33. Nós só vamos conversar. Por favor.

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Três dias depois

Lembrava-me, vez ou outra, de que quando eu era mais jovem e estava muito irritada com alguma situação, ou apenas descontando nas pessoas que não deveriam quando algo me aborrecia, Paul me mostrava o lado bom da vida. Sua ex-namorada de Londres havia o convidado para o seu casamento, e como uma grande amiga, aceitei acompanhá-lo.

E o estranho fato de eu não ter me contido me deixava confusa. Quando fui ao casamento de um amigo antigo de Alison, não me lembro de nada além de virar vários shots de whisky com uma outra mulher. Megan era o nome dela, e eu ainda conseguia sentir, ao menos o cheiro do perfume caro que usava naquele dia. É claro que mal fiquei no casamento, e felizmente cheguei ao aeroporto antes de Ali contatar a polícia alegando que eu havia sumido, quando apenas havia tido uma noite divertida com aquela moça.

Mas naquela manhã, após fazer a mesma coisa no casamento da ex-namorada de Paul e, ao acordar, olhar para ambos os lados e ver as mulheres que me cantaram a noite inteira, cobertas, entretanto nuas, abraçando-se em meu corpo enquanto dormiam serenamente, eu não me sentia da mesma forma. Sentia como se estivesse violando uma regra rigorosa sobre não se deitar com outras mulheres enquanto... enquanto me relaciono com alguém. Mas eu não estava me relacionando com ninguém, então não haviam razões para me preocupar com nada. Diferente de Delphine Cormier, eu não traía.

[...]

– ... e eu posso garantir que o discurso daquele sujeito foi todo copiado da internet Cosima, eu tenho certeza!

– Uhum – murmurei fingindo prestar atenção, mas não conseguia, minha cabeça estava explodindo.

– E sinceramente, ele não é o cara certo para ela, sabe? Talvez ela devesse ter avaliado a situação melhor antes de decidir casar-se de vez.

– E quem é o cara certo? Você? – respondi com desdém pegando a caixinha de suco de uva para tomar o que havia restado.

Foi então que Paul parou de falar, e ficou me olhando em confusão. Ele não sabia se focava na direção, ou nos óculos escuros que eu usava para minimizar a luz do dia e, consequentemente, minha dor de cabeça.

– Pensei que você ficaria melhor se transasse com aquelas duas – comentou calmo, e dei uma última sugada no canudo do suco antes de descarta-lo.

– Não posso reclamar, elas são maravilhosas – comentei me recostando sobre o banco – Mas eu não estava no clima para isso. Não estou há muito tempo.

– Não acredito que Delphine Cormier estragou a minha amiga. Cadê as piadas do dia seguinte? Cadê os detalhes sobre como você acordou em uma cama cheia de mulheres e está pronta para outra?

Eram perguntas demais para aquela hora da manhã. Honestamente, parecia que Paul estava brincando com a minha cara, e que sabia que eu cederia à uma noite com outras mulheres apenas por estar magoada com Cormier. Mas nada disso importava mais. Ela, não importava mais. E ainda assim, eu não conseguia recuperar a minha antiga vida de volta, e isso me machucava insanamente. Delphine havia arrancado tudo o que eu tinha de melhor a oferecer, mesmo que indiretamente.

– Pois é. O casamento foi um saco, aliás. Aquele terno estava todo amarrotado – comentei afim de mudar de assunto, virando para o vidro do carro para observar a paisagem.

Paul falava sem parar sobre o casamento enquanto dirigíamos de volta para a cidade, e mesmo sem prestar atenção, eu respondia à todos os seus comentários. Inclusive os mais esquisitos. Senti meu novo celular vibrar dentro do bolso da calça que usava, e curiosa para saber quem teria a audácia de me contatar em um sábado de manhã, o arranquei do bolso a acendi a tela de bloqueio.

Não diga que me amaOnde histórias criam vida. Descubra agora