O corpo de Jason, encontrado num estado aterrorizante, foi encaminhado, nu e rígido, quase imediatamente para o médico legista, Simon, e seu auxiliar de necropsia, John, a fim de encontrarem a causa da morte, até então, misteriosa. Ciente da ocorrência, Simon prontamente posicionou e ligou uma câmera sobre um pequeno tripé apoiado numa mesa metálica ao lado do frigobar onde guardava suas amostras.
_Filho de Joanne Miller e Andrew Howard Britch, um metro e oitenta e cinco, sessenta e três quilos, vinte e nove anos, cabelos castanhos, pele branca e que fedor é esse? Puta merda! Alguém morreu por aqui? - Disse o auxiliar, na porta da sala de autópsia com o nariz torcido, segurando um copo numa mão, virando água em sua boca, e na outra, uma prancheta. Seus lábios se curvaram num meio sorriso ao perceber que seu chefe prendia a risada.
_Essa foi péssima. Parabéns, idiota. - O mais velho deixou escapar alguns risos, ainda que fechasse a boca para parecer sério, e conseguiu quando se concentrou em seu trabalho. - É, seja lá quem tiver feito isso com ele, vai dificultar nosso serviço. Prepare os instrumentos, vou lavá-lo.
_Tá. - Disse, jogando o copo descartável no lixo e voltando a fazer seu serviço quase rotineiro, enquanto o médico fazia um procedimento nada convencional visto de fora, porém, essencial.
_Todo este pesadelo já passou, senhor Britch. Você está em boas mãos agora, nada mais vai te atormentar, pode confiar em mim. Seja o que tiverem feito com você, já não dói mais e não vão fazer mais nada, porque você está seguro com a gente. - Seu tom de voz era calmo e tranquilizador. - Pela sua cara, você parecia uma pessoa boa de se conviver, queria ter te conhecido antes, sabe? Parece ter sido uma boa pessoa, sim... - A conversa continuou por longas duas horas, tempo para que os dedos amolecessem e o sorriso macabro, junto com a expressão horrorizada, desaparecessem e dessem lugar a um rosto sereno, de quem apenas dormia depois de muitos dias de insônia; ainda que as pálpebras afundassem nas órbitas deixadas pelos globos oculares pendendo para os lados.
Se não foi o caso mais triste que Simon havia presenciado, era um deles, o qual sentia muito sofrimento vindo da rigidez de um corpo; o mesmo caso que lhe fez lacrimejar e limpar os olhos com um lenço antes de lavar as mãos e por as luvas para começar a limpar o que sobrara do corpo desnutrido do prisioneiro que causara trauma em muita gente, em quem um dia participou da investigação do mórbido caso.Enquanto o silêncio era interrompido somente pelo barulho da água e o tilintar fraco dos instrumentos cirúrgicos sendo preparados, o profissional não conseguia parar de encarar o estado deplorável daquele cadáver; algo ainda o incomodava, e estava ansioso para secá-lo e iniciar a autópsia.
_Acredita mesmo que ele era inocente? - Perguntou o assistente.
Ele olhou para o corpo de Jason e pareceu pensar.
_ Ele parecia tão desolado que eu acreditaria em qualquer coisa que ele me dissesse.
Imprudente, sabia que sim, mas seu trabalho também era compreender a dor que as expressões dos que vinham a óbito continham. Ele amava e se via quebrado, ambos na mesma medida.
Foi até o corpo inerte para enxugá-lo e uma lágrima solitária escorreu em seu rosto, deixando pingar em seu jaleco e desaparecer ali.
Tudo bem que era comum sentir grande empatia pelos pacientes naquele trabalho, ainda mais para Simon, apaixonado pelo que fazia; mas aquele turbilhão de sentimentos já estava passando dos limites, e ele percebeu isso ao cuidar daquele corpo.
Por que tanta angústia, justo naquele momento?
Se virou para pegar um bisturi e começar a autópsia, no entanto, quando virou sua atenção a Jason, o mesmo estava sentado o encarando, com suas pálpebras enrugadas forçadas para cima e os olhos soltos balançando de um lado para o outro, mostrando o conteúdo do interior das órbitas; cada nervo e pedaço de carne, ainda frescos, Simon podia reparar. Por um breve momento, podia jurar que estavam em atividade.
Seu coração quase escapou pela boca, o cadáver permanecia imóvel e Simon, trêmulo, fraco. Poderia morrer durinho ali, naquele instante, e antes que pudesse achar que estava louco, escutou algo conforme os lábios do morto se movimentavam. O som era rouco, semelhante a um arroto, o que restou dos músculos da língua se mexiam numa tentativa falha de se comunicar devidamente, mas sua mente conseguiu processar cada palavra dita ali lenta e pausadamente:
"Impeça que o inferno continue, o ritual dos ossos precisa parar."
Se antes havia dúvidas de que estava louco, naquele momento teve a certeza.
_Simon? - O assistente chamava, balançando seus ombros bruscamente até que saísse do transe, com olhos arregalados e respiração tão acelerada quanto os batimentos. - Simon! - Olhando ao redor, notou que não portava um bisturi, e o cadáver permanecia no mesmo lugar que antes; somente seu corpo estava rígido, segurando-se firmemente na pia de aço, tentando não ofegar com frequência.
Estava perdendo a cabeça?
Seu amigo o pôs sentado e lhe trouxe um copo de água antes de se posicionar próximo à mesa de autópsia.
Tanto ele quanto o chefe sabiam que não podiam deixar o exame para outro dia, então, sob a loucura, o mais experiente examinou por volta dos olhos arrancados, procurando algum hematoma a mais, tanto pelas pálpebras, quanto pelas órbitas. Os órgãos pareciam ter sido arrancados com tamanha delicadeza a ponto de aparentar ser natural._Nada.
_Como assim?
_Não encontrei nada na cavidade ocular dele. É possível ser um caso de protrusão bilateral nunca visto, mas não entra na minha cabeça que possa ter sido este tipo de fenômeno, ainda mais porque não tem nem mesmo ferimentos no crânio.
John franziu o cenho enquanto assistia o legista forçar o queixo de Jason para baixo, revelando a ausência da língua arrancada quase cirurgicamente, num corte perfeito, restando apenas os pequenos nervos linguais e uma parte da artéria. Os coágulos de sangue permaneciam, escondendo parte dos outros órgãos bucais, ainda que a pinça removesse a maior parte, e, além disso, nenhuma parte do corpo parecia ferida além do rosto.
Não sabia o que pensar sobre aquilo. Como poderia ter acontecido em menos de dois minutos? Não se tratava de um suicídio, tampouco de tortura.Simon, de alguma forma, sabia que tudo aquilo estava relacionado à sua insanidade, e temia que fosse algo fora de sua compreensão.
_Bisturi. - Pediu, com a voz embargada.
Continua...
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The Ritual Of Bones - Volume II
Horror"Como poderia eu, ir ao inferno e voltar? Como poderia eu, ser tão tolo em acreditar que essa tormenta irá passar? Não, eu não acredito em contos de fadas, muito menos em finais felizes" ...