𝙾𝙸𝚃𝙾

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   O Vɪ́ᴅᴇᴏ Tᴇʀᴍɪɴᴀ. O monitor volta a exibir a apresentadora, agora de queixo caído. Urros crescentes sufocam o resto do noticiário à medida que os prateados ao redor do balcão recuperam a voz. Gritam contra Jennie. Chamam-na de terrorista, assassina, diabo vermelho. Antes de seus olhos recaírem sobre mim, já estou de volta à rua.

   Só que, por toda a avenida, da praça até o Palacete, os prateados fervilham, vindo dos bares e cafés. Tento arrancar a fita vermelha do meu punho, mas ela não solta. Outros vermelhos desaparecem nos becos e corredores, na tentativa de fugir, e eu, que não sou burro, vou atrás. Quando encontro um beco, a gritaria começa.

   Contra todos os meus instintos, viro para trás e vejo um vermelho erguido pelo pescoço. Ele suplica à agressora prateada:

— Por favor, não sei nem quem são essas pessoas!

— O que é a Guarda Escarlate? — a prateada grita na cara dele.

   Reconheço a mulher. É uma das ninfoides que brincava com as crianças há menos de meia hora.

— Quem são eles?

    Antes do pobre vermelho conseguir responder, um bloco de água o acerta no rosto. A ninfoide levanta a mão e a água se reúne novamente para mais um golpe. Prateados aglomeram-se em torno da cena, rindo e torcendo. O vermelho gagueja e tosse, tenta recuperar o ar. Ele reforça sua inocência a cada segundo, mas a água continua atingindo-o. A ninfoide, com os olhos repletos de ódio, não dá snais de que vai parar. Ela atrai para si água de todas as fontes, de todos os copos, e lança contra ele, de novo e de novo.
   Vai afogá-lo.

~~ 

    O toldo azul é meu farol, meu guia em meio ao pânico das ruas enquanto desvio tanto de vermelhos quanto de prateados. Geralmente, o caos é meu melhor amigo e deixa meu trabalho de ladrão bem mais fácil. Ninguém dá pela falta de um porta-moedas quando está fugindo de uma multidão. Mas minha prioridade não é mais Min-ho e as duas mil coroas. Só consigo pensar em pegar Chaeyoung e sair da cidade, que com certeza vai se tornar uma prisão. Se fecharem os portões. . .  Não quero nem pensar em ficar preso aqui, cercado por muralhas de vidro, sem ter como chegar à liberdade.

    Os agentes correm para cima e para baixo nas ruas. Não sabem o que fazer ou quem proteger. Alguns juntam vermelhos e os forçam a ajoelhar. Os coitados tremem e imploraram. Repetem várias vezes que não sabem de nada. Posso apostar que sou a única pessoa na cidade inteira que ouviu falar da Guarda Escarlate antes de hoje.

   Uma punhalada de medo atravessa meu corpo. Se for capturado, se contar a eles o pouco que sei, o que farão à minha família? A Win-ho? A Palafitas?
   Eles não podem me pegar.

    Me escondo atrás das barracas e corro o mais rápido que posso. A rua principal virou uma zona de guerra, mas mantenho o lhar adiante, fixo no toldo azul depois da praça. Passo em frente à joalheria. Desacelero. Uma joia bastaria para salvar Win-ho. Uma fração de segundos parados e. . .  uma chuva de estilhaços de vidro arranha meu rosto. Na rua, um telec crava os olhos em mim e mira novamente. Não lhe dou chance e disparo. Escorrego por debaixo de cortinas e barracas, os braços estendidos até voltar à praça. Quando me dou conta, já estou com o pé encharcado, cruzando a fonte na corrida. 

   Uma onda azul e espumante me joga para o lado, nas águas agitadas. Nada muito fundo, meio metro, mas a água parece chumbo. Não consigo andar, não consigo nadar, não consigo respirar. Mal consigo pensar. Minha mente só consegue gritar "ninfoide" e lembro do pobre vermelho na avenida, se afogando em pé. Bato a cabeça no fundo de pedra e vejo estrelas, faíscas, até que minha visão clareia. Tennho a sensação de que cada centímetro da minha pele está eletrificado. A água muda ao meu redor, volta ao normal e finalmente atinjo a superfície da fonte. O ar invade meus pulmões, queimando o nariz e garganto. Não ligo: estou vivo.

