Naquele entardecer de domingo, Isabella deitou-se a sombra de uma árvore frondosa enquanto observava o céu por entre os feixes das folhas mostrando-se despido em embaraço.
Abel velava a alguns metros de distâncias, em prontidão para avisar-lhe caso alguém se aproximasse.
Haviam se passado duas semanas desde que a jovem de olhos azuis se converteu na noiva do Imperador Vermelho. Ela já começava a se habituar ao seu novo estilo de vida; estudar, ler, dançar, tomar chá com Kevona aos fins de tarde, estudar de novo, ler um pouco mais, desabar entre seus edredons e recomeçar.
O futuro parecia prostrar-se diante de si, com olhos baixos e maliciosos, medindo-a enquanto um sorriso desdenhoso crescia em sua face.
Ainda assim, Isabella tinha de admitir que apesar das dificuldades que suas escolhas aplacavam, ainda valiam a pena em face do seu oásis de todas as manhãs. Sim, conquanto que Sua Alteza pudesse ver Alexandre, suas energias seriam renovadas instantaneamente. Não havia nada que a deleitava mais do que ouvir aquela voz de veludo acariciando suas orelhas feito as tentações de um demônio todos os alvoreceres.
- Eu sou tão barata – murmurou para si mesma sentindo o coração acelerar.
De repente, o barulho de sapatos passeando pela grama banhada em orvalho atingiu as orelhas da garota, ela sentou-se assustada e chamou em uma voz baixa:
- Abel.
- Sim, Vossa Alteza?
- Tem alguém vindo nessa direção? Eu acho que ouvi alguma coisa.
- Não há ninguém. Deve ter sido impressão sua.
- Você precisa me avisar se alguém se aproximar – pediu torcendo levemente o nariz. – Eu nunca me importei com essas coisas antes, mas Kevona disse que não era bom para minha imagem ou coisa do gênero... que chatice.
- Confie em mim, Vossa Alteza. Se alguém aparecer por aqui eu lhe avisarei.
Um suspiro eclodiu dos pulmões de Isabella.
"Estou começando a ficar paranoica" pensou com seus botões.
Ela deixou o corpo afundar na grama ao interim que seus dedos se entrelaçavam com a relva. Seus pés descalços sentiam-se finalmente libertos ao mesmo tempo que uma brisa suave de verão passava por suas solas de seda. Um vestido rosa e ameno grudava docemente em seu corpo, abraçando a tez de Isabella e contornando sua silhueta esguia. O cabelo feito de raios de sol espalhava-se e abria-se em uma flor sublime adornado por um verde fulgurante. Os feixes de luz que escorregavam pelas fissuras dos ramalhos banhavam-na feito um anjo descendente do céu.
Aquilo era estar viva.
Então, os pálpebras da jovem abriram-se languidamente, seus pestanas chamejantes moveram-se num bater de asas de borboleta; um movimento tão natural tal como respirar. As pupilas de Isabella dilataram e depois contrariam focando na imagem à sua presença – duas bolinhas de gude vermelhas encaravam-na sob um teto de folhagem espessa.
"O quê...?" se perguntou atordoada.
Um grito surdo quase escapou da garganta de Isabella quando viu o Imperador Vermelho ligeiramente inclinado para frente, fitando-a com uma expressão indecifrável. Tal abstrusidade era uma benção e uma maldição – uma benção para ele, uma maldição para os outros.
- O que está fazendo aqui? – sondou a jovem com olhos arregalados.
- Eu estava dando uma caminhada – replicou Alexandre franzindo vagamente os sobrolhos. – Não posso?
Isabella crispou seus lábios trêmulos – que tipo de pergunta era aquela? É claro que ele podia. O palácio era dele afinal.
Questões giravam na cabeça da jovem como em um carrossel; ela sentou-se atordoada tentando articular uma frase coerente:
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O Imperador Vermelho
Romance"Ele ascendeu ao trono em degraus de sangue". Quando Isabella foi misteriosamente teletransportada para uma realidade completamente distinta daquela a qual a jovem conhecia e que, como regalo, estava sob o constante ataque de bestas mágicas, ela não...