— É um absurdo, né? Obrigar adolescentes a fazer esses desafios como se fosse um vestibular qualquer. — Digo a ele enquanto preparo meu arco.
O cervo está na mira.
— Nós nem participamos dessa sociedade, como se atrevem a nos ameaçar e arrastar pra cá?
Hélio aponta para o cervo que se moveu. Reajusto meu arco. O animal está na mira novamente. Dessa vez não me distraio, a flecha é certeira.
Hélio faz uma fogueira na frente do lago enquanto eu arrasto o animal até ele.
— Credo, nem acredito que fomos naquele circo dos horrores de baile ontem. — Desabafo diante de Hélio, então me sento à sua frente. — Só fui porque eu tinha feito as roupas.
Demoramos um bom tempo abrindo e limpando o cervo, tempo suficiente para começar a escurecer. Enfim nossa janta está pronta em espetos de madeira.
— E um monte de gente vai morrer nessa droga. — Termino meu terceiro espeto. — Eu nem sei porque estou tão revoltada, acho que só não suporto essa palhaçada.
Olho para Hélio. Ele simplesmente assente com o olhar distante. Às vezes queria que meu irmão fosse um pouco mais comunicativo.
— Acho que aquela festa me irritou. — Falo, colocando outro espeto no fogo. — Ver tantos nobres e burgueses que não vão sofrer aqui, sendo que milhões vão morrer... isso... isso me deixa furiosa. Eles podem pedir ajuda o quanto quiserem. Eles estão só se divertindo. Os miseráveis que morrerem são lucro, diminuem a população gigantesca. Isso tudo é tão injusto, tão irritante! Sério, você viu como aqueles frescos olharam pro resto da nossa equipe ontem? Sem ser pra Felicity, ou pro Lancelot ou aquele burguês sem noção.
Hélio coloca a mão no meu ombro. Me viro para ele que só aponta para cima.
— Já vai dormir?
Ele concorda com a cabeça.
— Tá bom.
Hélio gosta de dormir nas árvores, o que é bem mais seguro do que no chão, se você se posicionar devidamente. Eu faria o mesmo se não tivesse o maior pavor de altura.
Puxo meu espeto do fogo e continuo comendo, sozinha.
— Muitos dos nossos morrem também.
Puxo minha faca e fico de pé.
— Burguês sem noção? Sério, você não tinha um apelido melhor?
Brien está ridiculamente apoiado numa árvore de braços cruzados e cara amarrada.
— Ah, você.
Volto a me sentar.
— Até Lancinho supera esse. — Fala, sentando-se ao meu lado.
— Ninguém mandou ser insuportável, um bebê chorão.
Ele dá de ombros.
— Ser legal não me levaria muito longe. Com Lancelot é diferente, ele é um nobre.
Reviro os olhos.
— Se você for começar a falar das injustiças estúpidas que sofre eu te mato com essa faca.
— Tá bom, parei.
Tenho alguns segundos de paz para comer antes de ele falar:
— Mas é um fato que os burgueses são injustiçados...
Jogo o espeto no chão e pulo em cima do idiota.
— Todo mundo é injustiçado, seu asno burro! — Coloco minha faca no seu pescoço. Ele não devia ter me irritado neste momento. — Os plebeus passam fome, sabia? Morrem aos montes nas fábricas e aqui nesse inferno também! Acho que isso tudo é bem pior do que ter privilégios estúpidos roubados.
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O Exame
General FictionEm todo o planeta, em cada país, todo jovem ao dezoito anos completar, deve o Exame realizar. O mundo é dividido por castas, as quais podem ser elevadas, com a rara vitória nos tãos temidos jogos em massas. Doze provas. Doze meses. Quem sobrevi...