   Mãos pequenas e fortes me agarram pelo colarinho na tentativa de me tirar da fonte. Chae. Meus pés desgrudam do fundo e vamos ao chão juntos.

Temos que ir — grito enquanto tento ficar em pé.

   Chae já está correndo na minha frente, rumo ao Portal do Jardim.

Que perspicaz! — ela berra por cima do ombro.

   Não consigo deixar de dar mais uma olhada na praça antes de segui-la. A multidão prateada transborda de todas as portas, revistando as barracas com a varocidade de lobos. Os poucos vermelhos restantes se encolhem no chão e imploram por misericórdia. Na fonte de onde acabei de escapar, um ruivo boia com o rosto para baixo.

   Meu corpo estremece. Cada nervo queima enquanto ambos avançamos na direção do Portal. Chae segura minha mão e abre para nós em meio à multidão.

Dezesseis quilômetros até nossa casa — ela murmura. — Você conseguiu o que precisava?

   Sinto o peso da vergonha recair sobre meus ombros ao responder que não. Não deu tempo. Mal tinha conseguido retornar à avenida quanto o plantão começou. Não havia nada que pudesse fazer.
   O rosto de Chaeyoung mostra pequenas rugas de preocupação.

A gente pensa em algo — ela afirma com uma voz tão desesperada como a minha.

   Mas os portões já despontam diante de nós, mais próximos a cada segundo que passa. Encho-me de tristeza. Assim que estiver do outro lado, assim que sair, Win-ho estará perdido para sempre. E acho que é por isso que ela faz o que faz.

   Antes de eu conseguir detê-la, agarrá-la ou empurrá-ça, as mãozinhas espertas de Chaeyoung deslizam pela mochila de uma pessoa. Mas não uma pessoa qualquer: um prateado em fuga. Um prateado com um olhar de chumbo, cara de invocado e ombros largos que gritam "Não mexa comigo". Chae pode ser uma artista com a agulha e a linha, mas não é a batedora de carteiras. O prateado leva apenas um segundo para notar o que está acontecendo. E então alguém a ergue do chão.
   É o mesmo prateado. Dois deles. Gêmeos?

— Não é um bom momento para começar a bater carteiras — os dizem em uníssono. E então já são três, quatro, cinco, seis, e fecham uma roda ao nosso redor. Multilipicam-se. É um clonador.

   A multidão dá um nó na minha cabeça.

Ela não teve a intenção. É só uma criança boba. . .

Sou só uma criança boba! — Chae berra enquanto tenta chutar o clone que a segura.

   Eles riem juntos, uma gargalhada aterrorizante. Corro na direção de Chaeyoung e tento puxá-la, mas um deles me joga de volta para o chão. O impacto contra o piso duro faz o ar fugir dos meus pulmões. Fico recuperando o ar, capaz de apenas ver outro gêmeo botar o pé na minha barriga e me imobilizar.

Por favor. . . — gemo, mas ninguém escuta. 

   O zumbido na minha cabeça se intensifica à medida que as câmeras viram para focar a confusão. Sinto mais uma vez meu corpo eletrificado, agora por medo do que acontecer à minha irmã.

   Um agente de segurança — o mesmo que nos deixou entrar pela manhã — se aproxima com a arma em punho.

O que é isso? — rosna, encarando os prateados idênticos.

   Um por um, eles fundem-se novamente até restar somente dois: o que segura Chae e o que me prende no chão.

Uma ladra — um deles diz, balançando minha irmã. Tenho que reconhecer que ao menos ela não gritou.

    O policial a reconhece. Sua dureza se transforma em consternação numa fração de segundo.

Você conhece a lei, menina. — Chae abaixa a cabeça.

Sim.

   Luto o máximo que posso para tentar umpedir o que está para acontecer. Som de vidro quebrando, luzes piscando: um monitor perto de nós é destruído pelo tumulto. Nem isso impede o policial de agarrar minha irmã e pôr a mão dela no chão. 
   Minha voz sai por vontade própria, unindo-se ao ruído do caos:

Fui eu! Foi minha ideia! Me castiguem!

   Mas eles não ouvem. Não se importam. Posso apenas observar o policial deitar minha irmã ao meu lado. Seus olhos fixam-se nos meus enquanto ele desce a coronha da arma e esmaga os ossos da mão que ela usa para costurar.

O REI VERMELHO - TaekookOnde histórias criam vida. Descubra agora