Em Tebas, Astarco foi levado para o exílio. Ele mesmo sabia que o movimento da vida é muito forte; ir na contramão do fluxo da vida é um desperdício de energia e força mental.
Ele chegou na academia de Tebas e lá recebeu todo o tratamento e a hospitalidade do povo tebano. Após seu banho, ele vestiu roupas de linho e perguntou ao servo:- Por que estou sendo tão bem tratado?
O servo então respondeu:
- Senhor, é importante. Soubemos que você foi exilado por causa de sua sabedoria e bondade.Astarco então disse:
- Sou grato por tudo o que me fez, mas devo recusar tudo o que não for o básico. Afinal, a opulência causa um efeito nocivo à razão. Ela inebria os sentidos.O servo então diz para o velho:
- Neste caso, venha comigo até minha família e se aloje em minha morada. O magistrado ia transferi-lo para o palácio do faraó, mas neste caso, se deseja o simples, ele vai compreender.Então, Astarco, sem cerimônia, deixou a academia e foi para o bairro dos servos em Tebas. Ali, as casas de barro e arenito eram simples e amontoadas. O velho filósofo foi até uma fonte discursar:
- Vejo aqui pessoas de bem. Eis que vivem de maneira honesta, simples e natural. O poder do trabalho e a vontade de servir não esmorecem, afinal, a liberdade está nas coisas que você faz para os outros.
Um sacerdote do deus Sobek veio e disse:
- Velho senhor de Roma, diga aos que ouvem, defina para nós o que é bondade.O velho Astarco então olhou para o sacerdote, vestido com ouro, com joias e as vestes do deus. Ele acabava de sair dos ritos do deus. Então disse:
- Bondade é algo natural. É uma vontade, algo que todo ser humano é treinado para sabotar. O homem até pode nascer no seio da bondade, porém, se não for estimulado, perecerá para a maldade.Astarco então continuou, e a multidão ouvia-o com curiosidade:
- Um homem bondoso é aquele que ajuda de maneira moderada. Ou seja, não o faz de maneira humilhante ou arrogante. Nem mais, nem menos. Ele ensina o homem. Fuja do homem que se diz bondoso e não ensina, pois este quer tomar sua vida. O homem bondoso muitas vezes é confundido com o maldoso, pois às vezes ele não ajuda os outros, pois ele sabe quem é merecedor. Algumas pessoas não devem ser ajudadas, pois se aproveitam das pessoas bondosas.O sacerdote então diz para o seu povo:
- Bondade então é um atributo divino, pois ela nos liga aos deuses. Eu pergunto, sábio senhor, por que as pessoas são más?Astarco então responde calmamente:
- Eu não conheço nenhuma pessoa verdadeiramente má, porque a maldade não existe por completo no coração do homem. O que existe é uma bondade não exercitada. A bondade possui andares, os mais elevados na bondade de fato tocam as solas dos pés dos deuses. Os maldosos têm bondade em seus corações, porém eles não a estimulam, muitas vezes por desconhecimento ou por falta de ética. É difícil para um povo onde seus ícones são exemplos de maldade e com muita dificuldade é possível nascer alguém bom em meio aos maus. Porém, a bondade vive no coração de todos. E da mesma maneira que o sol está para a lua, o bondoso pode ser corruptível. Por isso, devemos sempre examinar a nós mesmos e encontrar e estimular a bondade em todos os momentos da vida.O sacerdote então sorri e diz quase num tom sarcástico:
- É possível ser bom a todo momento?Astarco olha para o povo que agora se reúne. Eles aguardam suas palavras. Ao fundo, os mestres e magistrados da academia. Astarco bebe da fonte e vê uma imagem do deus Sobek, deus da paciência, dentro de uma casa térrea. Então ele diz:
- Senhor sacerdote, eu devo perguntar: você verdadeiramente é devoto dos deuses? Você não fraqueja em nenhum momento? Sua fé é a todo momento inabalável?
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Os discursos de Astarco
Nouvellesuma coletânea de discursos filosóficos em formato de contos, onde o personagem Astarco, vive como um mendigo na era de Roma, questionando o sistema e o pensamento da época, com muitas metáforas, será que seus discursos podem ser usados hoje em dia ?