Capítulo 8 - Grampeie sua língua

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O macarrão com queijo que meu irmão tinha feito foi, de longe, o prato mais gostoso e mais bem feito que ele já fez na vida dele. Não sei se foi porque eu estava passando mal ou era porque ele apenas queria parar de fazer pratos queimados ou com sujeira. Parabenizei ele depois de comer e fui tomar o meu banho, deixando-o assistindo TV na sala de estar.

O banho foi muito relaxante. Há tempos que não me sentia tão relaxada daquela forma. Foi quente e bom, querendo que eu ficasse ali até morrer. Durante o banho, para variar, comecei a ouvir ruídos. Foram aumentando, aumentando, fazendo que eu desligasse o chuveiro para conseguir ouvir tudo com mais clareza, até que ouvi.

Billie Port...

Pesadelos, pensei. Eles voltaram.

Peguei a minha toalha que estava pendurada no box do banheiro e me sequei por completo. Saí do banheiro nua a não ser pelo roupão que tampava a maior parte do meu corpo. Chegando no corredor, olhei para os lados, tentando ouvir as vozes novamente, tentando imaginar de onde elas estavam vindo.

Billie...

Meu quarto. Ah, que maravilha! Fui até lá, a porta estava aberta até eu entrar e fechá-la. Fiquei parada lá dentro, imaginando o que eu poderia fazer. Estava tudo organizado e arrumado em seus devidos lugares. Minha escrivaninha com os meus materiais e objetos escolares (estava de férias, ainda bem), minha cama coberta com o lençol que minha mãe me dera de presente de aniversário ano passado, até as cortinas estavam abertas do tamanho que eu queria.

O que vocês querem agora?, perguntei em meus pensamentos. Novamente, sabia que eles estavam me ouvindo.

Billie Port... Billie... Grampos, Billie... Grampeie... Língua, grampeie, grampos... Billie...

Meu corpo gelou. Fiquei paralisada, como se estivesse em um dos meus pesadelos. Olhei ao redor. Não é possível que eu não tenha um grampeador por aqui... espera! Não é possível que eu esteja aceitando isso tudo da forma mais normal que existe! Merda, eu vou ter que grampear a minha língua? Isso não é justo em tantas formas, mas o que eu posso fazer? Lembre-se, Bill, é tudo pela sua mãe, seu irmão e seu... psicólogo. Que já se foi.

Fui até a minha escrivaninha, fazendo forças para não chorar. Não era assim que eu queria passar o final do meu dia, que já fora horrível desde o início. Não quero continuar dessa maneira, mas, de novo, o que posso fazer? Abri a primeira gaveta da minha escrivaninha... nenhum grampeador. O máximo que tinha ali eram os grampos que eu tinha comprado há quase dois anos e nunca usei, a não ser uma vez, que era quando eu e minha mãe estávamos fazendo um cartaz para um trabalho idiota da minha escola quando tinha 13 anos. De qualquer forma, aquilo já poderia ajudar. Coloquei o pacote de grampos em cima da escrivaninha, e, logo após isso, não me aguentei. Caiu uma de diversas lágrimas que foram escorrendo pelas minhas bochechas em cima do pacote de papel, que murchou.

Billie, se mantenha forte!, pensei, conseguindo engolir um pouco do choro, mas era quase impossível! Foi quando me dirigi à segunda gaveta (que era a última), e, depois dali, acabou. Se não tiver nenhum grampeador, não terei que fazer nada disso que meus pesadelos estão me mandando fazer. Isso seria um ponto para mim? Eu talvez iria ter que parar de fazer tudo que eles mandam? Talvez... sim, mas não sou eu quem decido, infelizmente. Abri a gaveta e... nada. Não havia nenhum grampeador ali. Um imenso alívio que nunca senti antes em toda minha vida percorreu pelo meu corpo. Não vou precisar fazer isso, obrigada, Deus. Mas minha alegria não durou por muito tempo.

Você não vai conseguir escapar dessa, Billie... Morte... Grampeie... Compre! GRAMPEADOR! COMPRE!

MERDA! Será que a vida nunca vai estar do meu lado em pelo menos um momento? Soquei a minha escrivaninha, dando um soco tão forte que nem imaginei que seria capaz de dar. Infelizmente, meu irmão escutou do andar de baixo.

Quando nós dormimosOnde histórias criam vida. Descubra agora