Sons.
Agudos, estridentes, aveludados e agressivos, com vibrações irregulares e às vezes até inaudíveis de tão agonizantes.
Agora, eu só queria escutar a melodia da sua voz enquanto eu fico catatônico.
Mas tudo que eu escuto são os farfalhares dos lençóis se movendo, depois, os passos apressados e agora das gavetas se debatendo em um impacto grotesco demais para meus ouvidos.
É insuportável, mas eu não quero ir embora.
— Tem certeza que você vai ficar bem?
Não.
Me arranque daqui e me faça parar de senti-lo em tudo, me leve para longe, me faça esquecer e tire tudo de mim.
— Está tudo bem, Jin-hyung.— encaro parcialmente o olhar carranco e preocupado de meu melhor amigo quase escondido através da fresta da porta, suas mãos unidas segurando a pequena tigela com torta de maçã fresca, o pequeno bilhete escrito " Para Yoongi" que eu, rudemente, recusei. — Pode ir, eu volto pra casa de táxi.
O vejo acenar lentamente com a cabeça, pensativo e quase como se estivesse a ponto de negar a minha falsa fala de que tudo estava perfeitamente estável. Desvio meu olhar para a aliança que brilha em seus dedos e eu não consigo desfocar, um detalhe pequeno que carregava uma história de amor que eu tanto admiro.
Inveja.
— Qualquer coisa me ligue, tudo bem?— resmungo baixo, afirmando e absorvendo aquele cuidado que talvez seja o único que eu aceite sem sentir culpa.
Minha garganta se seca e eu quase imploro para Seokjin me levar consigo assim que eu vejo a presença de seu marido se aproximar, em passos receosos de atrapalhar qualquer outro diálogo íntimo, o medo explícito de aproximar-se naquele portal tão melancólico.
Namjoon abraça o corpo pequeno do marido, depositando um selar carinhoso no pescoço pouco exposto devido a quantidade exagerada de roupas que o cobria por causa da temperatura congelante que pegou Seoul despreparadamente. Jin olha em minha direção mais uma vez antes de direcionar o mesmo para a outra presença neste quarto, o suspiro pesado preenche o ambiente pesado e eu o escuto dizer:— Dirija com cuidado quando for embora, Taehyung. Está nevando bastante esta noite.— consigo escutar abafado um " Está bem" e depois o silêncio embrulha a minha garganta me impedindo de respirar. Seokjin se afasta lentamente, sendo puxado pela cintura através das mãos carinhosas de Namjoon.
A porta se fecha em um golpe rangido que ecoa pelo apartamento pequeno. Vazio.
O som do aquário vazio que estranhamente ainda era preenchido pela água esverdeada e suja se torna o único som que me faz ter a certeza de que ainda estou aqui. Depois, um suspiro trêmulo juntamente com a respiração puxada firmemente para dentro dos pulmões faz com que eu desvie o meu olhar do batente branco da porta sem graça daquele quarto já morto. Taehyung tem em suas mãos finas o tecido amarelo de uma camiseta perfeitamente dobrada, tirada diretamente da gaveta que eu nunca vi desorganizada, nem mesmo depois da perda. Ele leva o tecido quase que em camêra lenta próximo ao seu rosto que eu só conseguia enxergar em um perfil não valorizado, inala pesadamente como se quisesse puxar tudo para dentro do peito, e então acaricia com o seu rosto a camiseta como se sua vida dependesse daquilo. Minutos voam com o tempo e eu ainda permaneço aqui, assistindo essa cena que me corta por inteiro de uma necessidade que também era a minha. A saudade.
— Quase não tem o cheiro dele. — ele sussurra com a voz arranhada, parecendo não usá-la há muito tempo, de forma tão lenta que parecia sonolenta.
— Nada aqui tem o cheiro dele, não mais.— eu respondo ácido, vendo a cabeleira loira já desbotada deslizando em seu rosto, no instante em que olha para mim, parecendo incrédulo.
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Talvez em outra vida tenha sido nós
Romanceoneshot| sadfic |taeyoonseok Meu eterno talvez.