CAPÍTULO 38

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Ariel

Logo quando entrei na sala, meus olhos pousaram na figura do meu pai em cima da cama do hospital. Ele estava deitado, mas consciente. Olhava para a janela, do jeito que eu o conhecia, estava agradecendo a Deus pela sua vida.

Meu pai era um homem forte, de pele dourada e de olhos azuis penetrantes. Os seus cabelos eram negros e ondulados, apesar da maioria dos fios serem brancos.

Duas enfermeiras o rodeavam, cuidando dele. Papai estava com sua perna direita esticada sobre a cama, com três pinos horríveis enfiados nos seus ossos.

Mamãe não aguentou vê-lo dessa forma e deu um gemido, avisando ele da sua presença. Ela estava a minha frente e eu fiquei parada a porta, incapaz de dar um passo.

Meu pai olhou na sua direção e sorriu fraco para minha mãe, confortando ela. Mostrando que estava bem. Como sempre, ele fazia de tudo para não deixar sua mulher preocupada. Seus olhos então me acharam, e aí eles se encheram de lágrimas quase que instantaneamente.

--- Filha --- sua voz estava rouca, seus lábios secos. Ele estendeu sua mão para mim, me chamando.

Eu me aproximei dele de vagar, quase não vendo nada por conta das lágrimas. Peguei sua mão inchada e a beijei, sentindo o calor da sua carne.

--- Só assim pra você lembrar que tem um pai... Que tem uma família --- papai disse. --- Você alegra meu coração, filha. Que bom que veio ver seu pai.

Mamãe pegou na mão dele também, chorando sem parar.

--- Você quase me matou de susto, Aleksander Garcês! Quase me matou... --- mamãe soluçou, mas ao mesmo tempo furiosa com ele. --- Se você tivesse me deixado aqui sozinha... Eu... Eu...

--- Oh, não! Quem mais iria te aguentar? Esse cargo é só meu, meu bem --- Papai respondeu, tranquilizando sua mulher. --- Eu sou igual aqueles vasos ruins, não quebro fácil.

Eu olhei para sua perna, para sua mão lesionada, para os cortes nos seus lábios ressecados.

--- Parece que quebra sim, Pai --- eu gemi. --- Você está sentindo muita dor?

--- Nenhuma, estou melhor que antes. Bem mais forte, posso garantir.

Era mentira dele. Dava para ver na sua cara o esforço que ele estava fazendo para sorrir e levar tudo no bom humor. Ele tinha acabado de sair da cirurgia, tinha platina na sua perna, suas costelas estavam quebradas e mesmo assim... Queria passar segurança, queria nos tranquilizar.

--- Mas e você, minha filha, está bem? --- ele perguntou. --- Está tão diferente...

--- Sim, papai, estou bem... --- eu sequei minhas lágrimas.

--- Não chorem... Parem, vocês duas! --- meu pai disse, muito determinado. --- Eu nasci de novo e vocês estão chorando pelo o quê? Celebrem a vida comigo! Estou vivo! E muito feliz! Grato pela oportunidade que Deus me deu, por ter a mulher que amo ao meu lado, por ter minhas três filhas saudáveis e fortes! Minha família toda está bem. Tenho mais que agradecer por tudo que tenho.

Eu suspirei.

--- É difícil ver o senhor dessa forma, Papai. Todo quebrado em cima dessa cama. Parti meu coração ao meio...

Meu pai me olhou com os olhos ternos.

--- Isso aqui é passageiro, temporário. Certas coisas que acontecem na nossa vida, servem para nos tornarem mais fortes, filha --- ele sorriu. --- Certas coisas são necessárias...

--- Não é bem assim, Pai, e o senhor sabe disso. Nem tudo nos deixa mais fortes... --- eu fechei os olhos com força. --- As vezes, nos destroem por dentro e por fora.

Duas Semanas De Puro PrazerOnde histórias criam vida. Descubra agora