• MORRENDO •

6 2 1
                                    

Onde havia peixes, há mercúrio. Onde havia florestas, há cinzas.

Roberto Burle Max


O caminho que as sombras cruzam é curioso. Nada faz sentido, portanto tudo é interpretativo. Eu já desisti de tentar entender, mas ainda quero saber mais. Os Estelares vieram para nós, assim como vieram a milhares de anos. Nossos caminhos sempre se cruzaram, mas desta vez, não foi como o esperado. Eu estava presente no momento do primeiro contato, afinal, eu era um grande cientista.

Mas nada mais vale a pena. Viver se tornou uma maldição. Eu observo com frequência tantas pessoas vindas para morte neste cenário que é nosso mundo. É tudo muito escuro, cinzento, graças a fraca luz do sol, fria como o toque da brisa mais gelada e empoeirada devido as construções abandonadas dos nossos antigos moradores. Mas ainda assim, é deprimente. Neste momento vejo um andarilho cruzar a rua, corcunda e manco, suas vestes já não aquecem seu corpo pálido, eventualmente cairia para o colo da morte, mas não é o fim, de forma alguma. Sua longa, tortuosa e horrenda vida começa aqui.

Este cadáver não terá mais diferença nesse mundo, não a terra para que sua carne seja adubada ou animais para ter proveito de um novo alimento; no entanto existem as "Árvores de sangue" uma espécie modificada pela natureza cujo única fonte de sobrevivencia é ingerir cada pedacinho do corpo humano, mas não é disto que quero falar. Voltando ao nosso amigo cadáver, o mínimo que poderá acontecer nestas condições, é seu corpo ser enterrado pelas fortes tempestades de areia e "Praga"; o que é Praga? São um dos poucos insetos que restaram nestas condições, além de baratas, mariposas e mosquitos, pragas são insetos modificados pela natureza desse ambiente, cujo único objetivo para estes insetos é se tornar pó; seus corpos são pequenos como pulgas e sua cor e escura como fumaça, com apenas um toque de qualquer criatura, é capaz de transformar esse inseto em uma fumaça escura, sua existência é um mistério, porém o mais curioso, é que este ser consegue nascer e no mesmo instante morrer. Ele surge a partir da carne podre revestida da areia de concreto e sujeira de roupas usadas. Se não fosse por isso, a areia iria engolir seu corpo e o esconder para toda a eternidade. Esta areia que surgiu, se chama "Areia monazitica", mas não a mesma areia radioativo de Guarapari no espírito santo. Além da radiação presente na areia, grande parte de sua textura e formação vem de ossos de milhões de seres vivos, pó, de cacos de vidro, plástico, tecido madeira e metais, como também restos de concreto, vindos de todos os edifícios que ainda residem em pé, pois os ventos tocados pelos Estelares, desintegraram grande parte de nossas construções, assim formando a "Areia monazitica desertora".

Se você um dia se tornar um cadáver neste belo ambiente nada hostil, terá a imensa sorte de ser acobertado pela areia. Ou Praga, mas você também pode se manter ileso, como nosso cadáver, pois depois de algumas horas, sua consciência retorna e uma mancha escura saindo da sua sombra, se torna mais um ser existente neste mundo, as "Sombras de Balsera" ou apenas "Sombras". Estes seres surgem dos cadáveres dos humanos. Não possuem corpos ou necessitam de qualquer atividade humana para sobreviver, elas apenas existem, sem prejudicar a ninguém, ou muito menos ter um sentido, afinal, dizem que se você tocar em uma, nada acontece, isso claro, se você for um Verme. Pessoas que foram curadas e levadas com o Manifesto Escarlate, podem ter suas vidas tiradas com um simples toque, ou até mesmo olhar diretamente no vazio dos olhos destas sombras. Estas sombras naturalmente permanecem no local de várias pessoas mortas, como uma espécie de túmulo. Mas depois de muitos dias imóvel, elas começam a andar em uma peregrinação sem fim, chegando até ser possível presenciar estas sombras darem milhares de voltas pelo globo terrestre. Em raros os casos, estas sombras podem até mesmo seguir pessoas, como no caso do nosso amigo aqui presente.

