um presente indesejado

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QUERIDO DIÁRIO...
Nossa, vou parar por aqui. É muito tosco começar a escrever um diário chamando-o de "querido". O problema é que não faço a mínima ideia de como começar um diário sem ser com esse clichê idiota. Diários são idiotas, de um modo geral. São inúteis, simplesmente (rabisco)

MEU DIÁRIO, no qual não estou afim de escrever, porque diários são altamente infantis. Aliás, não escrevo em um desde que tinha 10 anos. Ainda me lembro dele, com seus desenhos rocambolescos e coloridos. Mas não usei esse artifício como cúmplice das minhas aventuras ou loucurinhas por muito tempo. E, no fim das contas, meus primos conseguiram confiscá-lo e até hoje fazem bullying comigo por causa das minhas confissões desconcertantes.

PORCARIA DE DIÁRIO...
ARGH! Odeio diários! Quem foi que os inventou?

SEU DIÁRIO,
eu não gosto de escrever em você. Ponto final. Não gosto e nunca vou gostar. Mas o que posso fazer se minha melhor amiga me presenteia justamente com um? Pior ainda, essa mesma amiga (da onça) diz na minha cara, como um recadinho nada sutil, que eu preciso urgente desabafar, e que devo usar suas páginas para isso. Ainda acrescenta que devo fazer isso porque sempre guardo todas as coisa dentro de mim - ressentimentos, tristezas, estresses -, e que ser tão introvertida vai acabar me matando.

Odeio ainda mais o fato de ela estar certa.
Entendo perfeitamente a sua preocupação, porém não posso fazer nada para mudar, de verdade. Eu sou assim. Sempre fui desse jeito duramente meus 19 anos. Portanto, não culpo a minha melhor amiga, olivia, por me presentear com esse diário ridículo. Suas intenções foram as melhores possíveis, tenho plena consciência. Ela sempre me pergunta se ando me alimentando corretamente, dormindo direito ou saindo com alguém. Pode não parecer, mas é legal da parte dela fazer isso, quer dizer, ficar em cima de mim, como uma tutora. Uma irmã mais velha. No fundo, gosto de me sentir protegida. Mas as vezes fico de saco cheio - se o diário é meu e tenho q desabafar, vou soltar o verbo, ok?estamos combinados?

Não sei ainda se vou escrever em você com assiduidade, mas prometi à olivia que narraria e todas as coisa que, por acaso, eu sentisse. Sério, ela me fez prometer de pé junto. Inclusive, olivia informou que manteria uma leitura semanal do que ando escrevendo, assim poderíamos melhorar a nossa comunicação. E aí de mim se começasse a regular informação para você. Palavras dela. Portanto, " querido diário", eu me sentiria muito mal se nem ao menos tentasse fazer um esforço. Ela com certeza lerá isso, então, olivia, está vendo? Estou fazendo isso por você, sua chata!

Seria interessante realizar uma pequena apresentação. Afinal, se alguém um dia quiser fazer uma biografia minha (impossível de acontecer), terá todas as informações da pessoa que eu era antes de começar a escrever aqui. Certamente essa biografia seria a mais tediosa do mundo, contaria a história de uma garota sem sal nem açúcar, que tentou, incontrolavelmente, ser uma pessoa mais interessante. Ok, vou tentar parar de reclamar - nossa, mas é tão difícil!

Meu nome é Maya taylor, porém todo mundo me chama de May. Pensando bem, não faço ideia de quando foi a última vez que ouvi alguém falar meu nome inteiro. Às vezes, olivia me chama de Maya quando tá chateada comigo. Sou uma pessoa tranquila, quieta e tímida. Uma garota que leva sua vidinha pacata, dá maneira mais segura e asséptica possível.

Tenho 19 anos e moro sozinha em um apartamento a quase quatro anos. Sim, me sinto solitária muitas vezes. Na maioria das vezes, na verdade. É bacana ter alguém para fazer o jantar quando você chega cansada do trabalho. Também não gosto muito de ter que lavar o banheiro... Aqueles cabelos ruivos enrolados no ralo parecem nunca ter fim. Se eles estivessem enroscado em fios loiros ou morenos de um companheiro, por exemplo, nem acharia tão ruim lustrar azulejos. Gostaria de ter alguém com quem compartilhar a minha vida. Esse é o meu desejo profundo, mas estou solteira. Como sempre. Não que ninguém se interesse por mim; eu que nunca me interesso por ninguém. Não sei o que me faz achar que todos são idiotas. Ou tenho muito azar em nunca conhecer alguém especial, ou devo ser bem exigente. Tipo acima da média. Muito acima...

