Astarco andava em Atenas, pronto para mais um dia. Mesmo sendo velho e pobre, ele dava suas aulas na academia de Atenas. Por muitas vezes, ele não retirava seu soldo e, quando o fazia, pagava seus préstimos nos mercados e termopólios. Muitas vezes, o velho comia na calçada.
Neste dia, o velho estava comendo na calçada quando um homem se aproxima e diz:
- O senhor é o mestre Astarco?O velho retruca:
- Não, meu nome é apenas Astarco.O homem olha para ele e diz:
- Senhor, eu tenho uma pergunta: a imaginação é um sinal de tolice ou de sabedoria?Astarco ignora a pergunta no primeiro momento, dedicando seu tempo para terminar de comer. Então, ele diz:
- Meu caro, a imaginação e a criatividade são virtudes humanas. Porém, elas não são causadoras da tolice. Lembre-se: tudo é mental.O homem pergunta convencido de seus pensamentos:
- Mas, senhor, as pessoas vivem fantasiando coisas e os filósofos não dizem para vivermos na razão?Astarco olha para aquela pergunta, ousado. Ele bebe água em seu odre e diz:
- Sua pergunta é criativa, isso faz de você um tolo? Eu te digo, tudo começa com a fagulha da imaginação, passa pela chama da criatividade e é alimentada pela razão. Tudo neste mundo nasce de uma pergunta "por que, não?". A razão apenas organiza as coisas. O sábio detém o equilíbrio mental e a racionalidade fria, mas tudo nasce da imaginação e da criatividade. A mente criativa enxerga as possibilidades, a imaginação norteia e busca, assim como uma criança procura seus brinquedos. O sábio reconhece suas habilidades, ele usa a virtude da imaginação para questionar a razão. Então, ambas criam possibilidades e são organizadas pela razão. De fato, o tolo é preguiçoso, pois fica preso no início do processo criativo. Ele é como um barco sem remos, navegando à deriva, sem regras. O sábio usa a razão e a imaginação para despertar a criatividade no mar mental.O homem agradece e se despede. Astarco olha e começa a ter uma ideia. Ele corre para a academia e começa a escrever. Chegando em um quarto simples, Astarco escreve, com água nos olhos:
"Se o todo é mental, quem pensou primeiro: o homem como indivíduo racional ou o universo como sistema universal? Todos os fenômenos do universo são resultados de uma constante organização de eventos, os quais criam e ditam as leis, assim como a mente humana, que está em constante evolução. Uma mente saudável tem como objetivo expandir-se e crescer em todas as direções. O homem como matéria sofreu, ao longo de sua existência, mudanças culturais e fenomenológicas, de maneira que sua cultura se transforma até hoje. A relação entre as duas polaridades possui uma singularidade: sua expansão e capacidade de desenvolvimento. Portanto, podemos dizer que o universo veio primeiro. No entanto, não tenho ferramentas para definir se, sem a vida humana, o universo seria o mesmo. Mas tenho a certeza de que o homem necessita do universo e o poder do questionamento faz com que o homem, cada vez mais, questione e busque entender as leis universais. Quanto à criatividade, ela é a ferramenta universal do homem para com o universo, agindo em sintonia com a força motora e entrópica do pensamento macrocósmico. O homem pensa e age dentro do escopo, usando a criatividade para olhar além da máscara imposta por crenças limitadoras.
Portanto, eu consegui, através do pensamento e da criatividade, sintetizar o pensamento cósmico e o universo no qual reconhecemos, age como uma mente pensante. Seus fenômenos são os mesmos da psiquê humana, porém, de acordo com a lei da polaridade, o universo é em proporções maiores. Então, o homem tem todas as ferramentas para desenvolver o pensamento de forma infinita. Seguindo as estrelas como norte mental, ele conseguirá crescer a patamares maiores e mais belos, desde que use a razão e a lógica em seus aspectos, assim como é o universo.
Mas as leis universais e o pensamento cósmico não são estáticos, pois as estrelas se manifestam em movimentos ritmados. Logo, o pensamento e as ideias também não são estáticos. Tudo neste mundo é entrópico no íntimo e, devido à nossa visão limitada, compreendemos como estático ou dinâmico. Portanto, as leis da probabilidade se enquadram e são funções motoras do pensamento macrocósmico. Assim, temos muitas vontades e fenômenos universais acontecendo. Eu digo também que o homem ainda não mapeou em sua plenitude sua própria mente, apenas os mais sábios conseguiram esquadrinhar sua mente e, com a imaginação e criatividade, ultrapassaram a limitação humana e enxergam melhor o mundo e o íntimo."
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Os discursos de Astarco
Short Storyuma coletânea de discursos filosóficos em formato de contos, onde o personagem Astarco, vive como um mendigo na era de Roma, questionando o sistema e o pensamento da época, com muitas metáforas, será que seus discursos podem ser usados hoje em dia ?