Capítulo 1 - Tentando se mexer

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— É apenas assustador... Você está simplesmente dormindo e do nada você acorda. Você olha para as suas mãos; elas estão tentando se mexer, mas elas não conseguem. Daí você começa a chorar sentindo as suas lágrimas escorrerem pelo seu rosto e você fica só... paralisado. Tentando gritar, mas a sua boca não quer abrir e a sua voz não aparece. Você é obrigado a assistir porque os seus olhos não querem mais se fechar e então você pensa; "por que isso está acontecendo comigo?", enquanto você vê aquelas coisas na sua frente te observando e às vezes fazendo ruídos assustadores e você tenta falar para si mesmo que nada daquilo é real, mas... são; porque aquilo está na sua frente e você fica só... parado. É uma experiência terrível.

Estava em uma consulta com o meu psicólogo. Coisa estúpida. Eu não precisava daquilo, mas sabia que iria fazer bem para mim, mesmo de que não adiantasse muito. Estava sentada em uma poltrona bem aconchegante por sinal, com um cara velho e barbudo na minha frente me dizendo coisas positivas, mas eu sabia que aquilo não iria me ajudar.

— Olha, Bill — disse ele, após anotar algumas coisas em seu bloco de notas com uma caneta e tirar os seus óculos do rosto —, eu sei pelo que você está passando. Nesse seu caso, paralisia do sono é super comum. Minha esposa já teve isso algumas vezes, mas parou logo depois de nos casarmos.

— Tá, mas como eu faço para isso parar? — eu disse enquanto me aproximava dele, mas sem sair da poltrona, apenas me inclinando um pouco deixando meu rosto mais próximo do rosto dele. — Sr. Schneider, eu já tenho isso desde os meus sete anos e desde então... eu vejo coisas. Eu vejo tudo que eu mais tinha medo em todos esses anos.

— E o que são essas coisas, exatamente?

Dei uma pausa pequena antes de responder. Não conseguia falar aquilo com um simples impulso pois era demais para mim. Me apoiei na poltrona novamente, olhando para o meu colar que a minha mãe tinha me dado que estava pendurado no meu pescoço, então comecei a cutucar nele, para sentir que eu estava junto com ela naquele momento.

— Meu pai.

Eu estava entrando no carro de minha mãe antes de sair do prédio de onde ficava a minha sala de psicologia. Minha mãe estava apoiada no carro olhando para a estrada enquanto tragava um cigarro. Ela disse que iria parar de fumar, mas ela sempre começa de novo quando está nervosa. Nesse caso eu não sabia o porquê de ela estar nervosa, eu que deveria estar nervosa.

Ela jogou o cigarro fora assim que me viu e ajeitou a sua jaqueta azul. Ela soltou um leve suspiro enquanto eu a encarava com desgosto. Sempre ficava irritada com ela toda vez quando a via fumando; ela sabia que eu não gostava, mas o seu maldito vício não a deixava parar. Eu entrei no carro sem falar nada como fiz a viagem inteira. Ela fez uma cara como se estivesse decepcionada consigo mesma, e ela deveria estar. Então ela entrou no carro. Eu continuei calada. Ela ficou me encarando enquanto eu encarava o vidro da janela do carro.

— Ah, vamos lá, Billie! — disse ela, me cutucando com a sua mão, tentando me fazer falar. — Você sabe que eu não consigo! Não fique brava comigo.

— A questão não é vício, mãe! — Me virei para ela com um olhar irritado no rosto. — A questão é você entender que isso é errado e se esforçar para conseguir parar!

— Você sabe que eu me esforço! — Ela fez a mesma expressão facial que a minha no seu rosto. — Você me vê lutando contra isso 24 horas por dia! É difícil...

Eu me virei para o vidro novamente, bufando. Eu sabia que a minha estava mentindo porque eu descobri o esconderijo de maconha debaixo de sua cama há quase duas semanas. Joguei algumas fora, mas não muitas para a minha mãe não perceber que eu tinha mexido lá. Joguei na privada e dei descarga.

Quando nós dormimosOnde histórias criam vida. Descubra agora