Isso te faz sorrir. Isso te faz amar.
Há pessoas que acreditam em sorte, mas eu sempre fui diferente. Com o passar do tempo, acreditei que tudo o que era bom só vinha com empenho, e que a sorte era apenas uma outra palavra inútil para descrever a recompensa que se recebe depois.
Há aqueles que acreditam em destino, mas para mim aquilo era o mesmo que acreditar na sorte alheia. 'É que as melhores coisas nunca vem de graça', pensava eu, 'porque o mundo só dá o que recebe de você'. E eu dei muito a ele, como dei. Entre vida e a morte, dei tudo e ainda coisas que eu nunca permiti ou pensei em dar... Mas, mesmo assim, não reclamei por muito tempo e vivi o próximo dia como o mesmo precisava ser vivido. Eu sorria para mim mesmo e dizia que estava tudo bem, porque eu sempre pensei que, em um dia bom, isso viria novamente a tona e eu teria o meu futuro feliz. Todavia, sentado na frente de um diretor sorridente com meus três únicos amigos, eu não ainda tinha ideia de que essa visão seria distorcida.
"Senhor diretor", começou Ana, que estava sentada ao lado de Raquel nas únicas duas cadeiras que haviam em frente ao diretor. Eu e Gui aguardávamos e ouvíamos em pé, atrás delas. Como uma rainha sentada em seu trono, a garota de cabelos roxos cruzou as pernas e entrelaçou suas mãos, "Eu gostaria de conversar sobre a suspenção"
O diretor assentiu e fez um gesto com as suas mãos, erguendo-as para cima como se fosse um mestre de circo apresentando o próximo show, "Sou todo ouvidos", disse ele.
Ana apertou os olhos, "É bom ser mesmo. O que eu tenho para dizer é muito importante", ela fez uma pausa pensativa, enquanto eu suspirei. Quando discutimos no dia anterior sobre o plano que iríamos executar, Ana nos fez acreditar que ela saberia o que falar nessa hora e nós não precisávamos conversar sobre essa parte. Mas agora, conhecendo-a a tento tempo, eu tinha quase certeza que ela nem havia começado a pensar sobre isso, "O... O meu primo!", disse ela, estalando os dedos. O rosto do diretor se contraiu em confusão ao mesmo tempo que o nosso, "Ele está muito doente, oh, como está doente!", ela colocou a mão no peito e fingiu um quase desmaio, "Ele não consegue mais respirar sem aquelas troços estranhos saindo no nariz"
"Quer dizer um respirador mecânico hospitalar?", perguntei.
"Isso!", exclamou ela, "O troço mecânico hospitalar. Oh, senhor diretor, o senhor tem que acreditar em mim, por favor! Me deixe voltar para a escola para ser uma médica em nome do meu primo e salvar a vida dos primos de outras pessoas que tem primos por aí!"O diretor pareceu desconfiado, "Seu pai é o meu chefe. Eu conheço a sua família, não sabia que você tinha um primo. Na verdade, eu achei que você só tinha um tio, mas ele era muito novo da última vez que eu o vi. Tem certeza que ele tem um filho? Ah, não, eu lembrei, o seu pai não tirou uma folga porque aconteceu algo com ele? Lembro que isso foi bem estressante..."
Ana arregalou os olhos, "Não!", disse ela, "O meu primo é o filho do meio irmão perdido do meu pai. Eles não se falam tanto, sabe? Ele é mais velho, não tanto quanto o meu pai, mas é velho, mas não tão velho porque o filho dele é bem menor do que eu. Oh, diretor, apenas uma criança! Ninguém merece passar por isso, quanto mais uma criança!!", Ana parecia estar especialmente nervosa, "Você sabe como esse sonho é lindo? É muito lindo, senhor diretor, ajudar as pessoas é uma coisa muito linda, principalmente quando você planejou com essas pessoas que receberia uma ajuda. Essa palavra é tão linda, você não acha? Ajuda. Tipo, pras pessoas não fazerem as coisas sozinhas. Ajudar é tão bom. Ajudar. Ajuda"
Dito isso, Raquel pulou da sua cadeira e disse: "S... Sim!", exclamou ela, "E Ana ajuda muito o seu primo, você sabe? Ela visita muito ele pra ajudá-lo com aquele..."
"Troço respiratório mecânico", completou Ana.
"Respirador mecânico hospitalar", corrigi, cansado.
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Se Histórias Fossem Para Sempre
Short StoryBen Wagner é um garoto de 16 anos que perdeu a mãe ao mesmo tempo que perdeu a inocência. Sem suas histórias de dormir e a tranquilidade ao acordar, ele foi se prendendo em uma prisão na qual a coerção de ser o melhor foi a única coisa que restou...