Tom engoliu em seco, não querendo imaginar que os deuses se importavam com ele a esse ponto. Com os outros, ele se aproximou do portal. Heimduriel e Moira olharam uma última vez para sua família. Então fecharam os olhos e começaram a entoar uma canção em uma língua que Tom nunca tinha ouvido falar.
Enquanto o sangue e o icor começaram a brilhar, o garoto recolheu suas coisas. O manto e a máscara, herdados de seu pai. Ele pegou um livro com capa preta, com as pontas e letras em dourado. Guardou tudo em uma bolsa, tudo que tinha de precioso. O legado de seus pais. Sob o olhar inquisitivo de Liv, ele disse apenas.
— É um Codex Atemporal. Conta a minha história, de meus antepassados e de meu lar.
Liv mordeu os lábios.
— Eu gostaria de ter um desses.
O chão onde o sangue foi derramado começou a brilhar. Um garoto de uns dez anos apareceu, abraçado a uma menina da idade de Sarah. Ela olhou em volta assustada, e quando viu Sarah a abraçou com força. Sarah falou com ela e a mandou com o irmão pelo portal. Luca e o bebê foram junto.
Do outro lado do risco apareceram dois casais. Eles trocaram algumas palavras com os pais de Sarah e se posicionaram ao lado deles.
Nos segundos seguintes várias crianças e adolescentes foram transportados para perto de Tom e dos outros. Sarah falava com todos e os conduzia pelo portal. Começaram a surgir mortais também. Foi difícil convencê-los a atravessar no começo, mas Liv tomou essa função para si. Ignorou os choros, o medo ou a chama de vingança que ardia em algum deles e mandou todos pelo portal.
Armas foram às mãos dos celestiais. Os demônios faziam desenhos no chão ou recitavam palavras. Alguns humanos surgiam entre eles. Heimduriel se ocupou de explicar a situação. Tom viu o pai de Sarah apontar para o portal. O garoto imaginou que eles tentariam atravessar também. Se surpreendeu ao vê-los pegarem pedaços de pau, ferro e todas as ferramentas que poderiam dar alguma arma.
Ele apertava o arco, incerto se não devia tentar ajudar. Lembrou de como Sarah se movia rápido demais para ele ver e um sorriso amargo lhe veio aos lábios. Não seria de grande ajuda se ficasse. Além do mais, tinha prometido que cuidaria deles. Se tinha algo que seu pai lhe ensinou, era cumprir suas promessas.
Quando fazia algum tempo que não aparecia ninguém, Tom sentiu algo frio tocar seus ombros. Eram as garras da mão de Sarah. Ela não olhava para ele. Olhava para seus pais. Liv apertou sua mão. A garota tremia, também olhando para os celestiais e demônios que aguardavam.
Ele viu movimento lá fora e seu coração quase saltou pela boca. Ficou tão concentrado em seus pensamentos que não reparou nas figuras que se reuniam do lado de fora do celeiro. Tinham em torno de dois metros. Usavam armaduras de várias cores. Símbolos dourados as revestiam. Os olhos dos portadores, fossem celestiais ou demônios, eram vermelhos.
— Os executores — sussurrou Sarah.
O aperto no ombro de Tom aumentou, assim como a força de Liv em seus dedos.
Os pais dos daemons não esperaram. Lançaram suas magias e poderes contra os inimigos de uma vez só. Tom tremeu. Nunca imaginou ver tamanha demonstração de poder. O teto do celeiro saiu voando. As paredes tombaram. Os inimigos do lado de fora, doze ao todo, pareciam nem sentir aquela força.O garoto respirou fundo, forçando sua mente a se acalmar. Sabia o que tinha que fazer. Passou a mão pelo ombro de Sarah, que tremia. Seu olhar era fúria pura.
— Precisamos ir, Sarah.
— Eles vão morrer... preciso ajudar.
— Se você ficar, você também vai morrer — falou Liv com a voz trêmula.
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Contos Etherianos de AFROFANTASIA
FantasyContos de afrofantasia e afrofuturismo baseados na cultura africana e afrobrasileira. Mitologias bantu, iorubá, axante, egípcia e muito mais. De semideuses que enfrentam racismo no dia a dia de nossas cidades, a deuses que guerreiam pelos mais varia...