Capítulo 14 - Frida, a garota que só quer ler o seu jornal

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Estou tentando ler no meu jornal tablet as notícias de hoje e falhando miseravelmente porque Jack Lancelot não para de insistir.

— Por favor, Henrique. — Ele implora pela milésima vez. — Meu pai já me ligou quatro vezes essa semana, preciso comparecer nesse baile de máscaras idiota.

— Ele não está aqui pra te obrigar. — Henrique responde enquanto termina de enfeitar suas panquecas com mirtilos.

— Mesmo assim...

— Tudo bem, pode ir. Mas eu tô fora, odeio festas. Ou melhor, odeio pessoas, principalmente seus colegas da nobreza.

— Mas não vai pegar bem se só eu for, o grupo inteiro precisa ir.

Henrique para o que está fazendo para refletir. Lancelot deve estar pensando que ele está realmente considerando ir porque sua expressão se suaviza, mas Henrique diz:

— A cobertura! — Ele corre para pegá-la em um dos armários da cozinha.

— Não, Henrique, preste atenção!

Lancelot passa as mãos pelos cabelos e quase acho que ele vai arrancá-los todos de uma vez.

— Não esquenta, cara. Brien vai também, cê não vai tá sozinho.

— Mas ele é um burguês de classe alta, é basicamente um inimigo declarado da corte.

— Uai, mas cê não queria que nois fosse tudo?

— Todos nós, não eu e um inimigo político!

Céus, eles não ficam quietos.

Desligo meu tablet, desistindo de ler.

— Por que não chama a lady F pra ir junto, ela que tem cara de que atura essas coisas.

— Lady F?

— Senhorita F, Lady F... sei lá, algo assim. — Henrique finalmente se senta, pronto para comer.

Me ajusto no sofá para prestar mais atenção na conversa já que ler não é mais uma opção.

— Felicity?

— Isso aí, foi assim que ela me falou pra chamar ela.

— Ah. Bem, eu pedi para ela ir comigo, mas acho que os pais dela exigiram que fosse ao baile. Por isso ela se recusou a ir.

— Tendi. — Henrique diz, terminando uma mordida.

— Vai ter comida lá, Henrique. — Lancelot arrisca uma boa jogada.

— Hmmm, é... verdade, mas aqui também tem;

Lancelot se senta em frente a ele, completamente desanimado.

— Mas também não seria uma boa ideia ir só com ela já que eu defendi a igualdade e trabalho em equipe na entrevista.

— Você defendeu, é? — Pergunta Henrique, lambendo os dedos cheios de calda de chocolate.

— Sim, enquanto Brien e Jean brigavam. Fiquei distraído, falei o que pensava. Foi a maior burrice. Agora minha imagem será destruída. — Ele solta um suspiro desistente.

— Não fique assim, acho o que você defendeu muito lindo. — Entro na conversa.

— É, mas o mundo inteiro me odeia agora. — Responde, virando-se para mim.

— Nem todo o mundo, os nobres com certeza, mas nem todo o mundo. — Lancelot faz uma cara de descrença, então me apresso. — Sério, olha. — Entrego-lhe o meu tablet.

— O que é isso?

— Minha jornalista preferida escreveu sobre você.

Lancelot pega o jornal virtual e lê a matéria em voz alta.

Carta aberta a Lancinho e aos leitores da Democracia do Brioche

Los Angeles, 01 de março de 3010

Caro Lancinho,

Jornais, contas nas redes sociais, podcasts do mundo todo comentam sobre Vossa Alteza, e sua participação na edição do EXAME Brasileiro. Desde sua entrada, escolha de grupo, estratégia no jogo, tudo é, lamentavelmente, espetacularizado. Contudo é da sua entrevista após a segunda prova que vou emitir minha opinião, ela foi definitivamente um ato transgressor ainda que na medida do possível.

Entendo que lidar com câmeras o tempo todo não deve ser fácil e representar toda uma casta e seus interesses é mais difícil ainda, mas admiro sua alteridade para conciliar seus valores e demonstrá-los em rede internacional. Muitos consideraram-no covarde por prezar pela igualdade e pelo respeito entre seus colegas, porém para mim isso é uma representação da força e de um valente ato contra a virilidade. Não fazer abuso de poder é sim uma forma de resistência que deveria ser valorizada e eu o admiro por isso.

Meu espaço está no fim, despeço-me aqui e desejo muita tranquilidade (apesar de todas as preocupações por uma entrevista, pois a escolha do amor não é fácil nem vista por todos, mas é essencial), sorte e força para as próximas provas à V.A. e a todos que lutam arduamente. Embora saiba que talvez esse pedaço de jornal não lhe seja entregue.

p.s.: peço perdão, Jack Lancelot, por apelidá-lo, carinhosamente, de Lancinho, uma vez que realmente fui cativada por sua ternura ao olhar os integrantes do time durante sua fala e resolvi representá-la por meio de um nome.

— Viu? Tem umas partes censuradas, mas ela tá literalmente dizendo que achou seu discurso lindo.

Lancelot não responde, só continua fitando o que a incrível Mary March escreveu. Um dia quero ser como ela. Quando sair daqui, sendo mais do que burguesa ou não, vou fazer jornalismo também.

— Cara, cê realmente defendeu nossa união. — Henrique fala, em choque. — Vou contigo nessa parada, cê me emocionou agora.

— Eu também. — Digo.

— Muito obrigado! — Lancelot diz, ainda se recuperando da surpresa. — Aos dois.

Um momento de silêncio recai sobre nós.

— Mas da onde ela tirou o apelido "lancinho"? Não é possível essa coisa pegar. — Fala rindo no momento em que alguém desce as escadas.

— Lancinho? — Felicity questiona sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo aqui. — Que genial! Por que não pensei nisso antes? Lancinho! LANCINHOOOOOO...

— Tá bom, tá bom. — Lancelot a corta. — Para de falar isso antes que mais alguém ouça.

— Se não é possível essa coisa pegar, por que se preocupa? — Provoco.

Lancinho revira os olhos.

— Tenho uma boa notícia para você, senhor Lancinho. — Felicity vem até nós. — Encontrei um jeito de me rebelar contra meus pais e não perder nossa festa. 

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