02. Presença macabra

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O sujeito retirou lentamente as mãos da jovem, atento a qualquer movimento ou ruído que ela fizesse. Com os olhos arregalados, boquiaberta e trêmula, ela começou a sentir drasticamente os efeitos emocionais da situação.

Diante da grande confusão mental causada pela noite medonha, seu corpo tardou em reagir de alguma forma que não fosse o convulsionar dos lábios. Sua mente transbordava uma bagunça que não poderia ser traduzida pela trepidação involuntária do maxilar.

- O que... O que era aquilo? - sussurrou na direção da porta, como se ignorasse o desconhecido atrás de si.

- Eu não sei... Estou preso aqui há horas, tentando evitar que aquilo me encontre... - soprou, o estranho, ao pé de seu ouvido.

Devido a escuridão dentro da casa, ela não conseguia enxergar nada do ambiente em que estava.

Ouviu o ranger de passos sobre o chão arenoso.

- Ai, car... - assustou-se, ela

- Quieta! - o sujeito tapou sua boca novamente e pôs-se com o corpo colado ao seu. Ela notou um forte cheiro de graxa vindo do estranho - Precisamos nos afastar mais da porta...

Sob seus pés, ambos notaram uma leve vibração.

- Ele tá vindo! Não se mexe...

A possibilidade de estarem sentindo o reverberar de um terremoto distante veio a sua cabeça, mas nos segundos seguintes a trepidação veio acompanhada de sons ordenados, no ritmo de passos. Contudo, o que seria cada passo mais parecia um par de bate estacas se aproximando, junto dos quais também se ouvia o trincar do concreto a cada pancada.

Sua respiração denotou uma espiral de aflição, reduzindo o tempo entre cada fôlego e aumentando a intensidade progressivamente.

- Você precisa se controlar, moça! Ele vai te ouvir! - apertou mais sua mão sobre a boca da jovem, na tentativa de abafar o ruído de sua hiperventilação.

Os sons já pareciam bem próximos da entrada. Ocultos pela escuridão, a alguns metros da porta, os dois permaneceram de pé, imóveis e com os olhos arregalados, angustiados com a proximidade que aquele som estava tomando.

Ela sentiu um braço em torno de sua cintura, guiando-a lentamente para trás. No primeiro passo, o calcanhar esbarrou em algum objeto metálico. A pesada e assustadora movimentação, já bem próxima da entrada, parou por um momento, como se tivesse interagido com o barulho acidental do abridor de cartas chutado, ao chão. De fora, um ruído de aspiração potente, feito um ronco nasal grave, farejando o ambiente em busca da presa.

Prosseguiu dois passos atrás, conduzida pelo estranho. A mão do desconhecido saiu de sua boca e foi ao topo de sua cabeça, num pedido silencioso para que se abaixasse. Já agachados, moveram-se mais um pouco à esquerda, o que os deixou por detrás de uma tábua de compensado. Por cima do obstáculo, seus olhos permaneceram vidrados, refletindo a luz fraca de um poste que se acendeu de repente.

Um rugido estrondoso ecoou, que remeteu em suas cabeças a um Chofarot gigante, grave e infernal, cujo som estremeceu as paredes. Fez-se um clarão acompanhado de fios elétricos se rompendo junto com a queda do poste.

- Meu Deus... Não... - transtornada, dessa vez ela mesma levou as mãos à boca para silenciar seu próprio espanto.

- Deus? Isso é qualquer coisa, menos coisa de Deus... - conspirou o homem num sopro quase mudo.

A série estroboscópica de clarões, causados pelo rompimento dos fios de energia, contraiu suas pupilas repentinamente, desfazendo qualquer acuracidade visual que o escuro os tivesse fornecido. Conforme a energia se esvaía da rede, os clarões se tornavam mais espaçados, bem como os passos de bate estaca eram ouvidos se aproximando novamente.

Enfim, a temida figura pareceu ter chegado à porta. Um último clarão se fez do lado de fora, revelando a enorme silhueta que se fixou na entrada, logo antes do breu se instalar. Suas respirações foram contidas o máximo possível, numa tentativa desesperada de não se deixarem ser notados.

Ela tinha certeza de que a "coisa" estava ali, diante deles, emanando um forte cheiro de morte. A enorme silhueta desenhou-se novamente, impressa dessa vez pelo reflexo de um repentino e estranho relâmpago avermelhado.

Em sua mente, um grunhido inumano  se manifestou, algo não captado pelos tímpanos e percebido direto em pensamentos. Embora fosse uma sonoridade totalmente incompreensível, ela estranhamente conseguiu traduzir aquela sequência telepática, como se fosse um código decriptado, dentro de sua cabeça: "Enfim, te encontrei, minha rainha!".

A protegida e o demônioOnde histórias criam vida. Descubra agora