Abri meus olhos e antes que meu cérebro entendesse que eu havia acordado, pude sentir minha boca e maxilar arderem e minha barriga pulsar. Ontem havia dor, mas hoje... Minha nossa!
Vim para essa cidade procurar paz e me encontro sendo o centro das atenções e pior, tendo que ir a uma delegacia prestar queixa de minha agressão e dar depoimento sobre o maldito carro. Por que é que saí para fumar bem naquela hora?
Me levantei devagar e me coloquei sentado na cama. Peguei meu celular e vi uma mensagem do Dr. Andrew.
"Por favor, descanse, vá a delegacia e faça tudo que tiver que fazer. Se precisar de ajuda estou no consultório."
Para um homem idoso ele se dava bem com a tecnologia e apesar da minha idade, eu também me dava.
Só de me lembrar da noite de ontem, do trabalho que dei aos que só queriam participar da festa me causa arrepios. Lembrar de como eu me senti intimamente com Amy cuidando de mim... Será que me mudar para cá foi mesmo a decisão certa?
Me levanto tentando organizar esse turbilhão de lembranças, dores, dúvidas e vou até a janela. Abro a cortina para deixar o sol entrar e posso ver Hill City ensolarada apesar do clima gelado estando no terceiro andar da pousada. As montanhas envolviam a cidade, o que me deu uma breve vontade de um dia subir por elas. A pousada ficava no centro comercial e podia ver as pessoas se movimentando, entrando e saindo das lojas e algumas crianças de uniforme pulando enquanto caminhavam pela rua. Apertando meus olhos podia ver bem longe, nas montanhas algo no céu, meio zonzo pelo sono e pelos remédios, não tenho certeza, mas acho que parecia um helicóptero.
Sai de frente da janela e fui ao banheiro. Precisava me preparar para as perguntas do delegado Brandon.
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- Eram dois. Mas eu não me lembro bem. Um estava com uma lanterna e enquanto o outro tentava abrir. Sinceramente não vi ou pelo menos não me lembro de ver eles quebrando o vidro.
- Você se lembra de alguma característica deles? – Enquanto o delegado me perguntava, uma policial chamada Madison anotava tudo em um computador.
- Estava um pouco escuro, o que me bateu tinha barba e com certeza pesava mais que eu. O outro era bem miúdo, parecia ser mais jovem que o outro. – Quando falei, o delegado olhou para a policial. Será que ele os conhecia já? – É... O senhor já sabe quem pode ser?
- Tenho minhas desconfianças. Mas precisaria de mais provas, ou pelos menos mais características físicas para termos o que argumentar. Eles quebraram a câmera de segurança antes e aproveitaram que todos estavam na festa. Acho que não contavam com alguém na pousada tão cedo. Mas se for quem eu estou pensando, um deles é Justin, um adolescente rebelde da cidade, mas que agora passou dos limites.
- O jornalista disse sobre um tal de Abraham e minas – tentava me lembrar mais de mais coisas que o jornalista escandaloso havia dito. – Do que ele estava falando?
- Bem... – o delegado parecia cansado– Há um mês ele foi demitido do jornal da cidade por ir trabalhar drogado. De repente ele decide ir acampar nas montanhas à noite, na área das minas de diamantes e se deparou com uma movimentação de caminhões que ele diz estarem sendo carregados com sacos de drogas e caixas de madeira que ele não conseguiu ver o que tinha dentro. Além de dizer que os garimpeiros estavam saindo de dentro das minas com as drogas e colocando-as nos caminhões, ele viu Abraham, um traficante da cidade que morreu há 2 anos num confronto com a polícia. – Ele puxou a gola da camisa para baixo e pude ver uma marca de bala no seu peito. – E ainda me deixou um presente pra me lembrar dele.
- Mas ele tinha razão?
- Fomos até lá. Vasculhamos tudo, falamos com os garimpeiros e não encontramos absolutamente nada. Eles disseram que estavam trabalhando a noite e enchendo os caminhões com terra e pedras que são vendidas para construção. O que ganhamos? Um sério problema com a família dona das minas.
- Mas ele falou sobre fotos...
- Sim, fotos completamente escuras e borradas. Que mostra garimpeiros trabalhando e o suposto Abraham...só que de costas para a câmera. – Ele puxou o ar e soltou. – Ele foi demitido, usa drogas, claramente vive descontrolado e bem com o seu carro assaltado, agora ele virou paranoico. – Ele se levantou e eu também. – Bem, senhor Depp, vou checar as evidências e tentar chegar a um suspeito. Mantenho o senhor informado. Obrigado pelo seu tempo. – Estendeu sua mão e eu apertei.
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Eu queria comentar sobre o helicóptero que vi hoje de manhã, mas nem eu tinha certeza do que tinha visto.
Mesmo com dor quis passar no consultório, pois precisava cuidar dos pequenos cortes em meus lábios.
Quando entrei e fui direto para a enfermaria, encontrei apenas Amy de costas mexendo em algo em sua mesa.
- Ah... Oi... – Ela parou por um segundo de mexer nos papéis, mas voltou logo em seguida, nem se quer virando-se pra me cumprimentar.
- Oi. – Senti uma seriedade em sua voz.
- Ham... Andrew está? – Ela não disse nada e ainda de costas não dando a mínima para mim, apontou com o dedo para a porta ao lado, era a porta dos fundos. – Tem alguma coisa errada?
- Só pode ser brincadeira. – Ela disse quase que em um sussurro e ouvi uma risada incrédula.
- Bem... – Eu tentava entender o que estava acontecendo. – Já que não está afim de conversa vou falar com Andrew. – Quando disse, ela se virou e fez uma cara de irritada.
- Sério? Eu que não estou afim de conversa? EU? – Franzi a testa.
- Eu não estou entendo, Amy.
- Deixa pra lá... Eu nem te conheço mesmo. – Ela riu novamente incrédula e ia saindo da sala quando num impulso parei no seu caminho entre ela e a porta que dava para outro cômodo. Por que eu fiz isso?
- Eu não deixo pra lá. – Ela fechou a cara. Hoje era um dia em que ela não era nenhum pouco a Amy "anjinho" que todos me falavam.
- Eu tento te ajudar e você simplesmente... – parecia buscar palavras. – É mal educado e arrogante. – Então finalmente pude me lembrar da minha irritação com a pressão daquele momento na sala com aquele jornalista irritado, as perguntas, a dor, o desespero de todos e finalmente me lembrei em quem eu descontei rispidamente.
- Eu estava mal com aquilo tudo. – Ela me olhou e apesar de conhecê-la há menos de uma semana, sabia que essa cara vinha antes de um deboche, mas estava enganado desta vez.
- Para um homem da sua idade, aquilo foi mais uma imaturidade e total falta de gratidão. Agora, se não quer ajuda de ninguém e nem precisa, não posso perder meu tempo com você. – Ela desviou de mim e passou pela porta. Descobri que a mulher doce também pode ser amarga e senti um desconforto no peito, receava ser o que chamam de arrependimento. Eu venceria o orgulho para pedir desculpas a alguém que nem conheço direito? Mas por que fazer isso?
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AMOR EM HILL CITY (JOHNNY DEPP)
RomanceAmy Miller nasceu em Hill City (Dakota do Sul), uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos e desde pequena era apaixonada em ajudar pessoas, o que lhe fez mais tarde se tornar uma auxiliar médica adorada pela população da cidadezinha pacata...