Já se passaram alguns anos desde que Condessa Rowa Dicalyo decidira se aposentar, entretanto, ela ainda recebia diversas cartas com pedidos pelo seus serviços. Há muitos anos atrás ela fora uma professora de muito renome. Todos os seus estudantes tornaram-se pessoas bem-sucedidas em Licrya e até mesmo em outros reinos. Os nobres chegariam a fazer filas em sua porta para que esta passasse seus ensinamentos.
Agora a senhora era uma simples velhinha que aproveitava o sol da manhã e se escondia das brisas de fim de tarde, uma que jamais se esquecia de regar suas amores-perfeitos, embora sequer lembrasse de onde deixou seus óculos. Daquelas que jamais dormiriam sem meias nos pés.
Apesar disso, cartas que a solicitavam ainda chegavam em seu correio abundantemente e pessoas viriam de tempos em tempos bater a sua porta com súplicas incessantes. Infelizmente, os esforços dessas pessoas não eram nada mais do que vãos. Depois de sua aposentadoria Rowa jamais aceitou qualquer estudante sob sua saia. Bem, isso até uma segunda de manhã.
Naquele dia, a senhora acordou com o nascer do sol como de praxe, lavou-se, teve seu café e regou suas plantas.
Logo os passos vagarosos e curtos da Condessa dirigiram-se para a sua sala de leitura. Ela deixou seu corpo afundar em uma poltrona vermelha, ergueu as mãos trêmulas em direção a sua mesinha, agarrando seu óculos de leitura e o colocando diligentemente. O corpo envelhecido de Rowa estalou ao interim que inclinava-se para pegar as cartas que os empregados deixaram em sua mesa. Os olhos dela passaram pelas correspondências sem muito floreio, pausando quando avistou o selo do castelo imperial.
"O que o palácio poderia querer comigo?" perguntou a si mesma quebrando o selo e abrindo a epístola.
A surpresa quase devorou sua mente, seus olhos piscaram ao mesmo tempo que a Condessa passava seus dedos pela assinatura de Sua Majestade. Não o castelo, mas o próprio Imperador solicitava sua presença.
- Que inesperado, então aquela criança decidiu se casar – murmurou para si mesma suspirando pesadamente. – Parece que terei de abrir uma exceção para minha aposentadoria.
Com isto em mente, a velha Rowa começou a arrumar suas bagagens. Toda a sua propriedade entrou em um estado de urgência, seus empregados iam de um lado para outro ajeitando as coisas - não havia tempo para ociosidade. - Logo, o boato de que a Condessa voltaria a ativa, e ainda por cima estaria passando suas lições para a tão famigerado futura imperatriz, se espalhou por entre os círculos dos nobres como fogo no cerrado.
Não demorou para que a interesse da mais alta sociedade chegasse ao seu pináculo. Alguns poucos pares de perna sequer conseguiram conter sua curiosidade e moveram-se para a mansão de Rowa com os lábios comichando em fervor.
Um jovem casal chegou a porta com as braços dados, uma sombrinha cheia de babados pairava sobre suas cabeças. Eles foram recebidos por um mordomo estrangeiro e guiados para um jardim esmero, onde a velha professora descansava com suas luvas de renda. A senhora tomava tranquilamente seu chá em uma mesa alva e aproveitava os raios de sol ao ínterim que aguardava a chegada dos seus convidados.
O casal tirou seus chapéus e assentaram-se a mesa com sorrisos frágeis brotando em suas bocas. A condessa deu-lhes um olhar vago, como quem esperava algum tipo desenvolvimento minimamente interessante.
- Condessa Dicalyo, faz um bom tempo que não temos uma boa conversa – cumprimentou a mulher erguendo suas sobrancelhas.
- Sim, Marquesa Calliop, a senhora se tornou ainda mais forte e encantadora desde a última vez que lhe vi – então os olhos de Rowa seguiram em direção ao homem ao lado dela. – E você Marquês, continua com esse veemente ar de um rapaz, parece que nem o tempo pode tirar-lhe a juventude intrínseca.
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O Imperador Vermelho
Romance"Ele ascendeu ao trono em degraus de sangue". Quando Isabella foi misteriosamente teletransportada para uma realidade completamente distinta daquela a qual a jovem conhecia e que, como regalo, estava sob o constante ataque de bestas mágicas, ela não...