Mas um problema aconteceu... Eles começaram a me superproteger, favorecendo na piora do meu quadro. É sério, até mesmo a psiquiatra deu uma bronca neles. Eles pararam de viajar e de confiar em mim com medo de que eu me suicidasse, começaram a evitar em me deixar sozinha, desconfiavam das coisas que eu dizia, e isso só fazia com que essas coisas ficassem na minha cabeça. Eu me culpava o tempo todo por eles não saírem mais como saíam antigamente, por não viajarem como viajavam, eu me culpava o tempo inteiro. E não adiantava ouvir o que eles diziam, não adiantava eles dizer que não tinham tempo... Eu sabia que eles estavam privando-se da vida por minha causa, e isso me fazia muito mal. Voltei a piorar e nenhum aumento da dose do medicamento me ajudou. Eu me sentia responsável e não tinha nada que me fizesse não sentir. Queria que eles viajassem, que confiassem em mim que quando a situação estivesse feia eu contaria para eles, eu pediria ajuda. Não por mim, muitas vezes, mas por eles. Eu odiava me sentir responsável por toda aquela preocupação, eu odiava sentir-me tão ingrata por fazer com que eles ficassem em casa comigo. Eu odiava tremer ou chorar na frente deles, e isso começou a se tornar comum. A psiquiatra os chamou em uma das consultas e explicou que eles poderiam seguir a vida normalmente, pois eles fazendo aquilo tudo estavam pioram o meu quadro obsessivo, pois o sentimento ficava grudado na minha cabeça, meu cérebro produzia menos droga, fazendo com que eu piorasse e me sentisse culpada por tudo que eles estavam deixando de viver.
Eles optaram por confiar em mim e voltaram a me deixar sozinha, eu amava ficar sozinha, podia escrever, ouvir músicas, ver meus filmes repetitivos... Eu estava bem, apesar de obcecada. Voltaram a viajar e acreditaram que se a situação piorasse eu ligaria para eles. E então eu comecei a melhorar, não me sentia tão culpada por tudo que acontecia e sentia que eles de fato estavam confiando em mim. Não sentir aquela culpa me fazia bem, ficar sozinha me fazia bem. Enquanto eles viajavam eu tive uma pequena crise e comecei a chorar, liguei para minha mãe e ela me acalmou, me pediu para ir para casa da minha madrinha e eu obedeci, apenas para não preocupa-los. Nossa relação de confiança melhorou e minhas crises diminuíram. Eles continuaram a viver a vida deles, e eu a minha.
Passei por muita coisa e hoje, aos meus 31 anos consigo escrever sobre isso com o intuito de ajudar os cuidadores e os pacientes desse transtorno tão irritante, repetitivo e enjoativo. Tive dificuldade para descobrir o que tinha quando jovem, fui diagnosticada com neurose histérica, transtorno de personalidade borderline, depressão maior e outros inúmeros nomes psiquiátricos, mas apenas quando descobriram que de fato eu era obsessiva e me pediram para ir para a psicanálise minha vida começou a mudar. Hoje eu consigo não ficar tão obcecada pelos homens com quem saio, por exemplo, e acreditem, estou namorando há 8 meses... Sem enjoar dele. Já tenho variado as músicas que escuto e também os filmes, mudei até mesmo os gêneros de leitura, eu era apaixonada por romances policiais e agora consigo ler outras histórias. Algumas vezes ainda sinto a doença tentar acordar, mas então eu ligo para minha analista e ela me ajuda a enfrentar isto tudo e entender que a repetição por vezes também faz parte da vida. Tenho frequentado também um grupo de Neuróticos anônimos e estou aprendendo coisas novas: A repetição também é coisa boa. É bom rir às vezes da mesma piada e se emocionar com as mesmas cenas bonitas... Mas não podemos nos deixar levar por isto, a vida é tão repleta de coisas novas que é perda de tempo rir sempre das mesmas coisas e vivenciar sempre as mesmas emoções. Desapegue-se do passado, viva o presente e não fantasie demais o futuro. Domine seu pensamento, domine sua vida, domine-se. Fixe-se nisto!
Fixe-se nas pessoas que ama, mas não deixe que o amor fixo e repetitivo comande sua vida. Ame-se, fixe-se neste amor que você deve ter por você. Fixe-se na saúde, fixe-se na vida. Fixe-se em experiências novas, queira coisas novas. Viaje para lugares diferentes, pare de repetir esses comportamentos doentis. Pare de ser viciado em sofrimento, pare de ser viciado em solidão. Fixe-se em novidades, fixe-se em filmes diferentes, em histórias diferentes. Fixe-se na ideia de mudar a sua vida. Fixe-se na ideia de deixar de lado a doença e... ser feliz.
Viram só? Não sou uma psicopata ou uma perseguidora de pessoas, como muitos de vocês acham. Prazer, sou Paola, apenas... obsessiva.
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Obsessão, meu sobrenome
No FicciónVocê já ouviu falar em Obsessão? Com certeza já. Duvida? Vamos lá, vou adivinhar o que você pensou: OBSESSÃO - quando você ouve essa palavra deve pensar naqueles filmes de terror e suspense no qual alguém persegue de maneira contínua as "mocinhas" d...