Blue: Capítulo um

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Sinto meu rosto queimar, minhas costas e minhas nádegas doíam e eu podia ouvir, bem longe, meu despertador tocar, no fundo sabia que estava atrasado e que novamente havia dormido na mesa enquanto estudava, mas o sono estava tão desconfortavelmente bom que não queria levantar daquele lugar.

— Você está mesmo dormindo ou está fingindo não escutar seu alarme tocar? — Jay simplesmente abriu minha porta, sem bater. — Cara, já faz dez minutos, levanta logo daí.

Sem energias para respondê-lo, apenas me levantei e fui direto ao banheiro, não consigo sair de casa sem tomar um banho, mesmo que já tenha o feito antes de dormir. Queria poder comer antes de ir ao colégio, mas pelos acontecimentos do dia anterior, não queria me sentar na mesa diante de olhares julgadores, muito menos ter que abordar aquele assunto em pleno café da manhã. Minha mãe é o tipo de pessoa que não consegue esperar, ela simplesmente não suporta que nem tudo funcione no tempo dela, por esse motivo, muitas coisas foram tiradas de mim por pura pressão, como minha sexualidade.
Eu não sou uma pessoa misteriosa ou reservada, mas acredito que existem coisas que são pessoais o bastante para que você mesmo decida se é necessário mesmo ser dito a outras pessoas, cada um tem seu tempo para tudo na vida, no final mesmo acompanhados estamos sozinhos, nós mesmo somos a nossa companhia a maior parte do tempo.

— Você sabe que está atrasado, não sabe? — Sunghoon caminhava em minha direção.

— Vinte minutos não faz tanta diferença.

— Eu fiquei sozinho por vinte minutos, mas vou te perdoar dessa vez. — Não, ele não ficou literalmente sozinho, porém insinuou que minha companhia é essencial, então facilmente me convenceu.

— Você devia dormir em casa qualquer dia desses, precisa escolher seu livro do mês.

— Eu já falei que vou deixar por sua escolha esse mês. — Sunghoon não era nada interessado por livros e mesmo assim os lia por mim, fizemos isso durante anos, ele devia ler um livro e eu assistiria alguma das séries favoritas dele.

Quando conheci Park Sunghoon, pensei que nunca poderíamos nos dar tão bem, ele não era do tipo que falaria comigo, na verdade, ele não falaria comigo se não tivesse sido obrigado a fazê-lo. Em uma atividade que tivemos no ensino fundamental, gravamos um pequeno documentário sobre algum colega de turma, e sim, eu escolhi o Sunghoon. Achava extremamente interessante a maneira como ele passava o seu dia inteiro sem fazer absolutamente nada, pensando bem hoje em dia, talvez eu quisesse ser igual a ele, ele não tinha nada para fazer e eu sempre tive que fazer tudo excessivamente, enquanto ele era apenas um pré adolescente comum, que saía com os amigos em uma tarde para fazer algumas bobagens infantis, eu precisava aprender matemática e por algum motivo eu fazia aulas de piano.
Isso nos aproximou, conhecer e experimentar essas diferenças nos tornou o que somos hoje, ele é basicamente a minha outra metade, nos completamos tão bem que eu até duvido as vezes se não somos almas gêmeas.

— No que você está pensando? — Alertou-me.

— Nada. — De repente silêncio — Ela continua te mandando mensagens?

— Só quando está bêbada...

— Ou seja, todos os dias.

— Sim... mas isso não me importa mais. — Mentiroso. — Olha pra mim, eu já estou bem melhor que antes... bom, estou melhorando, não é?

— Sim, Hoon, você está perfeito, nunca esteve tão bem quanto agora... — Mentiroso!

Sunghoon passou por um término difícil, não que existam términos fáceis, mas foi uma situação verdadeiramente delicada. Ela era uma pessoa boa, ele gostava dela, de verdade, mas não podemos prever o dia de amanhã, e o amanhã chegara para eles. Ela era uma pessoa doce e gentil, eles se gostavam e se admiravam imensamente, porém, ambos não sentiam amor um pelo outro, foram longos meses se forçando e se obrigando a sentir algo além desse sentimento que em tal percepção os parecia simples, que os levou a um buraco profundo e complicado de se tapar, talvez não seja uma boa ideia tentar namorar sua melhor amiga. Ela mudou completamente após o término, por mais que tudo tenha acontecido de uma forma calma e bem resolvida, suponho que ambos se libertaram, bem, claro que não é como se tudo tivesse acabado, mas prefiro pensar que o pior já passou e logo momentos melhores virão.

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