Yoobin chega à casa de Mihyun com um pouco de tristeza, mas tentando se tranquilizar. Não precisa tocar a campainha, pois a Kim já a esperava e assim que a vê sair do carro, abre o portão e vai correndo ao seu encontro. Recebe-a com um abraço apertado.
— Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! — Mihyun separou-se do abraço apenas para olhar à Yoobin. Ainda um tanto abatida.
— Oi. — Responde com um sorrisinho envergonhado. — Obrigada.
— Não agradeça. Entre.
— Com licença... — Yoobin rapidamente troca sua expressão facial para uma mais gentil, sabia fazer aquilo com proeza, apesar de ser uma grande mentira, por vezes fora necessário.
— Ah! — A mãe de Mihyun pausa o filme que assistia com o marido. — Boa noite! — Os dois cumprimentam a Bae ao mesmo tempo, fazendo ela dar uma risadinha. “Parecem ter uma química boa.” ela pensa.
— Bom. Vocês já se conhecem, né? Vamos subir. — Mimi tenta puxar Yoobin até o quarto, quando seu pai intervém:
— Nós estamos em casa, viu. — As mocinhas olham ao pai da Kim, que finge estar sendo “firme” com a filha e a mãe que segura a risada. Mihyun faz uma cara impossível de descrever e suas bochechas avermelham-se um pouco.
— Não... não é nada demais!! Nós só vamos conversar, ‘tá bom? — A mais velha protesta, fazendo Yoobin rir com a situação.
— É só brincadeira. Fiquem bem. — Ele responde, fazendo Mihyun perceber que ficou levemente irritada por motivo nenhum. Bem... elas não iriam... naquele dia. Ainda era muito cedo ‘pra isso.
— OBRIGADA. — Fala bem alto e leva Yoobin ao seu quarto antes que passe por outra situação parecida. Ao chegarem lá, Mihyun fecha e tranca a porta. A outra a olha assustada. — Calma, calma... eu não vou...
— Não. — Yoobin também cora. — Eu só fiquei surpresa que você pode trancar a porta do quarto sem problema nenhum.
— Bem... privacidade, né? — Mihyun não sabe o que falar depois disso, então muda de assunto: — Ai, sério, não ligue ‘pro meu pai. Ele é um bobão.
— Parece ser genético. — Diz baixinho, mas provavelmente o suficiente para a outra escutar. — E... tudo bem. Seu pai é uma boa pessoa. Sua mãe também. — Dá um sorriso triste.
— O que foi que aconteceu hoje, Binnie? — A Bae fitou o nada por um tempo. Tentou falar uma, duas, três vezes, mas sua boca sempre hesitava e fechava. — Ei, você pode me falar o que for.
— Mesmo?
— Claro, eu ‘tô aqui. Eu nunca vou ficar longe de você.
— Obrigada... desculpa eu ter fugido antes.
— Você ficou mal com o que eu contei?
— Bem, fiquei... mas não foi só por isso. É difícil de explicar, mas... é o motivo de eu ser sozinha, de eu não conversar com quase ninguém, de eu sempre evitar, ignorar... e fugir. — Hesitou mais um pouco, mas ao ver que Mihyun a escutava pacientemente, continuou: — Nós temos muitos problemas na minha família. Parecemos ser muito felizes, mas não somos. Apesar do dinheiro e de um certo status que temos... Eu cresci com meus pais tratando como normal tudo que eles faziam e eu demorei um bom tempo para entender o porquê do meu sofrimento, já que não conseguia imaginar que o que eles faziam era errado. Bem... eles sempre esperavam que eu fosse ser uma pessoa sociável como meu irmão mais velho é, que eu fosse extremamente talentosa e tudo mais. Porém, eu acabei desistindo. Na escola eu nunca consegui fazer amigos de verdade, porque, primeiramente, ninguém se interessava por quem eu era, apenas pelo que eu tinha. E, depois, eu desisti e me fechei. Até... você. — Deixa as lágrimas saírem e Mihyun segura sua mão, dando um sorriso, garantindo que poderia continuar a falar. — Mas eles nunca me entenderam ou me permitiram errar. Eu sempre precisei, não só ser boa, mas a melhor. Aliás, eu tinha uns 9 ou 10 anos, mas me lembro bem. Eu fui me queixar de não ter amigos e meu pai me respondeu que eu não precisava. Porque eu deveria ser melhor que os outros, não poderia me deixar levar por uma palavra gentil aqui e outra ali. E minha mãe chegou a dizer que se eu precisasse, eu deveria pisar em cima dos outros para chegar onde eu quisesse. Porque foi o que ela fez.
— Yoobin... — A Kim passa a compartilhar a tristeza da outra.
