A noite escura e o vento gélido faziam o pensamento de Pérgamo flutuar, como ele poderia transpassar tantas dificuldades até chegar à ilha conhecida como a morada dos seres primordiais? Ninguém realmente sabia dizer ao certo se aquilo era invenção dos mestres palacianos para que as pessoas se afastassem das figuras tempestivas... - as lendas não eram nada agradáveis; ao seu lado dormia o insólito aprendiz, seu capuz preto cobria a cara e o seu ronco parecia atrair as aves da noite e, volta e meia, as corujas passavam voando baixo para observarem o 'canto incomum'.
O caminho estava completamente deserto e não era muito sábio viajar à noite, mas como as circunstâncias exigiam, assim era necessário fazer. A próxima parada dos jovens era a casa de uma maga da floresta, ela atendia pelo nome de Macadâmia, não que esse fosse seu nome real, mas o mestre lhes avisara que evitassem o máximo chamá-la pelo nome, pois isso era uma heresia segundo a sua ordem de magia. Magas da floresta podiam ser mais perigosas conforme cada elemento protetor estivesse mais forte, não distinguiam amigos de inimigos quando estavam sobre a influência dos primordiais.
A estrada esburacada fazia a carroça dar solavancos e se remexer tanto que não tinha sono que pudesse durar. Amadeus despertara quando de repente uma das rodas ficou presa em um buraco e, os cavalos, já muito cansados, não fizeram questão de fazer força. O olhar de censura de Pérgamo a Amadeus obrigava o jovem a descer para que o excesso de peso fosse aliviado.
─ Não estou conseguindo tirar a carroça deste maldito buraco! - queixava-se Pérgamo. Batendo as rédeas obrigava que os animais fizessem mais força, mas eles não aguentavam mais.
─ Suponho que queira me fazer empurrar! - disse Amadeus. Isso era realmente óbvio, mas o jovem fazia questão de poupar-se de esforço sempre que possível.
O riso do companheiro lhe soou como resposta e contrariado no seu próprio intento, teve que empurrar a pesada carroça; fazendo um esforço descomunal percebeu que Pérgamo contemplava a relva.
─ Senhor mestre da biblioteca - ironizou Amadeus - quando terminar de ver a grama crescer, bata nos cavalos para que façam força! - irritou-se.
─ Venha até aqui Amadeus. - algo lhe intrigava - Olhe essa névoa estranha se formando. - disse aparentando curiosidade.
─ Fascinante! - disse com menosprezo - Faça esses cavalos se moverem antes que sejamos saqueados ou sabe-se lá o que! - Avisou Amadeus.
A névoa foi ficando cada vez mais densa e mal podia se enxergar a um palmo na frente dos olhos. Amadeus pulara na carroça e temia que tivessem caído em alguma armadilha. Aos céus ele rogava que o protegesse do mal - se é que havia mal. Gritos começaram a ecoar, as árvores balançaram como se fosse cair uma densa tempestade. Era muito cedo para nevascas e que gritos seriam aqueles? Questionava-se Pérgamo.
Passos ligeiros foram ouvidos, alguém corria em sua direção. Os corações dos jovens palpitavam e de suas vidas temiam fenecer. Amadeus pegou uma faca de caça e a empunhou como se fosse atacar um pedaço de carne, seus olhos arregalados e perdidos denunciavam sua falta de coragem.
─ Faça alguma coisa, Pérgamo! - Lamuriava-se - Não quero virar comida dos monstros da noite.
─ Fique quieto, não consigo ouvir direito! - Pediu o companheiro. - É uma pessoa que está correndo em nossa direção.
O olhar fulminante de Amadeus deixava claro que para ele tanto fazia ser monstro ou pessoa. Aquilo não estava cheirando nada bem.
Uma estranha figura saiu correndo da floresta e vinha em sua direção. Os gritos desesperados de Amadeus assustaram os cavalos, mas Pérgamo estava tão estático quanto uma pedra, observando incrédulo o vulto vindo ao encontro deles. Como se desembainhasse uma espada, o estranho enfiou uma de suas mão sob seu manto negro e lhes lançou uma fumaça verde que caiu sobre suas cabeças e nisto desapareceu diante dos seus olhos por uma questão de segundo; mas de súbito pulou para dentro da carroça levando Amadeus ao extremo desespero; seus gritos eram tão altos que o encapuzado tapou-lhe a boca com a mão e puxou Pérgamo para perto de si. Era aterrador o que ocorria, terminar sua jornada sem ao menos sair do vale seria uma tremenda vergonha.
