Capítulo XII

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A Criança Perdida


6 de julho de 2007, SermonWest

Clara

O vento quente beija-me as bochechas e abro os olhos devagar. As árvores protegem-me dos raios do sol e as folhas no topo dançam com a brisa. De fundo, os pássaros cantam incansavelmente, assim como algumas cigarras. Agarro com as mãos um pedaço de pano estendido por baixo de mim. Sento-me e ajeito o meu vestido branco com detalhes de renda. O meu corpo está tão leve como uma pena. Uma criança com caracóis loiros corre à minha volta com dois ramos na mão e com os pés minúsculos descalços. As flores brancas fazem-lhe cócegas nos calcanhares e ela gargalha.

— Podemos ir apanhar bolotas mais adiante? — Ela pergunta com uma voz doce e dançando dentro do vestido amarelo com tulipas laranjas.

Ela tem dois olhos bem redondos cor de mel, com pestanas longas e curvadas. As bochechas estão rosadas do sol e falta-lhe um dente de leite, por onde o dente definitivo já se vê a nascer.

Eu aceno com a cabeça e ela estende-me a mão para eu ir com ela. Andamos as duas um bocado, com os pés nus a pousar na erva macia.

Olho para baixo, para os caracóis saltitantes e dourados.

— Marie. — Fala a criança, rompendo o silêncio e respondendo ao que pensava. Não sei como ela fez isso.

— Eu so- Sou a Clara...

— Ele apanhou-te, não foi?

— Quem é que me apanhou? — Pergunto.

— O homem que serve o diabo. — Ela responde com a voz suave e com as covinhas nas bochechas realçadas. Não sei o que responder, então só fico a observá-la. — A floresta tem olhos e ouvidos por todo o lado.

— O que isso quer dizer?

— Os pássaros negros falam com ele. — Continua. — Tens de ir embora. — Ela puxa-me a mão e caminha mais rápido.

Os corvos? Falam com quem?

Enquanto ela me puxa, eu não ofereço resistência.

— Marie. — Chamo, mas ela continua focada no caminho. — Aonde vamos?

Marie para em frente do rio e observa-o em silêncio. Agora reconheço onde estamos. Na outra margem vejo as janelas vermelhas da cabana a realçar por entre as árvores.

Acordo com um peso na minha testa e no meu abdómen. Os meus braços estão deitados ao lado do meu corpo, mas não os conseguia mover com as dores. As portadas da janela impedem que o sol entre completamente. Reparo também que este é o quarto do Ryan, e esta cama é dele.

Não paro de pensar em como parei aqui. A última coisa que me lembro é do rio turbulento, de ter muita dor na parte de trás, nas costas, e da vontade imensa de vomitar. Por fim, ficou tudo escuro, e leve. A imagem dos olhos azuis de Mike vidrados em mim invadem-me sem aviso e sinto a nuca a latejar. Viro o pescoço para a minha direita e a toalha húmida cai-me da testa, contra a coxa de Ryan. Ele estava sentado ao meu lado, com a cabeça caída e os braços cruzados, a dormir. Ele cheira a uma mistura de perfume, sangue e suor. Se semicerrar um pouco os olhos, vejo linhas irregulares, indicando cortes na face dele e manchas escuras nos calções e na camisola. Levo a mão até ele, mas sinto uma pressão nas costas da mão e um saco de soro baloiça num suporte de medicação improvisado com um cabo de vassoura e muita fita adesiva. A incisão da agulha coça-me.

— Ela acordou! — Amber enuncia alto, à minha esquerda, e reparo em Brandon ao lado dela, que se levanta imediatamente com ela. Ryan abre os olhos num instante e agarra-me na face. Os três olham por cima de mim numa mistura de alegria e lágrimas.

A Cabana das Janelas VermelhasOnde histórias criam vida. Descubra agora