Astarco acordou cedo e, como de costume, foi até a praça para ver o mundo e compreender a sociedade. Como sempre estava em um lugar diferente, ele sempre se impressionava. Certa vez, viu um homem arrastar outro para a praça. Uma multidão se formava e o velho ficou assistindo. O homem então disse:
- Você roubou meu pão pela última vez.
O homem tirou da bainha uma espada, estava pronto para cortar o ladrão, quando Astarco falou e a multidão ficou em silêncio:
- Mas matar ele vai trazer o pão de volta. Se o fizer, vai comer o pão que outro homem consumiu? O bruto homem veio ao encontro do velho e retrucou:
- Está dizendo que o ladrão não deve ser punido?
O velho colocou a mão na espada e, com calma, foi descendo o braço do indivíduo, então disse:
- Quando foi que a morte resolveu alguma coisa? Eu pergunto, matar ele vai trazer algum benefício? Sou a favor de punir o infrator, mas de maneira pedagógica. Se não resolvermos isso, o ciclo de comportamento não vai ter fim.
O homem então questiona:
- Se punirmos ele de maneira cruel, na frente de todos, isso não serviria de exemplo?
Astarco disse olhando nos olhos do homem:
- A custa de quantas vidas? E por quanto tempo? Vou dizer uma coisa, a raiz do problema. Precisamos ser misericordiosos neste caso. A lei existe para dar forma ao nosso julgamento, mas a misericórdia serve para estimular a compreensão. Ninguém rouba comida com conveniência. Eu proponho agir de maneira colaborativa, ao invés de matar o culpado, trabalhar para que ele não apenas pague por seus desvios, mas possa garantir o sustento e assim, ele deixará de precisar roubar.
O homem então aceitou e liberou o bandido. Então uma mulher perguntou a Astarco:
- A misericórdia é o melhor caminho?
Astarco se dirigiu até a moça e discursou:
- Minha senhora, não sei qual caminho seria melhor, se a misericórdia ou o caminho da força régia, mas garanto que a misericórdia é o caminho mais humano. O sábio e misericordioso sabe que toda a vida tem o direito ao erro e à sumária correção. O comportamento deve sempre buscar a opção de adequar o indivíduo à sua nova percepção. Na verdade, quando se trata de viver, não existe certo ou errado, e sim o comportamento positivo e condizente, e o comportamento negativo e incoerente. Capacitar um indivíduo, mesmo que ele cometa um crime, é julgar de maneira incompleta. Somente após o término do último recurso, podemos afirmar que a condição é errada ou certa seguindo os princípios e a ética.
Então um homem aborda Astarco e fala irritado:
- Senhor, só fala isso porque nunca foi assaltado.
Astarco retruca gentilmente:
- Você não pode garantir isso, mas eu percebo que apenas a raiva e os pensamentos densos não são capazes de instruir o homem. Os crimes muitas vezes são motivados pela ignorância e pelo desespero. Apenas em casos específicos o sentido é a crueldade ou a maleficência. Portanto, a misericórdia é o melhor estímulo para o ímpio e o infrator. Também atesto que a misericórdia age com humanidade com todos que circundam. Se a sociedade é misericordiosa, ela põe em evidência outros atributos humanos, como paciência e empatia. Como se a misericórdia fosse um substantivo de valores, então concluo que a misericórdia é uma virtude fundamental para o homem e não pode ser ignorada.
Astarco então seguiu seu caminho, andou até a academia de Atenas e lá escreveu em seus manuscritos:
" Sendo esta a virtude dos benignos, a misericórdia é um atributo máximo de humanidade e racionalidade. O racional é misericordioso, pois assim ele é capaz de ser um agente transformador, agindo com pedagogia e construtor de conhecimento, agregando experiência. O sábio desenvolve nos outros o exemplo, sendo este um exemplo de misericórdia que pode ser transmitido e repassado para toda uma sociedade. No entanto, haverá resistência por parte daqueles duros de coração, pois a misericórdia pode ser confundida com fraqueza. Ressalto que a raiva e os sentimentos densos afastam o homem do verdadeiro sentido da misericórdia e do desenvolvimento humano. Não existe moralismo ou superioridade no misericordioso, e sim a responsabilidade de ser humano. Todo momento oportuno para estimular a misericórdia deve ser passado pela lente da razão. Existem casos em que a falta da misericórdia em si é sinal de misericórdia, pois casos extremos exigem um equilíbrio e outras competências. Todos os seres merecem a misericórdia, mesmo assim, nenhum ser sobre a terra tem o direito de estimular a inclemência ou seus substantivos. Assim, o sábio deve tomar para si a misericórdia e a razão será seu mentor, administrando nos ignorantes o atributo da misericórdia em doses rasas, e ser um agente agregador."
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Os discursos de Astarco
Krótkie Opowiadaniauma coletânea de discursos filosóficos em formato de contos, onde o personagem Astarco, vive como um mendigo na era de Roma, questionando o sistema e o pensamento da época, com muitas metáforas, será que seus discursos podem ser usados hoje em dia ?