Derik nos últimos instantes de vida rastejou como um porco abatido, guinchando como uma criatura patética. Agora, visto assim, era realmente uma criatura patética. Foi um gesto de piedade lhe separar a cabeça do corpo, estava acabado.Arrancou o torso do chão com um puxão pelo colarinho retalhado e tingido de vermelho, pondo em cima da mesa. Achou rápido aquilo que procurava depois de sacudir um pouco, a jóia rolou para fora do bolso interno do colete. Era uma pedra ovóide e lisa a não ser pelas ondulações em sua superfície que, por ilusão de ótica ou não, se mexiam como ondas e variavam de coloração. Agora se assemelhavam com o mar cinzento de Arwend.
O ar ao redor da Relíquia tremia agora que estava desnudada, cheirava a sal e magia. Grimm se atreveu a tocá-la, o atraía e o chamava, e isso foi uma verdadeira tolice. Sentiu uma carga poderosa percorrendo a sua pele, seus ossos tremeram e sua pupila dilatou. Era muito mais forte do que só aquilo que tinha experimentado com a esfera de gelo.
Segurou firme na jóia e a carga de magia aumentou. Se tornava poder puro somando ao que já tinha, essa energia se fundia com a sua e logo fluía para fora. Agora era capaz de sentir cada gota de água, desde o reservatório da embarcação até o mar inteiro, e o mar era de uma tentação imensurável. Sentia a fera lutando para se libertar e isso se refletia conforme as ondas ao redor do navio agitavam-se mais e mais, golpeando o costado.
" É muito poder para aguentar, eu preciso parar" sabia que ia perder o controle. Já sentia uma dor excruciante mas não conseguia largar, sua visão foi se tornando turva e suas pernas não aguentavam a fraqueza. Caiu de joelhos e seus olhos rolaram para trás da cabeça.
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Seus olhos se abriram lentamente, percebeu que não conseguia respirar normalmente. Entrava água nas suas narinas toda vez que inspirava, mas ao invés de entupir suas vias aéreas...um frescor vinha a cada respirar. Seu corpo também estava mais leve, como se flutuasse dentro do oceano.
Só teve a certeza quando abriu os olhos. Acima de si, o mar era vasto e azul, abaixo de si só uma escuridão interminável até que se chegasse ao fundo. Pestanejou e tentou se debater para alcançar a superfície, mas algo o puxou de volta para o fundo. A Relíquia o arrastava para as trevas, fazendo pressão contra os dedos que a apertavam. Grimm apertou mais e fez força inutilmente, era tolice brigar com um objeto constituído de poder bruto.
As águas azuis se afastaram de seu olhar, apenas as trevas banhavam o seu corpo sem que nada pudesse fazer. Conforme se aproximava algo pulsava bem no fundo, algo maior que ele e provavelmente monstruoso. Talvez nem em seus sonhos mais bizarros pudesse ter adivinhado o que estava vendo, azul e luminoso. Um coração gigantesco, com artérias bombeando sangue sem parar, acorrentado por tentáculos tão massivos quanto o órgão submerso e que se estendiam tateando as profundezas.
- Que porra é essa? - Pensou que não conseguiria dizer, mas as palavras saíram mesmo debaixo da água.
O coração pulsou e uma onda de energia percorreu as profundezas e atingiu Grimm. Sentiu desconforto, o mais perto que poderia ter de uma falta de ar. Os tentáculos se retesaram, tal qual serpentes, e depois deram o bote na direção do garoto. Ele tentou reagir mas não havia espada para brandir e, ao perceber isso, tentou acender as suas chamas.
Foi lento demais. Foi pego entre os poderosos braços de monstro, enrolado neles e pressionado até que mal conseguisse esboçar reação. Resistiu e deixou as chamas fluírem pelas suas mãos, mas para seu desespero elas só brilharam e borbulharam na água.
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As Crônicas de Terror e Encanto - 𝐈
Fantasy- Segunda Versão - " As trevas consomem o coração daqueles com covardia demais para encarar sua própria sombra" Em uma ilha onde são criados os maiores caçadores de monstros, o garoto Grimm de apenas quatorze anos vê o o seu mundo inteiro virar...