10. Não Vou A Lugar Nenhum

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Andy estava dividido.

Por um lado, ver Benji bem, acordado, disposto, com a febre quase zerada, era o seu maior motivo de felicidade. Não fora uma viagem em vão, afinal. Por outro, a falta de Samira era excruciante, e não conseguia viver o luto em paz sabendo que Benji acreditava que ela estava bem e que voltaria logo. Trisha prometeu contar ao garoto na tarde do dia seguinte, e Andy sabia que precisava estar por perto, por Benji, mas não queria. A cama era um refúgio muito mais sedutor, de onde se recusara a sair durante todo aquele dia, e ninguém ousou reclamar.

A porta se abriu, o rangido irritante das dobradiças enferrujadas chamando-lhe a atenção. Mas Andy olhava para a janela remendada. Não queria companhia.

– Ei – a voz de Jon o chamou, pouco amigável. Era das últimas pessoas que Andy esperaria ver em seu quarto. Um ou outro passaram por lá para dizer o quanto sentiam muito. Marlene chegou a deitar ao seu lado, passar as mãos por seus cabelos, mas ele não conseguiu retribuir o carinho. E Jon não era alguém que viria lhe dizer palavras de conforto. – Levanta daí, garoto. A gente precisa conversar.

Chegava a ser desrespeitoso pedir para que ele se levantasse. Lá fora era noite. Ele só queria que o sono o embalasse logo.

Com um olhar cerrado, Andy virou-se para a porta. Parado sob o batente, a mão ainda na maçaneta à sua espera, estava Jon, os cabelos aloirados ensopados e grudados no rosto. Logo atrás dele, na escuridão do corredor, Andy também teve o vislumbre de alguém. Trisha deu um passo tacanho à frente, os braços cruzados. A cabeça estava voltada para o chão, mas olhava para ele.

– Deem o fora daqui – Andy sussurrou, e voltou o corpo para a parede.

Ouviu Jon bufar, mas quem falou foi a voz de Trisha:

– Anda, Andy. Precisamos conversar sobre...

Ela não terminou a frase, mas estava óbvio.

– Não dá para esperar até amanhã, pelo menos?

– Não, não dá – Trisha pontuou. Ele, então, voltou-se para a porta outra vez. Era a mulher quem aproximara-se, deixando um Jon frustrado ao fundo. Ele achava incrível o quanto Trisha conseguia ser grande sendo tão pequena. Andy leu nos olhos dela que não conseguiria mais tempo sozinho. Sendo assim, levantou.




Andy seguiu Trisha e Jon escadas abaixo, sendo guiado para um lugar onde sabia não ser bem-vindo. Sempre quis entrar naquela sala, onde as cabeças-líderes se reuniam, mas a ele nunca foi permitido participar das reuniões. O entusiasmo que deveria estar sentindo não tinha espaço. A angústia de estar sendo levado para lá lhe dizia que a conversa não seria boa.

Jon fechou a porta ao passar, cerrando-os em um cubículo abafado e iluminado apenas por uma lanterna que apontava para o teto, disposta sobre uma mesa circular no centro da sala. Ao redor dela, além deles três, Andy viu Miho e Zoe. Mas não viu quem esperava encontrar.

– E Raquel? – o menino indagou.

O silêncio instaurou-se entre eles. Miho estava com os braços cruzados, os dedos tamborilando nos bíceps, tomando a liderança de uma conversa sem líder.

– É uma conversa extraoficial – respondeu.

– Quer dizer que a Raquel não sabe que estão se encontrando?

– A Raquel precisa do tempo dela – Trisha comentou, tomando seu lugar à mesa.

– E eu preciso do meu – Andy pensou alto. Aquele dia fora tão longo que perder Sam parecia distante, mas fora tão recente que apenas pensar na irmã lhe embargava a voz.

Olhos de CorvoOnde histórias criam vida. Descubra agora