Lembrança

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Dos jardins suspensos de meu palácio vejo todo o reinado que conquistei através de sangue e suor e lágrimas.

Cada medida era infindável, universos e mais universos unidos em um só, funcionando e se comportando como um único. Tudo impecavelmente foi instituído e orquestrado com maestria em geometria fractal, verdadeiramente é o reinado que queria, mas a troco de que?

Olhando me lembro, não aguentei a onisciência nem onipresença. Fiz delas como tesouro valioso e as guardei para outro momento, o que sou, meu conceito, até agora me tira a sanidade. Tudo existe e tudo inexiste, como letras, linhas e páginas de um caderno.

Flashes de memória me arrebatam a visão, famílias inteiras destruídas e toda sorte de malevolente intento. Destruí universos e fiz dos fortes fraqueza.

A minha indiferença e loucura afetou tantos; olhando dessa forma, não sou diferente de você, deus da insanidade.

Minha miséria é o meu passado a corroer-me às costas, vivo lembrando da sede de sangue e da tocaia noturna contra os inocentes. Tudo em prol desse reino, em prol de uma civilização que construí com incontável sofrimento e amargura.

Seu vestido flutuava e a vejo se aproximar, Morte, velha amiga minha:

— Meu rei, está tudo bem contigo? — dizia ela preocupada e se aproximando de mim e volto meu corpo para ela.

— Sempre no lugar certo e na hora correta...— e volto meu corpo a admirar a magnífica paisagem.

— Sempre, milorde. — sua delicada mão tocava-me o rosto e ela desliza meu capuz revelando meu rosto cansado.

Os dedos gentis dela são delicados ao limpar as lágrimas que não senti e a tanto tempo não apareciam em meu semblante alegre.

— Suas mãozinhas são pequenas para meu rosto, Mor. — e faço carinho em sua cabeça, mais uma lembrança indesejada, minha vida humana. — minha ex-esposa era do mesmo jeito... — e despertava a atenção de seus olhos castanhos — sempre esteve comigo quando chorava, nunca me descriminou, mesmo eu sendo um baita de um chorão, ela sempre me dava o colo ou o peito pra chorar... Sinto falta dela admito... — e meus olhos, que olhavam covardemente para o corrimão, lágrimas quentes se formavam e Morte dirigiu meu rosto em sua direção, tão graciosamente que era como se enxergasse ela na Mor, agora meus olhos molhados se encontraram no achocolatado dos doces e gentis olhos do outro conceito.

— Eu também tive um marido, não lembro muito bem dele, mas ele era um homem incrível, como aqueles de história de romance sabe? — ela dizia limpando minhas lágrimas e se sentando no corrimão, abrindo os braços carinhosamente e instintivamente a abraço largando o controle de minhas lágrimas — ele não poupou esforços para mim e me elevou grandiosamente, lutou incessantemente até eu o amar e quando nos casamos me levantou mais ilustre das moças — as mãos dela acariciavam meu cabelo — eu também sinto falta de alguém, Finn...

E me vejo a se acalmar quando recebo um beijo em minha testa, eu paro por um momento e a encaro ainda um pouco choroso.

Minha mente fica branca pela primeira vez nesses 999 mil e tantos anos. Antes de perceber eu beijo aquela a quem considerava minha amiga íntima.

Seus lábios eram macios como nuvens, e percebo os olhos dela lentamente se fechando com uma feição alegre e suas suaves mãos descem acariciando meu pescoço robusto.

Morte, sempre foi você né? A mulher que vi que me casaria quando era onisciente, era você não? Desde o começo você estava me esperando?

Uma culpa me invade lembrando de todo o suporte que ela me deu, nunca saiu do meu lado desde quando entrei no multiverso pela primeira vez, me auxiliou e se tornou minha serva particular. Ela sempre foi doce comigo, sempre foi amável comigo, sempre me tratou com tanto carinho...

Ela me esperou até agora, até esse beijo...

Sem pensamentos além de culpa e recriminação de minha consciência, minha consciência depõe me culpando do sofrimento dela:

— Finn, não deixe esses pensamentos te afligir, era pra acontecer agora — e ela me olhava com inominável carinho — agora vamos continuar, esperei tanto tempo por isso — e me puxando, ela beija apaixonada

Os nossos lábios mais uma vez se encontram.

Os meus estavam partidos e provavelmente estavam com gosto de sangue por eu continuamente arrancar a pele deles em meu nervosismo, os dela tinham gosto de frutas vermelhas, era doce e se tornava cada vez mais intenso a medida que mais e mais fortes eram os batimentos de meu coração.

Eu adentro minha língua dentro da boca do outro conceito, o Fim se anima e agora nossas línguas se enrolavam.

Uma alegria, talvez, mas muito mais era a sensação de pertencimento em meu peito, eu sabia que essa solidão iria acabar, um calor reconfortante invadia meu peito.

Paramos, e nos encarando eu irrompo o silêncio:

— Então quer dizer... — e sou interrompido

— Sim, meu rei — ela diz suspirando e com olhar sedutor.

— Acha que realmente eu tenho jeito? — digo movido pela culpa

— Mais do que certo, excelência. O senhor sabe a quem deve procurar... — agora sua expressão mudava para um sorriso divertido.

Desvio o olhar, porém ela segura minha cabeça e beija novamente minha testa:

— Você gosta disso né? — e ela desce do corrimão

— Você sabe que sim. — e sigo para sair de meu quarto e ela me interrompe.

— Vai me deixar passando vontade? — ela está na minha frente, olhando-me com a cabeça levemente inclinada pra baixo e fazendo biquinho.

Um riso sai de mim e gentilmente seguro o queixo dela, dando-lhe um selinho. Antes de sair do meu quarto eu paro em frente a porta:

— Namorados? — pergunto para ter certeza

— Você ainda dúvida, mô? — e vejo o sorriso se desfazendo junto com a sua forma física.

Palavras não explicam a felicidade em meu peito nesse momento...

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