•08

3 0 0
                                    

Com 11 anos descobri que tartaruguinhas tem seu sexo definido através da temperatura do local que nasceram.

Não sabia da existência de decotes em formatos de coração até ver um.

Não ouvinte, não o decote coração que você conhece, pense num coração desenhado e recortado no meio do busto de uma roupa qualquer, exatamente isso que Camila Martins vestia na quinta-feira passada (não essa, a outra!), junto com suas calças rasgadas e boné para trás, com um sorriso estampado em seus lábios vermelhos, olhos verdes e aquele cabelo numa tentativa de ruivo com uma mecha descolorida, enquanto esperava na frente de Ipê-amarelo com um buquê de flores enorme e muito fôlego para dramaticidades.

Eu não aguentei um minuto daquele show, puxei Vicky para dentro do colégio de novo, sentamo-nos num banquinho de concreto e dei batidinhas em suas costas até a garota reagir ao mundo, senti Pitty cantando a frase "Pani no sistema alguém me desconfigurou" na cabeça da menina. Quando ela finalmente pareceu estar na terra de novo, se jogou no meu colo e chorou. Chorou bastante. Acariciei seus cabelos e contive todo e qualquer "eu avisei" na ponta da língua. O fato é que eu tinha avisado mesmo, sempre aviso, mas tenho que entender que por mais que as pessoas esperem conselhos, todo mundo no final só faz o que quer.

-Eu não sei por que eu ainda espero que seja diferente...

Ela falou com a voz abafada de seu rosto nas minhas pernas. Demorei um pouquinho pensando e a garota se levantou com o rímel escorrendo tal qual os canais de Recife.

-Não vai falar nada?

Disse entre soluços.

-Eu estava pensando em alguma música com uma mensagem pro momento, não lembrei de nenhuma.

Falei passando os dedos por baixo de seus olhos, mas a situação estava feia.

-Devem existir algumas sofrencias sobre um mulher apaixonada por alguém comprometido, não?

-Deve, conhece alguma?

-Não lembro.

E começou a chorar de novo. Iana apareceu com seu casaco preto com um sapinho minúsculo no meio e suas calças pretas rasgadas (que estranhamente ninguém reclama sobre), que eu já acredito ser seu próprio uniforme escolar. Ela passou por nós e voltou, encarou a cena por um tempinho.

-Aconteceu alguma coisa?

Achei que Vicky iria desmentir, mas quase no mesmo momento falou fungando:

-Gosto de uma menina, que namora, e acho que sou quase uma amante? Tem uma música de amante da Marília não tem Júpiter?

-Têm sim.

-Que merda.

Iana falou e se sentou ao lado de Vicky, tirou um pacote de lencinhos da bolsa e limpou os olhos dela.

-Iana, sou da sala da Júpiter.

-Victória, sou amiga da Júpiter.

Eu me deixei rir um pouquinho da apresentação.

-Na verdade ela já te conhece, você é "a menina bonita que toca ukulele".

Falei e Iana riu, tirou o instrumento da bolsa como se nada, pensava que deveria existir um case pra isso.

-Já quis formar uma banda, mas não sei cantar.

-Ah eu também, mas não sei tocar.

-Eu não sei nenhum dos dois.

Rimos.

-Toca pra gente.

Vicky pediu e esperei que Iana começasse a dedilhar alguma música de Legião Urbana, era isso que ela tocava todo santo dia, Tempo Perdido e Eduardo E Mônica são minhas favoritas, e já a vi tocando as duas várias vezes pra saber que ela tem talento. Não... Não é por nada não, gosto muito de Legião, mas acho que se a garota não variar o repertório, alguém vai acabar confiscando seu instrumento...

Você leu todos os capítulos publicados.

⏰ Última atualização: Jul 16, 2021 ⏰

Adicione esta história à sua Biblioteca e seja notificado quando novos capítulos chegarem!

Furacões Em JúpiterOnde histórias criam vida. Descubra agora