Agora que nosso cadáver possui um companheiro de viagem, vamos ver o próprio ser ressuscitado. Com sua consciência voltando, todas as suas memórias são revividas diversas vezes, mesmo acordado, nas primeiras horas, é possível lembrar com clareza o primeiro momento que você enxergou a luz e o calor do ventre da sua mãe ir embora. Lindo não?

Depois de algumas horas, já é possível ter seus sentidos voltando, o tato, paladar, olfato, tudo voltando. Entretanto, a fome já não faz mais parte do seu corpo, apenas a sede é presente, uma enorme sede que tortura a garganta. A única forma de saciar, seria beber da água da chuva, se o ácido presente nela não te corroer de dentro para fora. Mas também existem os lagos, riachos, não? Não, não existem mais. Mas você pode dar um belo mergulho nas águas do nosso imenso e infinito oceano, se estiver disposto a se banhar e uma água tão gosmenta e escura como sangue velho de animais e carcaças de tubarões e baleias, que restaram nas praias... O terrível odor de podridão e lixo vindos do mar e presente a quilômetros de distancia, uma tortura visual, já que o lindo azul que o sol cultivava em nosso mar era tão mágico. Agora se tornou tão melancólica e deplorável, que não é recomendável nem ao menos chegar perto.

O quê fazer então para suprir essa sede? Seria por pura sorte encontrar uma lata de água deixada para trás dos laboratórios e centros médicos do Manifesto Escarlate, mas isso é muito difícil. O ideal seria ter um filtrador, para filtrar a própria água do oceano, e depois de muitas horas, ter o doce líquido transparente descer pela sua goela.

Já que sua sede não será suprida tão cedo, o que lhe resta além de ter a mente sendo martelada pelas memórias do passado, seus sentidos são aprimorados. Sua pele é tão sensível que a vontade de a rasgar é inevitável, coseiras horríveis vinda da areia e praga. Suas feridas que nunca serão cicatrizadas, pois você está morto e seu corpo não é capaz de produzir qualquer energia vital para uma regeneração, o mais prático seria esconder essas feridas para não causar infecções. Porém, o mais divertido, são as alucinações que seu novo corpo ira te proporcionar. Quer dizer, nem tudo pode se considerar uma alucinação, boa sorte para distinguir o real do sobrenatural, pois o Estelares, amam brincar com seres tão patéticos e insanos como nosso querido amigo:

- Por favor... alguém... me mate. - seu corpo podre e infeliz vaga da mesma maneira que caminhava com esperanças de sobrevivência.

Mas agora a única esperança que possue, é de querer morrer, o mais rápido possível. O que pateticamente, nunca ira conseguir. Pois já está morto.

- Silêncio Skar!

O quê? Capuz Escuro?!

- E ai?

Sofia!?

Após algumas horas de água filtrada e conversas profundas e vitimizadas pelo amigo cadáver. Haytan e Sofia, que em busca de informações acabam encontrando, Thomas, um homem que se perdeu tentando encontrar sua cidade Natal. Mas já tinha sido coberta pela areia. Após sua sede ter sido matada, Haytan e Sofia, equipados com suas máscaras. Em busca de uma cidade no nordeste do país. Tal cidade que dizem ter uma fonte de água infinita. Nosso pai e filha curiosos percorrem o mundo a fim de encontrar esse local, mas antes. Alguns dias depois, deixaram tomas em uma cidade de São Paulo, aonde ele poderia ter companhia de algumas pessoas, mas da mesma forma, Thomas, insistia em querer ajudar pessoas também, porém, alguns dias se passaram, e disseram que Thomas avia desaparecido.

Sem tempo a perder, Capuz escuro e Sofia tem suas bússolas focadas para o nordeste do pais, em busca dessa cidade, mas antes. Uma breve pausa para a preparação de ambos em sua casa. Um lugar que os dois chamam de lar. O qual nenhum lugar do mundo se compara ao conforto e lazer, de se estar em seu próprio lar.

DORAVANTEOnde histórias criam vida. Descubra agora