Fifteen

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Quando abro a porta, entrego a Gaby uma margarita virgem.

Ela agradece e bebe um gole enquanto entra no apartamento. Está vestindo jeans, sapatos sem salto e uma elegante bata cinza sem manga com uma espécie de decote rendado.

Droga. Ela está camuflada. Com base nessas roupas, é difícil dizer quais são as intenções dela. Talvez eu esteja simplificando demais as coisas, mas, se ela estivesse usando um vestido preto curto e sapatos vermelhos com aqueles saltos enormes, eu teria muito menos dúvidas. Por outro lado, eu estou usando jeans e camiseta preta, então não sei ao certo se as minhas roupas passam a ela a mensagem de que estou disponível para o que ela quiser. Espero que sim. Ela balança no ar um pacote de ursos de gelatina.

- Cem por cento natural e saudável - ela diz.

- E as calorias? Conferiu as calorias?

- Obviamente. Perdi várias calorias calculando as calorias.

- Nem sei por que perguntei - respondo, rindo. Gostamos de fazer piada com o modo politicamente correto de comer. Fico feliz por constatar que pelo menos ainda posso brincar com ela.

Baixando o tom de voz, ela se dirige a mim num sussurro conspiratório:

- Essas balas vêm do Brooklin. Sabe, tem uma coisa que eu não entendo: se já conseguiram até enviar o homem à lua, como não são capazes de remover as balas verdes do pacote?

- Eis um dos grandes mistérios da vida. - Eu fecho a porta e faço um gesto indicando a direção da sala. Gaby então segue à minha frente e eu não consigo evitar: olho direto para a bunda dela enquanto ela caminha pelo piso de madeira até meu sofá. Ela me deu esse tipo de liberdade hoje à tarde, se não me engano.

- Junto com a existência de aspargos gigantes - ela diz sarcasticamente.- Eu nunca vou compreender a utilidade de vegetais gigantes. Mas você foi mesmo até o Brooklin para comprar balas de gelatina? - pergunto. Ela se acomoda em meu sofá bege.

As portas de correr que levam à varanda estão abertas, deixando penetrar no ambiente um pouco desta noite quente de junho.

Gabrielly faz que não com a cabeça, tira os sapatos e coloca os pés no sofá.

- A loja no Brooklin que faz estas balas abriu outro ponto em Murray Hill.

- O importante é que você conseguiu encontrar essa ótima bala de gelatina que não é feita com gelatina - comento, juntando-me a ela no sofá.

Gabrielly jamais toca em doces que são feitos com gelatina, porque a gelatina é feita com partes de animais, ou seja, vem da carne; ela costuma dizer que se quisesse carne em seu doce comeria doce de bife, uma coisa que não pretende fazer. Simplesmente porque seria nojento. E é por isso que doce de bife não existe. Eu aponto o meu laptop.

- E então, o que vai ser? Netflix? Castle Comédia romântica? Filme de espionagem? Canal de esportes para ver as últimas do basquete?

Ela rasga o pacote de doce e coloca na boca uma bala de urso amarela. A bala escorrega por entre seus lábios. Ursinho de sorte.

- Que tal Castle? - ela sugere. - Vamos ver aquele episódio com o gângster irlandês.

Sei exatamente a que episódio Gaby se refere, pois nós já assistimos a quase todos os episódios juntos. Eu encontro o do gângster rapidamente, dando graças a Deus por ter me lembrado de remover o vídeo pornô da noite passada. Fido perambula pela sala, arregala os olhos e mia. Tenho certeza de que ele está me dedurando para Gaby na linguagem felina, mas - novamente graças a Deus - ainda deve levar algum tempo para inventarem um programa que traduza a língua dos gatos.

Just Friends | ᵇᵉᵃᵘᵃⁿʸ.Onde histórias criam vida. Descubra agora