— Só que eu ainda fazia o que eles queriam nessa época. Eu era muito nova para entender que era tudo mentira. Foi quando eu comecei a errar e deixar que os outros pisassem em mim, que eles se irritaram. E aí começaram a banir o que eu queria. Já fiz aula de piano, mas uma vez eu fiquei com muita dor de cabeça e pedi para não ir. Minha mãe desfez a matrícula, sem perguntar se eu queria ou não. Tentei explicar que era só naquele dia, mas ela disse que eu era ingrata e que não aproveitava as oportunidades que ela me dava. E meu pai nunca foi diferente disso, só sempre esteve um pouco mais ausente. No passado, eu sempre ouvia eles brigando ou minha mãe chorando sozinha. Depois eles passaram a brigar comigo e eu que comecei a chorar todas as noites. Claro... outras coisas aconteceram, mas eu prefiro nem mencionar. E ao invés deles me ajudarem, começaram a me proibir. Não posso trancar a porta do quarto, tenho que pedir permissão para tudo, tenho que explicar o que fiz e o que quero fazer... — Agarra-se ao colo de Mihyun e chora um pouco antes de continuar. — Eles sabem que eu não sou perfeita e que não tem como me consertar. Então estão me jogando fora... fazendo com que eu me entristeça cada vez mais. Contudo, eu aprendi a sobreviver. Quase sempre tínhamos jantares ligados à empresa da qual meu pai é sócio, então eu ia, precisava fingir que amava aquilo, que aguentava... mas um dia eu desisti. Isso faz quase um ano... eu fiz birra para não ir, mas me empurraram. Fingi me comportar, até sentir que era o momento ideal. Eles me perguntaram sobre as minhas notas e minha mãe disse “a nossa Yoobin anda muito mal, parece que não sabe mais fazer nada”, enquanto ria. A verdade? Eu tirei nota baixa em UMA matéria, porque era a única na qual eu tinha dificuldade e já não conseguia mais estudar. Então, eu levantei a voz e retruquei. Falei todos os palavrões que eu sempre ouvi, mas que fui ensinada a nunca repetir, por mais que me machucassem. Falei mal de cada um ali, saí correndo e fui ‘pra casa da minha avó. Que, era a única pessoa que me ajudava. Mas ela acabou falecendo um tempo depois. E eu fiquei completamente sozinha, recebendo aquele ódio diário dos meus pais, que continuam pensando que fazem isso para o meu bem, e as provocações também diárias do meu irmão.
— Yoobin, eu juro... eu não sei o que dizer. Isso é tudo muito triste e pesado. Você é muito forte por ter aguentado até aqui. Por favor, Bin, você deveria ter me contado antes.
— Eu não queria fazer você ir embora. Era a única pessoa que gostava de mim, então eu quis esconder isso. Mesmo que você já tenha visto muitas partes ruins de mim, você não viu todas. Eles me destruíram demais, tem coisas sobre mim que eu não quero que você saiba, mas que provavelmente vai saber. A única coisa que tem me ajudado foi que um dia a minha mãe me arrastou a uma clínica psiquiátrica. Ela queria me colocar na linha, mas deu errado. Minha psicóloga e meu psiquiátrica têm sido grandes aliados meus. Contudo, não posso aparecer na casa deles ou pedir um abraço. Mas eles me ajudam a manter minha cabeça funcionando.
— Primeiramente... eu nunca, nunca iria embora. Eu estou disposta ao que for. Eu amo você, Yoobin. E isso significa que eu vou respeitar você, cuidar de você, acompanhar você, ouvir você, abraçar você... e tudo mais que você me pedir. — Encaram-se. — É minha promessa.
— Não. Eu também prometo tudo isso, então é a nossa promessa. — Yoobin levanta o dedo mindinho, esperando que Mihyun fosse “jurar juradinho” com ela, mas no lugar, recebe um beijo como confirmação.
Yoobin não nega: é um pouco "estranho" dormir no mesmo quarto que a sua namorada. Um pouco difícil de explicar, mas sentia-se... aflita.
"Vou apagar as luzes, tudo bem?" A Bae apenas assente. Após uma looooonga discussão, Yoobin acabou cedendo à gentileza da outra e ficou dormindo na cama. Enquanto fica rolando de um lado para o outro, Mihyun está no seu sétimo sono em um colchão, ao lado da cama. O cheirinho dela, no travesseiro, é suficiente para fazer a mais nova pegar no sono. Finalmente.
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hanazakari
ChickLit"Hanazakari: Substantivo japonês que representa a época do ano na qual as flores estão completamente floridas." Ou, melhor, quando Mihyun e Yoobin desabrocharam uma à outra.