Parte II

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Eu não conseguia enjoar do filme, eu tinha vontade de assistir e re - assistir todas as semanas, e ficava tão triste por não ter aquela vida. A mente obsessiva é muito engraçada, ficamos com aquela vontade que NÃO passa, e eu tinha essa vontade... De assistir, rever, reviver.  Queria sentir novamente a sensação, queria novamente sentir o prazer de ver aquele filme maravilhoso. E a mesma coisa aconteciam com as músicas, eu as repetia, estava sempre ouvindo as mesmas.

Comecei a ouvir Janis Joplin e me apaixonei de início, ouvia sempre as músicas dela e quando dei por mim já estava pesquisando toda a vida daquela cantora porra louca. Comprei livros, discos, enchi meu quarto com todas as informações e revistas com relatos de quem viu e viveu com aquela figura tão intensa, e eu estava ali, juntando entrevistas, vídeos, áudios. Sentia a necessidade de saber tudo da sua vida, era como se eu me sentisse próxima dela. Mais uma vez eu estava obcecada, totalmente obsessiva, uma vontade de engolir todo o conhecimento dessa mulher... E eu só falava dela, queria que todos a ouvissem e a amassem como eu a amava, meus pais não aguentavam mais ouvir de Janis, não aguentavam mais ouvir as músicas e com o tempo eu também não. Queria ouvir coisas novas, queria conhecer novas músicas, mas não conseguia me desprender. Quando queria ouvir uma música só tinha vontade de ouvir Joplin, era a voz dela que me fazia sentir bem. Queria ouvir Kurt Cobain, ouvia uma ou outra música, mas em seguida voltava para aquela voz rouca da minha grande diva. Não deu outra: Quis levar a vida dela, sonhei em morrer como ela, na idade dela.

No colegial as coisas se complicaram, eu me apaixonei. Mas que grande bosta, eu só conseguia pensar naquele garoto franzino e esquisito que sentava perto de mim na sala de aula. Todos o achavam feio, mas eu o via como o menino mais lindo de todos, e logo eu fazia de tudo para estar perto dele, inclusive entrar no time de futebol. Todas as minhas amigas jogavam vôlei, mas lá estava eu jogando futebol apenas para ficar no time dele. Ganhei o apelido de “maria joão”, pois para me aperfeiçoar fiz com que meu pai me colocasse em uma escola para que eu aprendesse a jogar como um menino, e assim, talvez ele me olhar. Mas ele nunca me olhava, e isso me entristecia, eu comecei a achar que só seria feliz se fosse  com ele, que eu nunca mais iria me apaixonar por ninguém... E eu chorava, me batia, não conseguia tirar ele da cabeça ou me controlar. Ficava fantasiando cenas, fantasiando que um dia ele chegaria em mim e me pediria em namoro, e quanto mais eu fantasiava, mais eu sofria. O obsessivo fantasia demais e em algumas dessas fantasias acaba escapando da realidade, é um tanto quanto triste quando isso acontece. Há algo que eu aprendi na minha análise:

A neurose obsessiva é algo que facilmente é confundida com a psicose por conta da realidade dessas fantasias. A grande diferença é que na psicose realmente há uma quebra com a realidade, a pessoa não sabe o que é verdade ou mentira. O obsessivo sabe, por vezes se confunde, mas sabe... E é por isso que sofre, sofre com a fantasia, e em seguida sofre por saber que é apenas fantasia. Louco, não?!

A paixão passou... E eu achei que seria a última. Doce engano!

