Minha respiração ainda estava descompassada enquanto via Keisuke se afastar claramente embaraçado. Ele não havia planejado aquilo. Ele passava as mãos rapidamente pelos cabelos, puxando os para trás, revelando seu rosto levemente corado, as sobrancelhas tensas.
Me recompus sobre o banco, cruzando as pernas numa tentativa de fazer parecer que nada tinha acontecido, mas todo o resto do meu corpo me denunciava. Meus olhos pareciam magneticamente atraídos por ele, e por mais que eu tentasse, não conseguia parar de olhá-lo.
- Não é como... – Ele começou.
- Que horas.. – Interrompi o silêncio ao mesmo tempo.
Ele sinalizou com a cabeça para que eu falasse ao mesmo tempo que eu gesticulei com a mão para que ele continuasse. Os dois ainda estavam bem tensos
- Não é como se não pudéssemos nos ver lá fora depois de amanhã. – Ele olhava para as flores.
Aquilo me pegou de surpresa. Era bem verdade que essa fantasia já havia visitado a minha cabeça, mas eu jamais considerei isso uma possibilidade real. E acima de tudo, jamais considerei que ele sequer pudesse pensar sobre isso.
- E-eu...não sei o que dizer. – E realmente não sabia.
- O que você ia dizer? – Ele perguntou, ainda sem fazer contato visual. Seus cabelos escondiam seu rosto.
- Acho que não importa mais. – Diante da perspectiva de encontrá-lo lá fora, saber que horas ele iria sair amanhã realmente deixou de ser importante.
- Temos que voltar. – Ele estendeu a mão para mim. Sua mão era grande e forte, com dedos longos que envolviam completamente a minha.
Atravessamos o caminho de volta em silêncio até o pátio. Quase que como se houvéssemos combinado, nos despedimos formalmente com poucas palavras e nos separamos. Andei em direção a sala de aula a passos lentos, como se cada passo fosse extremamente trabalhoso de dar. Não olhei para trás nenhuma vez, embora tenha sentido vontade de fazê-lo incontáveis vezes.
Entrei na sala de cabeça baixa, ainda sem conseguir processar bem o que havia acontecido e muito menos equilibrar minhas expectativas. Sentei em uma carteira e organizei minhas anotações, resgatando as lembranças dos últimos dias naquelas páginas. Fui adicionando algumas anotações "fake" para enriquecer o trabalho. Estava bem ciente que não havia feito a atividade conforme o proposto, nem de perto, mas também não queria reprovar naquela matéria. Fiquei alguns minutos encarando a última página, referente ao dia de hoje, enquanto tentava afastar as memórias daquele beijo delicioso...
- Srta. Kitamura? Srta. Kitamura? – Uma voz distante me chamava com insistência. A professora.
- Oi? Desculpa, me distraí, professora. – Respondi, discretamente cobrindo a página em branco.
- Tudo certo para começar com um novo interno amanhã? – Perguntou esboçando um sorriso.
Eu nem havia pensado nisso. Com a saída de Keisuke, eu teria que começar tudo do zero com um novo garoto. Eu não estava nada animada com essa ideia.
- Tudo certo. Apenas ajeitando os relatórios do Keis... do interno Baji para te entregar. – A cada segundo parecia mais difícil disfarçar.
- Perfeito, tome seu tempo. – Respondeu e se virou em direção à outro aluno.
Escrevi algumas anotações falsas sobre Keisuke, inventando uma conversa sobre suas perspectivas de vida fora do reformatório. Na verdade, não era bem uma invenção e sim um pouco de como eu gostaria que as coisas fossem. Nas minhas anotações, ele me respondia que tinha planos de terminar os estudos e entrar na faculdade de veterinária para se especializar em felinos, que eram sua paixão. Uma grande mentira, porém, não custava sonhar.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Prenda-me. - Keisuke Baji
FanfictionMiyuki é uma estudante do primeiro período de psicologia na Tokyo Daigaku. Uma de suas disciplinas, a que considera mais chata e irritante, é "Bases do Comportamento Humano", e é ensinada em forma de estágio no Reformatório Municipal de Tóquio. Lá a...