Capítulo 4 - Jean, o revolucionário da fábrica

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Mal desci do ônibus e já estou perdido nesse aglomerado de gente, essa desordem toda me incomoda, esse medo todo no ar só piora a situação. Passo a mão pelo meu cabelo raspado, tentando me acalmar um pouco. Respiro fundo e olho ao redor.

Mesmo nessa confusão consigo nos diferenciar, a diferença é sempre bem evidente. Os nobres não se esqueceram de se arrumar e seus rostos são os menos preocupados, estão mais ansiosos do que realmente assustados. Os burgueses ricos são quase como eles, a diferença é a cara amarrada, eles se acham tão injustiçados, têm grana o bastante para viverem bem, mas não receberam títulos de nobreza então ainda precisam trabalhar. Que absurdo, não é mesmo? O resto de nós, burgueses medianos, burgueses miseráveis e plebeus famintos já estamos sujos e acabados sem nem começarmos esse jogo de desgraças. Alguns plebeus como eu tiveram que trabalhar hoje cedo. Um dos meus colegas da fábrica machucou a mão de propósito para não vir. Mas duvido que ele tenha conseguido escapar.

De repente, a multidão congela. Seguranças abrem a porta de um jatinho, várias câmeras voadoras rondam o meio de transporte. De dentro dele sai um cara magrelo com pele de porcelana, cabelo cacheado loiro brilhante e olhos azul cristal. O coitado é basicamente um boneco, por isso tenho certeza de que é um nobre real.

Muitos cochichos surgem no segundo em que ele pisa o chão rochoso. Garotas nobres fantasiam seu casamento com ele, burgueses o olham de cara feia como se já planejassem assassiná-lo e plebeus em geral simplesmente o ignoram, muito cansados para terem raiva.

— Mandaram esse mauricinho idiota pra fingir que não trapaceiam!

— Não vamos cair nessa!

— Tirem esse corrupto daqui!

Eu xingaria o boneco ambulante junto com os nobres atrás de mim se não soubesse que estar no lugar dele também não deve ser nada bom. Poucos enxergariam que por trás de seu rosto perfeito existe um garoto assustado carregando o peso de uma casta corrupta inteira. Ele pode até defender um monte de besteira, mas com certeza não pediu para vir para cá. Não importa o quanto ele sorria e acene para a multidão, o boneco humano me parece um pobre coitado. Ele age como se fosse perfeito para não revelar a verdade. E a verdade é que ele também quer ir embora.

Eu poderia ficar estudando o garoto boneco por mais um bom tempo se não fosse por outro fato inesperado. Assim como grande parte da multidão, me viro em direção a uma garota que esperneia enquanto é arrastada por guardas até o centro do local. O que me surpreende é que ela deve ser nobre, mas está fazendo o maior show para ir embora. Os nobres podem comprar sua liberdade desses jogos da morte. Talvez os pais da garota só queiram se livrar dela ou fazê-la ganhar status. Nobres são estranhos.

Uma outra coisa que achei ainda mais engraçada foi ver a cara de um rapaz do outro lado desse quadradão cinzento encarando a menina, completamente encantado com seu show de gritaria. Pelo visto as loucuras não acabam nesse circo de horrores. Na verdade, é difícil não notar esse cara, os outros mantêm uma boa distância dele independentemente da casta que pertencem, provavelmente porque ele é estrangeiro, deve ter vindo da República de Lóng ou da República de Ryu. Nosso país tem um nacionalismo meio burro. O mundo todo tem.

Às vezes me pergunto como o mundo ainda não acabou. Se bem que estamos quase lá...

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