Em um ano, aproximadamente, eu me apaixonei novamente... Mas eu estava mais bonita e com o corpo mais desenvolvido, e fiquei com esse cara por cerca de 02 meses. Achei que ele era o cara, e sentia necessidade de falar com ele o tempo todo, mandava mensagem e ficava louca quando ele não respondia – mas nunca o pressionei, nunca fiz da vida dele um inferno, mas meu mundo caiu quando ele terminou comigo. Eu só pensava nele, mandava mensagem pedindo desculpas, ou pedindo para ele me ligar, até que desisti, pois achava que não devia me humilhar. Mas ainda assim... ele não saia da minha cabeça, eu fantasiava uma vida com ele, fantasiava nosso futuro, e sofria toda vez que me dava conta de que não aconteceria. Chorava como uma criança e não queria sair do meu quarto enquanto ele não saísse da minha cabeça. Com alguns meses voltei à minha vida normal e para me vingar dele, fiquei com seu melhor amigo. Não funcionou, não me trouxe ele de volta, mas ele sentia algo por mim... E era o suficiente, nem que esse sentimento fosse o ódio. Fiquei satisfeita.

Prometi que não iria me apaixonar mais, e eu sempre tive baixa estima, apesar de sempre ser elogiada. Com 20 anos fui trabalhar em uma empresa de comunicação e acabei ficando bem próxima do meu chefe, que era um homem mais velho bastante charmoso, um dia ele me chamou para almoçar e me disse coisas bonitas. Eu que sempre me achei como a patinha feia acabei caindo em sua lábia e aceitei sair com ele. Foi o suficiente para eu não tirá-lo da cabeça, nunca consegui fazer sexo por fazer, mas ele era diferente. E ele não saía mais da minha cabeça, a vontade não acabava nunca! Eu queria estar com ele o tempo todo, queria que ele me assumisse, que me amasse. Nem o fato de ele ser casado fez com que eu parasse de pensar nele, aceitei aquela situação humilhante por ele, eu nunca havia me envolvido com um homem casado e sempre havia julgado mal minhas amigas que aceitavam essa situação. E olha onde eu estava... Eu estava 100% disponível para ele quando ele quisesse, estava sexualmente sempre disposta, cedia à ele e aos seus desejos malucos. Fantasiava que um dia ele largaria a esposa e diria que era a mim que amava. Mas não adianta mendigar amor, um belo dia ele me falou que eu estava carente e que se fossemos fazer sexo teria que ser sem sentimento, sem envolvimento... Sexo por sexo. Eu me senti uma verdadeira vagabunda, estava lá, cheia de amor para dar e ele queria o que? Apenas sexo! Eu me acabei, mais uma vez. Ele estava me dando um fora! Achei que nunca conseguiria ter ninguém, achei que iria morrer, meu mundo novamente havia caído. Entrei na fossa e não saí dela tão cedo. Dizem que a paixão em média dura 2 meses, para mim durou 11 meses... E para a maioria dos obsessivos também é assim. Todos nós já tivemos um amor não correspondido, mas você já se imaginou sofrendo por isso por intermináveis 11 meses? Foi o que eu passei , e é o que passamos, por isso se apaixonar dói tanto para pessoas como nós, ficamos fixados nas pessoas. Com o passar dos dias eu me arrumava demais para ir trabalhar, com a vã esperança de ele me olhar. Observava o horário em que meu chefe saía para fumar e arranjava uma forma de sair junto apenas para que ele me olhasse e cumprimentasse. Para ganhar um beijo no rosto eu ficava parada, pateta, ridícula em frente à empresa, apenas para receber um bom dia seguido de um beijinho na bochecha. Observava às idas dele ao banheiro e ficava no entorno, apenas para que nos encontrássemos e nos olhássemos por pequenos segundos, adorava ganhar o aceno de cabeça dele... e fazia isso todos os dias. Comecei a ouvir as ligações dele apenas para poder ouvir a voz, mas prometi que nunca deixaria ele descobrir isso, eu não seria esse tipo de pessoa, eu não faria da vida dele um inferno como eu via nos filmes...

E na verdade também não tinha vontade disso, sabia que isso o afastaria. Comecei a ajustar meu horário de almoço ao dele e ia almoçar no mesmo restaurante, e sempre que era elogiada eu ficava o dia todo pensando nisso.

Obsessão, meu sobrenomeOnde histórias criam vida. Descubra agora