Raul é um morador de rua que perdeu sua mãe e, desde então, vive debaixo de um viaduto com o seu irmão mais novo chamado Kevin, de apenas 7 anos. Ele vive sem muita esperança de ter a sua sorte mudada, embora esteja sempre consolando o seu irmão, di...
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20 DIAS DEPOIS
Ouvi duas batidas na porta do banheiro e, logo em seguida, a voz de Lorena soou do lado de fora:
— Está tudo bem aí, Raul?
Terminei de afivelar o cinto da calça, notando que, mesmo assim, o jeans ficava um pouco frouxo, e abri a porta com certa dificuldade. Minhas mãos ainda vacilavam.
— Estou sim — respondi por fim ao ver Lorena.
Ela me olhou por alguns segundos e, logo em seguida, se aproximou de mim, ajeitando a gola da minha camisa que eu nem havia percebido que estava desarrumada.
— Acho que emagreci além da conta — brinquei percebendo que a camisa havia ficado relativamente grande.
Lorena sorriu largo e, com uma mão no meu ombro, disse com seu jeito engraçado:
— Esse problema, a comida da Gilda resolve.
Ri baixo. Lorena, sempre me fazendo rir.
— Realmente, eu sinto falta da comida dela... E dela também, é claro.
— Ela vai gostar de saber disso.
Rimos juntos e, então, o silêncio se instalou de repente. Algumas coisas pareciam não terem mudado.
— Bom, então vamos! — Lorena disse de repente, se afastando de mim e apanhando a bolsa que estava sobre a cama.
— Pode deixar que eu levo a bolsa — falei, pois sabia que ali estavam algumas coisas minhas. Nada mais justo do que eu carregar.
Mas Lorena girou sobre seus calcanhares, me fazendo rir antes de qualquer palavra, e disse:
— Não, senhor. Você ainda está de repouso.
— Mas ela não está pesada.
— Raul... — Ela disse meu nome com um tom de advertência e eu me entreguei, risonho:
— Está bem. Você venceu.
Ela me jogou uma piscadela divertida e, então, saímos do quarto.
No caminho, até o estacionamento, uma série de pessoas vieram me cumprimentar. Muitas pessoas, eu sequer conhecia, mas, mesmo assim, aceitei os cumprimentos. Afinal, de certa forma, eu sabia que havia voltado à vida através de um milagre.
— Alguém está famoso, hein! — Lorena exclamou assim que entramos no carro.
Acho que senti falta até do aroma que sempre abraçava seu carro. Aquele aromatizante que Lorena usava, combinado com o frio do ar-condicionado, foi minha pedra de tropeço na noite em que ela levou Kevin e eu para casa, pois sentia vergonha do contraste entre a polidez do veículo e a sujeira do meu corpo. Mas, agora, aquele cheiro me acolheu. Eu me sentia em casa.