𝐷𝐼𝐴 10

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"Ainda estou respirando. Ainda estou viva".


Morana acordou com barulho, o que era incomum.

Piscou lentamente, tentando localizar onde estava. Havia uma estante com uma TV enorme à sua frente. A visão estava distorcida e a televisão estava inclinada, então percebeu que era ela quem estava inclinada, deitada num sofá bege.

Ela levantou devagar. Uma manta deslizou dos seus ombros, acumulando-se em suas pernas. Não se lembrava de ter pego no sono em meio ao seu aprimoramento com o jogo de corrida. A tv estava desligada e o controle estava sobre o console do videogame. Não lembrava de ter colocado ali.

— Bom dia — alguém disse atrás dela. — Eu não queria te acordar.

Morana virou a cabeça e olhou para a cozinha do apartamento. Lidia estava atrás do balcão, enchendo duas canecas com o café da cafeteira. Ela precisou piscar e esfregar os olhos para se convencer de que não era um sonho. Realmente tinha dormido no sofá da casa de sua mãe. Ela verificou o horário no celular e viu que passava das sete. Como pode ter dormido tanto assim?

Felizmente não havia notificação do comandante solicitando uma nova morte ou repreendendo-a por ter passado um tempo com sua mãe. Cada vez mais duvidava de que realmente tinha alguém de olho nela ou se eram apenas ameaças vazias de um homem soberbo.

— Acabei de fazer café. Você gosta de açúcar? — Lidia acenou com a cabeça, chamando-a. Ela se levantou, deixando a manta no sofá e enfiando o celular no bolso. — Eu tenho uns biscoitinhos que vão cair bem com o café.

Morana se sentou na banqueta perto do balcão e olhou em silêncio para Lidia quando ela se virou e pegou um pote de biscoitos dentro do armário. Ela passou as mãos pelo cabelo, tentando manter as aparências — mas se frustrou drasticamente ao se dar conta do nó imenso que havia sido feito atrás da sua cabeça durante seu sono. Ela soltou um resmungo e tentou separar os fios embaraçados com os dedos.

Lidia colocou o pote de biscoito em cima do balcão e então percebeu o desastre que havia entre os dedos de Morana.

— Você... quer ajuda? — perguntou com hesitação. — Eu tenho uma escova que pode ajudar com isso, se quiser.

Morana assentiu, soltando o cabelo embaraçado e suspirando. Lidia entregou o pote aberto de biscoito e empurrou uma caneca preta cheia de café adoçado para a filha. Ela deu um gole no café e mordeu um biscoito, esperando Lidia voltar com o pente. Depois de um tempo ela reapareceu, segurando uma escova.

— Acredite, isso faz milagres.

Morana ficou em silêncio e tão quieta quanto uma estátua quando sua mãe pegou uma mecha traseira de seu cabelo e começou a pentear a partir das pontas. Ela girou no banco e ficou olhando para a pia limpa do outro lado enquanto Lidia lutava com o cabelo embaraçado.

— Está doendo? — a metamorfa perguntou, e ela balançou a cabeça, negando. — Avise se puxar.

Era estranho a sensação de sentir alguém penteando seu cabelo com tanto cuidado. Morana nunca tinha sentido isso, ou, ao menos, não se lembrava de já ter sentido. As cuidadoras das crianças órfãs haviam parado de cuidar dela quando Morana tinha cinco anos, depois disso era ela quem penteava o próprio cabelo.

O sol invadia a sala através das janelas, iluminando Lidia atrás dela. O cuidado dos dedos de Lidia fez Morana lacrimejar. Ela bebeu outro gole do café, tentando engolir o choro junto da bebida quente. Cada puxar suave da escova era como uma nova descoberta para Morana, que nunca havia sentido isso antes. Ela fechou os olhos por um momento, absorvendo a sensação do toque suave e do deslizar da escova por seus cabelos. Aos poucos, a melodia tranquila das cerdas deslizando pelos fios deixou-a relaxada ao ponto de uma lágrima ou outra escapar de seus olhos fechados. Era como se aquele simples ato de carinho — um que Morana nunca tinha recebido antes — tivesse aberto uma porta para si mesma.

✓ 𝑵𝒐𝒃𝒐𝒅𝒚'𝒔 𝑫𝒂𝒖𝒈𝒉𝒕𝒆𝒓 | (𝐶𝐶𝐼𝑇𝑌 𝑎𝑓𝑡𝑒𝑟 𝐻𝑂𝐹𝐴𝑆)Onde histórias criam vida. Descubra agora