longe de poder participar. Teria que me sentar nos bancos da arena e observar, como eu sempre fazia, vendo outras pessoas realizando o maior sonho da minha vida. É deprimente e frustrante. Mas tudo em Arcádia é assim, então eu não posso fazer nada além de me contentar com a verdade.

—Você está atrasada. —Fred resmungou assim que passei pelas portas do mercado, me lançando um olhar repleto de escárnio pra mim. Parei no mesmo instante, exibindo a expressão mais doce de todas.

—Ah, me perdoe, Fred. Deixei todos os clientes esperando. —Olhei ao redor, gesticulando a mão para o nada, já que não havia uma alma viva dentro daquele mercado além dele. Ao redor, apenas as prateleiras cheias de sacos de variados tamanhos, além das frutas e verduras que estavam as moscas. —Prometo chegar mais cedo amanhã, para não deixar essa fila enorme de compradores esperando.

—Eu guardaria esse senso de humor de merda pra você hoje. —Fred praticamente rosnou as palavras pra mim, enquanto eu revirava os olhos e caminhava até o balcão do mercado, enrugando o nariz com o cheiro de peixe que ocupava aquele lugar. —Marcos não está nem um pouco feliz hoje.

—E quando é que nosso chefe está feliz? —Retruquei, lançando um sorriso mais debochado ainda pra ele, que fez Fred grunhir em frustração, antes de sumir da minha frente.

Revirei os olhos de novo, porque não havia nada mais degradante do que trabalhar naquele mercado com Fred e Marcos. Fred era um puxa saco de primeira, fazendo tudo para agradar nosso chefe. E Marcos era o chefe mais asqueroso que tive o desprazer de conhecer. Mas como sempre não tive muita escolha quanto a isso, já que arrumar trabalho nesse lugar era praticamente impossível e não pude recusar quando Marcos gentilmente me ofereceu o emprego, depois de sugerir descaradamente que eu fosse pra sua cama. Não fiz a segunda coisa, mas aceitei o emprego porque precisava.

[...]

Eu e Ayla tínhamos uma rotina interessante juntas. De manhã nos encontrávamos para ajudar Cecília a abrir a loja e arrumar as coisas. Depois nos despedíamos e íamos cada uma para nosso trabalhos. Enquanto eu trabalhava no mercado, ela era ajudante de uma das poucas costureiras da cidade. Então a noite nós duas nos encontrávamos na frente da arena, para assistir todas as batalhas que teriam.

Normalmente eu não era uma pessoa que gostava de assistir a batalhas, porque só conseguia pensar no quanto queria estar lá embaixo, no lugar daqueles guerreiros, ouvindo os gritos e assobios da plateia. Mas Ayla tinha o dom de me convencer a fazer qualquer coisa que ela queria. Era difícil dizer não para Ayla, quando ela era minha única amiga naquele lugar. Sem ela minha vida seria ainda mais deprimente.

—Quais são as lutas de hoje? —Indaguei, enquanto eu e Ayla desviávamos das pessoas na arena, procurando um lugar para nos sentarmos. Mas como todos os dias, a arena estava lotada de arcadianos, ansiosos para assistir dois falesianos lutando. Não posso os julgar por isso Guerreiros falesianos lutam como demônios, de uma forma muito diferente dos guerreiros de Arcádia.

As Crônicas de Scott: A Profecia / Vol. 1 Onde histórias criam vida. Descubra agora