Não importa o que estivesse fazendo, Sasuke sempre sentia o peso do segredo pressioná-lo. Por fora, tudo parecia normal: nos últimos seis meses, tinha ido à escola, jogado basquete, ido ao baile de formatura, à colação de grau do ensino médio, entrado na faculdade. Nem tudo havia sido perfeito, claro. Seis semanas trás, havia terminado com Shion, mas não tinha nada a ver com o que tinha acontecido naquela noite, a noite que não conseguia esquecer. Na maior parte do tempo, conseguia afastar essa lembrança, mas de vez em quando, em momentos difíceis, tudo voltava a sua mente com força visceral. As imagens nunca mudavam ou se enfraqueciam, nunca ficavam obscuras. Como se observasse pelos olhos de outra pessoa, via-se correndo para a praia e agarrando Suigetsu, ao encarar o imenso fogaréu.
-Que diabo você foi fazer? - lembrava-se de ter gritado.
-Não foi minha culpa – gritou Suigetsu.
Só então que Sasuke percebeu que não estavam sozinhos. Ao longe, viu Kimimaro, Karin, Jirobo e Kidomaru observando-os e soube então que assistiram a tudo o que tinha acontecido.
Eles sabiam...
Assim que Sasuke pegou o celular, Suigetsu o impediu.
-Não chame a polícia! Já te disse que foi um acidente! - implorou. - Vamos, cara, você me deve.
A cobertura da mídia havia sido extensiva durante os primeiros dias, e Sasuke via a TV e lia os artigos no jornal com um frio na barriga. Uma coisa era manter segredo sobre um incêndio acidental. Talvez isso desse até para fazer. Mas alguém tinha sido ferido naquela noite, o que fazia uma onda de culpa inundar seu ser toda vez que passava pelo local. Não importava que a igreja ainda estivesse sendo reconstruída ou que o pastor já tivesse saído do hospital há tempos; o que importava é que ele sabia o que tinha acontecido e não tinha feito nada a respeito.
Você me deve...
Não simplesmente porque ele e Suigetsu eram os melhores amigos desde o fundamental, mas por outra razão, mais importante. E, às vezes, no meio da noite, ele não conseguia dormir, com ódio da verdade daquelas palavras, desejando uma maneira de acertar as coisas.
Estranhamente, foi o incidente mais cedo, no jogo de vôlei, que havia acionado as lembranças dessa vez. Ou melhor, tinha sido a garota com quem trombara. Ela não tinha se interessado por suas desculpas, diferente da maioria das garotas locais, nem tentara esconder sua raiva. Não explodiu nem gritou; manteve o autocontrole de uma forma tão diferente que o impressionou instantaneamente.
Depois que ela saiu, terminaram o set, e ele teve que admitir ter perdido uma série de jogadas que normalmente não perderia. Suigetsu olhava furioso para ele e – talvez, por causa do jogo de luz – tinha exatamente a mesma expressão facial da noite do incêndio quando Sasuke pegou o celular para chamar a polícia. E foi aquele olhar que trouxe as lembranças à tona novamente.
Ele se controlou até ganharem o jogo, mas, depois que terminou, precisava ficar um pouco sozinho. Então, ficou andando pelo parque e parou em uma daquelas barracas de jogos, que, além de caros, nunca ninguém consegue ganhar. Estava pronto para atirar uma bola de basquete na cesta, quando ouviu uma voz atrás dele.
-Aí está você - disse Shion. - Estava nos evitando?
"Sim" - pensou. - "Na verdade, estava."
-Não - respondeu. - Não arremesso uma bola desde o final da temporada e queria ver se estou muito enferrujado.
Shion sorriu. O top tomara-que-caia branco, as sandálias e os brincos pendurados realçavam seus olhos lilás e seus cabelos loiros. Depois do jogo, ela havia trocado de roupa. Típico dela; era a única garota que conhecia que, via de regra, levava consigo trocas completas de roupas, mesmo quando ia à praia. No baile de formatura, em maio passado, trocou de roupa três vezes: uma para o jantar, outra para a dança e uma terceira para a festa depois do baile. Na verdade, ela levou uma mala de viagem, e, depois de dar as flores e posar para as fotos, ele teve que levar a mala de volta para o carro. A mãe dela não estranhou o fato de a filha ter feito uma mala, como se fosse viajar, para ir a um baile. Mas, talvez, o problema fosse esse. Shion o levou para ver o armário da mãe uma vez; a mulher devia ter uns cem pares de sapato e milhares de roupas. Cabia um carro grande dentro do armário dela.
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A última música - SasuSaku
Teen Fiction+18 | 🌸🍅 Aos 17 anos, Sakura Haruno, vê sua vida virar de cabeça para baixo quando seus pais se divorciam e seu pai decide morar na praia de Sunagakure. Três anos depois, ela continua magoada e distante dos pais, particularmente do pai. Entretanto...