Capítulo IV- O inferno estudantil

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Os semestres se passaram na faculdade. Passei meses brincando de arquiteto esquecendo que na verdade eu sou um escritor. Não muito rico, não muito famoso, sem nenhum livro publicado, mas, apesar de tudo, fascinado pela arte de escrever. Escrever liberta, mesmo se ninguém ousar ler o que a mente confusa de um escritor escreveu. Escrever transforma, pois é parte de uma própria terapia. Aqui, neste mundo criado, é válido reparar todas as injustiças do mundo do qual não temos controle.

Aqui o personagem humilhado se levanta, o vilão cai, o filho rebelde volta à casa e o sonho de infância se realiza. A vida real, no entanto, não é assim. Pessoas talentosas se frustam todos os dias, pessoas sem talento ganham o mundo, pessoas que deveriam ser livres conhecem o cárcere e pessoas perigosas gerenciam a liberdade das massas. No fim sobra pouco espaço para sonhar com um mundo imaginário porque o real ocupa muito tempo. E por isso, em quase um ano de faculdade, as palavras me abandonaram e se tornaram apenas rótulos de especificações arquitetônicas.

A planta e o corte foram a prosa e a poesia desses dias cinzas. Eu gostava de fazê-los, porém, o ritmo de entregas começou a se acelerar cada vez mais e as minhas forças não conseguiram acompanhar. As noites de sono, por fim, foram ficando cada vez mais escassas e isso foi a pior parte dessa rotina maluca. O cansaço virou meu companheiro diário e a humilhação veio por meio de sonos encostado na maciez dos degraus de pedra da escada, a falta de zelo nos detalhes do trabalho e o desejo de desistir. Nesse ano virei um reclamador compulsivo.

Fiquei muito doente, oscilando pela dor de cabeça, crises de enxaqueca e desânimo. Para todo mundo eu era um aluno talentoso, mas para mim eu era apenas alguém que deveria fazer mais. Mais. Mais e mais. 

Por alguns momentos eu decidi fazer pouca coisa, mudar o estilo de vida, pegar menos disciplinas, se envolver em menos coisas... mas o caos permanecia. O tempo parecia correr mais rápido e no final do dia, mesmo sentado por umas 15 horas na mesma posição, eu estava bufando de cansaço e nervoso com medo de não dar tempo de entregar um bendito trabalho. Eu sobrevivi ao caos, mas nunca me adaptei a ele. Eu incorporei a meledicência dos meus dias e, no final, eu já me sentia uma pessoa ruim também. Como pode ser essa a vida que eu sonhei quando estava no ensino médio?

Eu imaginava que os dias poderiam ser difícieis, mas não pensava que seriam freneticamente intenso. Durante esse ano eu trabalhei, pelo menos, 16 horas por dia.

Não pense, no entanto, caro leitor, que dias bons não existiram. Vivi momentos felizes naquele lugar e hoje me recordo da textura e do cheiro que existia no Cemuni III enquanto eu estava no auge da minha juventude. Lembro dos meus dedos arramanhando a pedra da escada, do vai-vem do balanço do átrio, do frio do ar-condicionado e dos baldes espalhados para conter a infiltração. Lembro dos problemas com gambás e ratos, das histórias, dos sorrisos e do desejo que os momentos bons fossem a maior parte. Porém, não eram.

O cansaço me me levou ao extremo, minha mente ficou elétrica e pensamentos intrusivos começaram a me torturar. Como vencer uma guerra dentro de você? Como não querer pensar e mesmo assim ser bombardeado pelas maiores inutilidades? Como se sentir leve carregando tanta bagagem? Novamente mais perguntas, perguntas e perguntas...

Nesse época cinza eu avistei o meu primeiro vulto. Eu estava sozinho no cear do Cemuni, o prédio da arquitetura, quando estiquei a cabeça curiosamente para ver alguém que tinha passado. Avistei nitidamente a figura por alguns segundos até que ele desaparecesse diante dos meus olhos por completo na sequência. 

O fantasma vestia uma camisa azul. 

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⏰ Última atualização: Jun 25, 2023 ⏰

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