Animais mortos aparecerem em torno de uma vilinha cuja periferia praticamente se misturava a ela, ainda mais tão pouco depois do início da primavera, com predadores famintos saindo de suas zonas de conforto por uma refeição satisfatória, não era exatamente incomum. Às vezes pessoas também, e isso também não era incomum. A floresta é a fronteira entre várias províncias, até mesmo entre reinos, onde viviam foras-da-lei e ladrões, e predadores; mesmo se um assassinato acontecesse dentro dela, e pudesse ser dito com certeza que foi um assassinato, apenas um tolo tentaria clamar jurisdição sobre ela, e um monarca com poder sobre um país não poderia estar mais distante dessas pequenas realidades tristes. Não fosse o fundo de realidade, talvez essa fosse ser a razão para ser o cenário da maioria das lendas.
A curandeira da vila onde ocorria era uma mulher cabra de uns bons oito pés de altura. O que sabia, havia aprendido com a anterior ou ao longo de seus próprios anos - que não eram poucos - em uma das mais tradicionais formas de medicina. Uma que outras partes da Europa desdenhavam como atrasada ou obsoleta, mas que para uma vilinha como as daquela província, em que menos de um terço da população era letrada e "universidade" era uma palavra que só a elite não considerava quase mística, era uma verdadeira benção.
Infelizmente, como alguns sabem, nem sempre se tratava de ajudar alguém a viver um pouco mais. Às vezes, alguém levaria o corpo já sem vida de algum parente ou amigo para que ela ajudasse a descobrir o que aconteceu.
Não que fizesse uma diferença gritante, visto que já era uma velhinha e a anterior também era quando a fez aprendiz, e podia contar nos dedos quantas vezes sabia em que o exame havia ajudado a determinar um assassinato. Quase sempre era simplesmente um modo de preencher buracos e trazer alguma certeza para os enlutados.Quando o corpo de um homem foi achado na floresta ao redor da vila, dois dias depois do início da primavera, foi algo recebido com tristeza, mas não com surpresa. A ferida grotesca em seu braço indicava um ataque de um animal, algum predador faminto havia de ter saído de seu território e o atacado, mas desistiu por a carne estar rígida pelo congelamento.
Foi só depois de algo semelhante acontecer três semanas depois que realmente causou estranhamento - principalmente considerando que dessa vez não havia nenhum sinal de congelamento e mesmo assim a ferida no braço era a única. Nesse caso, sobrou para a senhora procurar algo estranho.
Apenas examinar não levara muito longe - morreu por perda de sangue devido à ferida, que rasgou uma das veias - mas saber que havia sido visto vivo na tarde anterior, lhe dando certeza que estava morto a menos de um dia, o fez.
A alma é, essencialmente, a parte mais vital em um ser humano, além de ser os que os fazia humanos. Quando uma pessoa morria, a alma não tinha ao que se conectar e se destruía.
Uma morte de menos de dois dias deveria ter um rastro, mesmo que fraco, da alma do falecido. Mesmo no terceiro ou quarto, o oco deixado seria notável. No entanto, aquele corpo de menos de um dia não possuía rastro algum. O que só poderia acontecer se a alma fosse... tirada intacta.Mas quem sequer era capaz de roubar uma alma? E, mesmo que seja só mais uma habilidade passada porém não praticada, por que alguém o faria? A área estava limpa a décadas, não estava?
Havia se passado mais sete dias, quando um terceiro corpo foi encontrado, em condições semelhantes. Era uma moça, que havia sido pega tentando voltar, e ninguém ouviu o que queria dizer.
Ninguém a ouviu contar que havia entrado indo até um rio lavar as roupas de sua casa, mas perdeu a noção do tempo e acabou ficando até anoitecer. Ninguém a ouviu contar sobre o quão alerta estava, por medo de aparecer algum animal.
Ou que, voltando, havia visto uma criança esqueleto se aprofundando no meio das árvores, as barras da roupa dobradas deixando seus membros parcialmente expostos, o preto dos ossos e do capuz quase camuflado sob a luz fraca do luar que mal penetrava nas copas das árvores. Ou como curiosidade tomou o melhor de si e decidiu parar e observar.
Como a criança evitada e buracos e saliências com a maestria silenciosa de um gato, ou o terror que sentiu quando em uma clareira havia um lobo farejando o solo, e apenas lá voltou a andar como gente, e ergueu as mãos próximo ao rosto, dando sinais óbvios que estava lá.
O lobo não tardou para notar a presença, e disparou sobre o pequeno com ferocidade, seus dentes cravando no antebraço nu do menino. Que viu o rosto se torcer pela dor, mas o pequeno corpo não recuar, em vez disso o braço livre se enrolando em torno do pescoço do animal, e então ele próprio o morder perto da nuca, mas nem de longe com a delicadeza que andava antes, os dentes verdes que de maneira alguma pertenceriam a um ser humano abrindo um buraco enorme que sangrava terrivelmente.
Não pôde contar como nunca antes achara que algum dia teria pena de um lobo, mas se viu incapaz de não sentir piedade pelo animal enquanto aquele ser com a aparência de uma criança humana bebia do sangramento que havia aberto de forma tão grotesca, o quadrúpede claramente querendo sair mas parecendo ter as patas grudadas no chão, até o braço sair de seu pescoço. Só então pôde se afastar choramingando, e fugir para a floresta, uma trilha de pingos deixada pelo sangramento. Ou como, enquanto ele limpava o rosto com as roupas, a ferida que o lobo abriu se fechava e curava, sumindo sem deixar cicatriz.
Quando acabou derrubando seu cesto, já estava de costas e indo embora, então mesmo se tivesse sobrevivido não teria o visto olhar na direção do som e notar que havia sido visto, ou o momento de hesitação enquanto se dava conta que não conseguiria passar limpo naquela semana, mesmo tendo achado por um momento que conseguiria.
Infelizmente para ela, rapidez não estava em sua vantagem, ainda mais com a quantidade de vezes que trombou em obstáculos que para o que vira eram fáceis de evitar.
Em um momento ele a pegou, e dela ninguém escutou nada.
Mas mesmo que suas palavras não tenham chegado a ninguém, seu corpo chegou, e a ausência da alma selou de vez a decisão.
Chamariam de volta caçadores.
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Vampire Verse - Sun and Moon
FanfictionEm uma área longe da capital, em um país essencialmente mandado pela igreja, festividades não cristãs eram o próprio fruto proibido. Mas, seria inocência demais achar que quem quer não daria um jeito. Encre podia não ter crenças, fossem cristãs ou...