Epílogo

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It's always darkest before the dawn

Shake it Out, Ben Bruce


Quatro meses depois do apocalipse...

Quatro meses se haviam passado. Quatro meses desde o apocalipse e do pretenso fim do mundo. O mundo estava igual, ou quase. Muitos diriam que estava melhor. Sem anjos ou demônios, os humanos eram, finalmente, livres, como sempre haviam desejado. Eles estavam bem, em seu mundo perfeito. Eu não. Quatro meses depois e continuava desolada, pensando se, algum dia, me sentiria inteira, novamente. Seria possível algum lugar no futuro? Talvez sim, contudo, não tinha grandes esperanças.

Abrira um abrigo. Bem, algo entre um hospital e um abrigo. Funcionava na casa que era de Daniel. Acolhíamos todos os humanos, especialmente aqueles que agora estavam sozinhos no mundo e queriam companhia, ou se encontravam feridos e precisavam de alguém para cuidar deles. Aquela era a minha vida. Cuidar dos outros, para não me lembrar que eu também necessitava de ser cuidada.

Não voltara à casa de Ezra. Não sabia se algum dia voltaria lá. Precisava ocupar minha mente com algo, o tempo todo, e estar lá só me faria pensar numa coisa. Nele.

Tinha um quarto, no abrigo, ao lado daquele que se tornara o quartinho de Ari. Ele se tornara como um irmão ou um filho para mim. Ele era a razão de minha confusa existência, talvez minha única ligação comEzra, já que fora ele que o deixara comigo. Ele queria que eu ficasse com o pequeno Ari, então, devia cumprir seu desejo, não que me custasse muito. Afeiçoara-me ao moleque. 

Sentia-me mais crescida, sem qualquer motivo aparente. Talvez a dor e o sofrimento amadurecessem as pessoas. A mim, com certeza, fê-lo.

O pior era à noite. Habituara-me à presença de Ezra, a dormir a seu lado, sob a proteção de seu corpo e o desejo de seu coração. Agora, a única coisa que acompanhava minhas insônias era o frio dos lenções brancos de algodão.

Naquela noite, a um dia de completar quatro exatos meses desde a guerra, como em tantas outras antes daquela, eu me vira e me revirava na cama, fazendo uma lista mental de tudo o que era preciso fazer no dia seguinte, no abrigo. Era assim que eu preenchia meus momentos noturnos, para me afastar de pensamentos mais tenebrosos e muito mais penosos.

É preciso mudar os curativos do doente da cama quatro. E também do da dez. Acho que o da quatro vai ficar com febre. Talvez, devesse ir lá agora confirmar... 

- Hannah!

Sentei, de imediato, na cama. Para alguém que, até há bem pouco tempo, não dizia uma palavra, Ari tinha uns ótimos pulmões. Levantei e caminhei rapidamente para seu quarto. Aquele era outro ritual. Ari sonhava e, se não gostava do sonho, me chamava para mandá-lo embora. Ele acabava adormecido, comigo contando uma história e fazendo festas em seus cabelos. 

- Estou aqui, estou aqui. – sussurrei, entrando em seu quarto e sentando em sua cama. Ele estava também sentado, os olhos inchados pelo sono, os cabelos despenteados pelas voltas e a respiração ofegante pelas tentativas de fugir dos monstros de seus sonhos. – O que é que aconteceu?

- Tive um sonho.

- Agora, já passou. – peguei suas mãozinhas e as esfreguei. – Foi sobre o quê?

Se aqueles meses me haviam tornado mais adulta, em Ari tiveram o efeito oposto, pois, naquele momento, parecia mais criança do que nunca. Finalmente, seus olhos assustados aparentavam a mesma idade que seu corpo.

- Ele vai voltar, Hannah. – ele murmurou, de órbitas arregaladas. 

- Quem, Ari? Quem é que vai voltar? – perguntei, continuando massajando suas mãos.

Entre Anjos e DemôniosOnde histórias criam vida. Descubra agora