Capítulo 14 - O bloco B

4 3 0
                                    

A noite tinha se passado e, por mais incrível que pareça, não acordei tão mal. Minha boca estava muito seca na parte interior da garganta, acho que dormi respirando por ela. Existem as narinas para quê aliás se eu nem as uso? Olhei no relógio de ponteiro que ficava pregado na parede da cela e vi que ainda nem tinha se passado das seis, ou seja, a clínica ainda estava praticamente toda adormecida. E, também, o banheiro estava vazio. Hoje eu necessitava escovar os meus dentes, eu mesma já não estava mais suportando o meu próprio bafo e eu quero retirá-lo de minha língua o quanto antes possível.

Com muito cuidado para fazer o mínimo de barulho possível, consegui me sentar na minha parte do beliche, que rangeu um pouco, mas não foi o suficiente para acordar Shirley, que parecia sussurrar constantemente a palavra "senhor" repetidas vezes. Fui até a escada do beliche, onde desci e pisei no chão frio da cela ainda descalça. Olhei à minha volta, tentando encontrá-lo, mas estava muito cedo e muito escuro e lá não tinha nenhuma janela a não ser aquela minúscula que fica na porta. Encontrei-o depois de caminhar passinho a passinho por ali adentro, depois o calcei e fui até a porta, onde o segurança Engel estava caminhando no lado de fora, no corredor, ainda com suas mãos no cinto enquanto assobiava uma canção da qual não conhecia.

Fiquei na ponta dos pés para conseguir chegar à altura da janelinha da porta e fazer um "psiu!" para ele, que foi quem me olhou com os olhos arregalados. Parecia uma coruja, estava com cara de quem não dormia há dias, isso me assustou.

— Ei — disse sussurrando —, pode me dar a permissão para ir ao banheiro de novo que nem naquele outro dia?

Ele começou a mastigar algo na boca, demorei um tempo para perceber que era um chiclete, já sem o corante de tanto que ele já devia ter mastigado.

— Para? — começou ele.

— Escovar os dentes.

Ele me olhou desconfiado.

— Por que você quer escovar os dentes às... — consultou seu relógio de pulso — 5:42 da manhã, hein, Srta. Port?

— Não os escovo há dois dias. — Engoli em seco, achando que ele não iria aceitar a minha desculpa.

Ele não respondeu.

— E então? — perguntei.

Ele caminhou em direção a porta da minha cela, tirou algumas chaves do bolso e a destrancou, me libertando.

— Obrigada — disse.

Comecei a andar até a direção do banheiro, mas ele me proibiu, colocando a palma da sua mão na frente da minha cara.

— Vai com a minha companhia — ordenou, abrindo um sorriso desconfiado.

Revirei os olhos, mas aceitei sem reclamar, não iria adiantar. Então, nós dois juntos, fomos ao banheiro feminino, onde parei na porta para ele poder me esperar do lado de fora. Pedi com licença com o olhar e entrei no banheiro, onde abri o armário que ficava atrás do espelho e vi a minha escova.

Apenas vi, não a peguei, pois estava dentro de uma sacola transparente junto com cocô. Merda de gente. Não tive reação ao ver aquilo, sabia que meu dia não iria dar 100% perfeito como todos os outros desde que vim para cá; tinha de acontecer algo negativo. Tinha.

Obviamente, sabia quem tinha feito. Amy não, não ela, mas sim A Sequestradora e aquela outra mulher com aparência de quem já acorda usando cocaína, com aqueles cabelos bagunçados.

Sabia que aquela escova já não tinha mais salvação. Peguei-a pelo lado de fora da sacola que estava limpo e a joguei no lixo. Mas é claro que eu não iria deixar aquilo sair barato, esse tipo de jogo não funciona comigo. Fui para o outro lado do armário, onde ficavam as pacientes do bloco B, onde A Sequestradora e a outra mulher dormiam todas as noites. Procurei durante bastante tempo para conseguir achar o nome dela... porém esqueci que eu não sabia. De uma coisa eu tinha certeza: ela era muito próxima da Amy, e a Amy também é do bloco B, o que tudo indica que as escovas das três possam estar juntas.

Quando nós dormimosOnde histórias criam vida. Descubra agora