O fato é que não tenho namorada, nem rolos, ficantes ou qualquer uma dessas nomenclaturas contemporâneas. Também não tenho família. Quero dizer, meus pais morreram a alguns anos. Ambos no mesmo dia. Sei que isso é bem trágico. Até hoje imagino que eles vão bater à minha porta a qualquer momento, depois de uma viagem longa. Eu tinha 13 anos quando aconteceu: meus pais foram a festa de um amigo e nunca mais voltaram. Desapareceram depois de saírem da festa, e, até hoje, não se sabe direito o que aconteceu. O carro deles foi localizado uns quatro dias depois, preso a um barranco, e seus corpos estavam alguns metros á frente, com marcas de tiros e espancamento. A polícia investigou, mas não demorou muito para que encerrassem o caso.

Não gosto muito de falar sobre isso, só achei que seria algo importante a se comentar em um lugar que deveria ser uma espécie de confessionário. Até porque minha vida depois do acidente mudou drasticamente. Pensei que o sofrimento nunca acabaria e, de fato, nunca acabou. É uma coisa com qual convivo constantemente, algo que penso todas as noites antes de dormir. A dor sempre vem. Sempre. O que aprendi nesses longos anos foi a conviver com ela.

Olivia sabe vagamente o que aconteceu. Não tive coragem de contar todos os detalhes. Bom, agora ela vai saber um pouco mais sobre esse capítulo da minha história. Não muito. A final, só eu sei de verdade como foram esses anos. Só quem passou por algo assim conseguiria me entender. Levei meses me recuperando da tragédia em uma clínica, e anos sendo atendida por psicólogos e psiquiatras. Nenhum deles conseguiram me consolar de verdade. Ou fazer a dor parar.

Tomei uma farmácia de remédios. Perdi parte da minha adolescência sofrendo pela morte dos meus pais. Apesar de tudo, nunca fui rebelde. Obedecia cegamente a minha tia, que me acolheu. Nunca questionei nada. Nem me envolvi com gente barra-pesada ou com drogas. Tentei manter uma vida normal e não arranjar confusão. Nunca permiti que a minha dor fosse justificativa para qualquer comportamento errático.

Morei aproximadamente quatro anos com a minha tua Judith, até o dia em que se casou de novo, com um idiota que não me queria por perto. Ela sempre foi uma tia legal e fazia de tudo para que eu me sentisse bem em sua casa. Serei eternamente grata a ela, pois me aceitou e cuidou de mim em momentos difíceis. Entendo perfeitamente que tivesse e quisesse seguir com a sua vida.

Assim, busquei a minha própria casa e não demorei a encontrar um apartamento simples, porém arejado. Esta longe de ser confortável, mas aprendi a gostar dele. Não tenho muitas coisas, mas o que possuo é suficiente. Meu trabalho não me permite morar melhor, e eu prefiro viver em um apartamento pequeno a morrer de fome.

Falando em trabalho, sou educadora em uma creche. Para ser bem sincera, olivia me ajudou muito com esse emprego, pois a mãe dela é a dona da instituição. De certa forma, acredito que me dei bem nesse ramo, pois as crianças gostam muito de mim e a diretora valoriza bastante as minhas sugestões e confia no meu trabalho. Ganho o justo para o aluguel, a comida e os estudos na faculdade de psicologia. Minhas expectativas para o futuro são... incertas. Não faço a mínima ideia de qual será o meu próximo passo depois de terminar a faculdade. Ando meio perdida ultimamente. Vivendo um dia de cada vez. Tentando me encontrar.

Já a olivia... bom, a olivia é tudo o que eu gostaria de ser. Ela tem um namorado bonito e romântico, tira as melhores notas na faculdade de direito e mora em uma casa maravilhosa com seus pais. Aliás esse cenário quase perfeito de filme é um dos motivos para eu não me abrir totalmente para você, viu, olivia? Acho que você não entenderia o verdadeiro significado da palavra solidão, e muito menos o que quer dizer tristeza. Não que eu seja invejosa. Admiro você com todas as minhas forças e te desejo sempre o melhor. Mas é que você está em outra vibe, e não queria desanimá-la com os meus problemas. Só isso.

Bom, diário, basicamente esta é minha história. Uma coisa você não pode negar: tirando a tragédia com os meus pais, minha vida é um tédio. Tenho certeza absoluta que bocejou algumas vezes e pensou em se alto destruir diante tanto lugar-comum e chatice. Eu sou um completo tédio. Se pesquisarem a palavra em alguma enciclopédia, haverá uma foto minha bem ao lado. Deve ser por isso que ninguém me convida para um encontro há algum tempo. A última pessoa que teve coragem de fazer isso foi embora depois de 2 meses, com uma mulher loira, bonita e aventureira.
Não o culpo
Quero dizer, só um pouquinho...

diário de uma cúmplice // billie eilish G!POnde histórias criam vida. Descubra agora