─ Fiquem quietos e olhem para trás! - ordenou uma voz feminina.
Pérgamo se virou e viu que uma luz crescente vinha de Ventura para o resto do Vale Almíscar. O que estava acontecendo afinal? Aquilo poderia ser mesmo fogo? A fumaça verde os deixava ver além da névoa. Uma imagem aterrorizante tomou conta daquela estranha noite, cavaleiros de fogo com foices inflamadas que destruíam tudo pela frente; eles puderam ver o desespero dos servos e das pessoas que corriam para salvar suas vidas, um destes cavaleiros montava um cavalo muito veloz e parecia procurá-los a todo custo.
─ Não temam! - consolou a mulher encapuzada - Ele é apenas um encanto de sangue, logo se dissipará.
"Um encanto de sangue?" Isso era proibido lembrou-se Pérgamo. Os cavaleiros não descansaram até que o reino estivesse em chamas. A fumaça encantada lhes mostrava o longínquo reino do rei fugitivo. De repente, para a surpresa da própria mulher, os cavaleiros marcharam para a floresta e até ela parecia não acreditar. "Algo realmente profano" pensou a estranha maga de capuz escuro.
─ Isso não pode estar acontecendo! - lamentou Pérgamo.
─ É realmente desolador! - assentiu a maga. - Temos que sair daqui. A floresta é um lugar sagrado para todo tipo de magia, seja ela oculta ou primordial, mas quem quer que seja não está ligando para este fato e nos condenando a ruína. - parecia profetizar.
O olhar de Amadeus contemplava o medalhão azul que a jovem carregava em seu pescoço, algo naquilo lhe era familiar.
─ Você é uma bruxa da água! - sentenciou o jovem - Não achei que vocês vivessem mais em Ventura.
─ Amadeus desconhece muitas coisas! - sorriu Pérgamo para a mulher - É melhor não se ofender com tanta ignorância.
Ela parecia absorta em seus pensamentos e ainda contemplava o horizonte em chamas. Algo muito além de sua compreensão, pois depois de alguns instantes ela se voltou para os viajantes e disse:
─ Vocês passarão a noite em minha casa! Mas precisam se apressar, porque tudo está mudando tão depressa que não sabemos até quando a velha magia os protegerão.
Ela pegou o medalhão azul em sua mão e ordenou que pusessem suas mãos sobre ele também. Uma luz intensa e azul como o oceano banhado pela luz do sol os cegara, a joia parecia ter centelha da claridade de uma estrela. Um torpor tomou conta dos jovens e ela os levou para a fronteira sul do vale. Aquilo parecia um encanto de imobilização e por isso um pesado sono caiu sobre eles e dormiram até que o dia clareasse.
O jovem Pérgamo sonhara com o cavaleiro de fogo que parecia procurar por ele. Correndo na floresta escura ele ofegava e se exasperava por estar tão cansado; "ele conseguirá me pegar" era o seu pensamento recorrente. No meio das trevas uma luz ofuscante aparecera e lhe estendo a mão o puxou para fora da escuridão.
─ Onde estamos? - assustou-se Pérgamo levantando de uma cama macia.
─ Acalme-se jovem mestre. - sorriu a maga.
Uma casa muito pitoresca se desenhava a primeira vista. Móveis tão velhos que pareciam feitos há mais de cem anos. Teias de aranha e samambaias completavam o terrível espanto de Pérgamo. Talvez a maga não passasse de uma louca eremita.
***
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Até logo.
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O sonhador, a velha árvore e o rei
FantasiaVentura é uma pequena cidade no Vale Almíscar, um lugar onde muitas coisas podem acontecer dependendo de sua crença. Esseno era um jovem rei e isso era um peso demasiado para sua consciência. Nesse reino não tão distante assim, uma velha árvore míst...