Capítulo IV

1K 99 14
                                    

Cash, grass and ass on the hightway to hell. I make the good girls bad and bad girls worse. Nice guys are last 'cuz I'm always first

All American Nightmare, Hinder 


Não foi difícil encontrar Eliel. Sem contar com Fontes, o mordomo, Eliel era a única empregada de Ezra. Eu era a escrava, por isso, não me colocava na mesma categoria que eles. Aparentemente, Eliel fazia de tudo um pouco: limpava a casa, lavava a roupa, cuidava do patrão. Eu não queria saber o que queria ela dizer com "cuidar de Ezra", minha imaginação demasiado fértil mas ingênua já começara a fazer filmes, do tipo que sabia terem sido banidos pelos anjos, na nova era. Provavelmente, Ezra teria alguns.

Apesar do complexo de superioridade típico de anjos e demônios, Eliel era minimamente prestável.

- Você deve ser a humana do Ezra - dissera, arrancando a roupa do demônio de mim. Perguntei a mim própria o porquê de eu o ter de tratar por "senhor" ou "guardião" quando aquela morena pequena e roliça podia tratá-lo pelo nome. Resposta fácil: ela não era uma escrava humana.

Depois de Eliel me mostrar os cantos da casa e de eu fazer algo para comer, me levou à biblioteca e foi aí que o meu coração caiu. Com vários andares de altura e escadas por toda a parte, livros ocupavam todas as paredes visíveis e, apostava, as invisíveis também. Um odor familiar estava impregnado no ar. Me aproximei de uma das estantes e passei as pontas dos dedos pelas lombadas grossas dos livros. Escolhi um, à sorte, com uma capa vermelha, e o abri. Oh, sim, conhecia aquele cheiro, era igual ao dos livros antigos que Daniel escondia. Os que mantinha à vista eram pálidos e aborrecidos. Aqueles possuíam páginas amarelas e letras grossas que eu tentava ler, mas não conseguia.

- Esse livro está em português, uma das línguas da era antiga - explicou Eliel. - A maior parte está escrita em línguas mortas, como essa, inglês, italiano.

Torci o nariz. Só falava latim e aramaico.

- Você percebe? - questionei.

Ela assentiu.

- Pode me ensinar?

- Você é uma escrava. Só precisa saber o suficiente para comunicar com seu senhor e, adivinha, eu percebo você perfeitamente - disse a voz rouca de Ezra, entrando na biblioteca.

Mesmo ferida pelo comentário, não consegui não apreciar a sua passada insolente e o efeito imediato que teve em mim.

- Se vista - ordenou, num tom cortante. - Vai fazer sua primeira visita ao Inferno.

Procurei sinais de que brincava. Fiz uma análise rápida à sua expressão para procurar mentira. Nada. Não encontrei nada. Ele queria MESMO me levar para o Inferno.

- Ezra, você não acha muito cedo para isso? - interpelou Eliel.

- Já se tornaram amigas? - inquiriu ele, nos olhando com desconfiança. - Foi fácil. E não, não acho que seja muito cedo. Preciso torturar aqueles filhos da puta e tenho uma nova arma. Vou usá-la. Não que deva explicações a você, Eliel - olhou para a demônio com irritação e força suficiente para fazê-la cambalear. Era bom saber que não atingia apenas a mim. - Se vista - repetiu, para mim.

- O quê? - perguntei, com voz fraca.

- Está tudo em seu quarto.

Subi as escadas, até meus aposentos, o mais devagar que pude, ao mesmo tempo que delineava na minha cabeça uma estratégia de fuga minimamente eficaz. O inferno era interdito a humanos, vivos. Só havia uma maneira de eu lá ir. Ele me ia matar. Logo no primeiro dia, me ia matar, sem dar a Daniel qualquer hipótese de me resgatar. E, assim, minha vida ia acabar. Talvez se alimentasse de mim, antes. Talvez me torturasse, talvez me usasse. Provavelmente, me aguentaria viva por dias e dias, aumentando meu sofrimento e seu prazer, a cada toque. Me aceitara apenas para ter uma diversão. Recentemente, pensara que anjos e demônios estavam ao mesmo nível. Errado. Profundamente errado. Os demônios, aquele demônio em particular, eram mil vezes pior.

Entre Anjos e DemôniosOnde histórias criam vida. Descubra agora