Os segredos do rei

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A negativa do rei complicava as coisas. Há quase sete anos, no primeiro dia do reinado de Esseno, o capitão da guarda foi acusado de roubar, do tesouro real, cem moedas de ouro. Naquela mesma noite o antigo boticário, Alexander, mandou que o levassem à árvore, pois seria o seu último despertar naquele reinado. Palma ficou abismado ao perceber que depois de tantos anos o rei não lhe contara algo tão importante, seu coração ficou contristado ao descobrir o que contarei.

─ Rei Esseno, hoje está com vinte e nove anos e, se não me falha a memória, o primeiro dia do seu reinado foi em uma primavera. A morte deste homem, com certeza despertou o mal. - sentenciou o sábio. O Mestre Palma sabia que o antigo boticário era da família de Berna. Alexander em seu intento, sagazmente fez o jovem monarca ir ao encontro da semente ruim para que ele pudesse enfim concluir seu propósito real, o de exterminar aqueles que se revoltaram contra a sabedoria de Vale Almíscar.

O que realmente acontecera

Num recente passado, na comemoração do vigésimo terceiro aniversário do rei, um lastimado fato aconteceu. As festividades se encerravam, já entardecia quando foi chamado a demandar sobre tal episódio. Diante dele estava o homem de confiança de seu falecido pai, mas agora os fatos diziam ser este um traidor. O que fazer com quem usurpa a confiança do rei? Haveria julgamento possível? Naquela noite, dada às condições que se apresentavam, as respostas foram a morte e o juízo dos antigos mitos.

A noite soberana, sem lua no céu, era iluminada pela luz das estrelas. Esseno o outrora príncipe era um rei inexperiente, e esta condição lhe cobraria muito no decorrer do tempo. Nesta noite ele representava a justiça que se faria, mas em sua mente não conseguia se ver além de um algoz. Os cavaleiros, alguns guardas palacianos e o boticário eram os que acompanhariam o desfecho daquela execução. Todos trilharam pela sombra da noite um caminho vagaroso e triste, indo ao encontro da figura mais paradoxal daquelas terras.

A Bela do caminho dormia seu sono secular até que naquela noite resolveram despertá-la para que lhes dessem uma resposta sobre assunto tão peculiar. Ao chegar à antiga estrada do paço real, o rei ordenou que apenas ele, o boticário e dois guardas acompanhassem o rito de justificação do prisioneiro. O vento estava calmo e o silêncio era quebrado pelo coaxar dos sapos e o canto dos grilos. O boticário levava consigo um diário antigo, este pertencera a Êne, nele estavam expostos os nomes pelo quais chamava seu precioso ser encantado. A relva era densa e os pássaros da noite não cansavam de exaurir seu funesto canto. Perto da majestosa árvore nenhum arbusto nascera e, um círculo perfeito se formava ao seu redor, somente a pequena grama se atrevera a chegar perto de suas raízes.

Abrindo o diário de Êne, o boticário se mostrava ansioso pela manifestação daquela criatura tão sinistra. Lendo suas páginas ele disse em alta voz: "Personificação do meu ódio, rancor dos meus dias, és tu a semente da maldade que está em mim".

Como nada acontecera, o descendente, o único rei presente tomou o diário da mão do velho e buscou uma inscrição mais coerente.O rei começou a ler "Bela e amada, odiada nunca fostes, do meu desejo mais sombrio lhe dei a vida, ramos que eu contemplo, sombra que eu amo, acordai agora e destrua o que me vem causar espanto". O céu se carregou de nuvens, um raio caiu sobre a árvore, todos temeram o mal que invocaram. Um vento forte assoprou e por fim a vide acordou. Uma voz potente emergiu daqueles ramos que se mexiam mesmo sem haver vento algum.

─ Sou eu a Bela do caminho, mas os camponeses me chamam Frondosa. Vejo que um rei me procura em seu primeiro dia de reinado, sendo este também seu vigésimo terceiro aniversário.

─ Viemos aqui para que faças justiça, oh amada "árvore"! - disse o rei meio contrariado.

─ Jovem Esseno... - riu a árvore - Sua linhagem deveras me venera... - gabava-se em tom de menosprezo. - Está muito enganado quanto a mim... Justiça e sapiência não são palavras que me descrevam ou que eu as pratique. Balançando seus ramos como se espreguiçasse, gritou com imensa fúria: ─ Estou com fome de sangue real!... Ah... A nobreza tem um sabor peculiar, eles deixam minhas folhas lindas e o meu lenho tão viçoso. Ninguém ousava falar daquilo que parecia ser um oráculo do mal. ─ Não se atemorize jovem rei, eu sei que me trouxeram apenas um bastardo de seu pai... Agora está feito! - ordenou a Bela - Dê-me o capitão da guarda real, antes que eu me zangue realmente.

O sonhador, a velha árvore e o reiOnde histórias criam vida. Descubra agora