— Acabou.
Essa simples palavra parecia ter a forma de uma mão gigante que me agarrava e começava a apertar meu corpo, esvaziando o ar dos meus pulmões. Senti‑me repentinamente submersa num oceano de lágrimas desejosas de me abandonarem os olhos.— Como assim acabou, Shae?
Perguntei por impulso, com a inútil expectativa de que me desse uma resposta contrária.— Desculpe! Eu tenho andado muito confusa. Não sei se é isto que eu quero, não sei se é disto que preciso. Eu tenho de ser a mais correta possível contigo e isso implica me afastar de você para assentar as minhas ideias, refletir sobre aquilo que sinto e tentar perceber por que é que eu não estou bem.
— Não, Shae! Não pode ser. Como é que isso é possível? Eu sempre fiz tudo por você, sempre dei...
A voz me falhou.
-Sempre dei o meu melhor por esta relação. Abdiquei de muitas coisas por nós e me esforcei sempre para corrigir as minhas falhas e melhorar os meus defeitos. E você está me dizendo que não sabe se é isto que você quer e precisa? Não, isto não pode estar acontecendo!— Nicole... tenha calma. Isto também não é nada fácil para mim porque sei que estou magoando uma pessoa que é muito importante para mim, mas eu não consigo nem posso estar ao seu lado incompleta. Não estaria sendo justa com você e com certeza você também não iria querer isso. E é assim que eu me sinto. Incompleta. Não pense que a falha é sua ou que você cometeu algum erro. O problema é meu e sou eu que tenho de resolvê‑lo.
Shae pousou a mão sobre o meu braço e eu senti, naquele gesto, uma compaixão dolorosa que me fez sufocar ainda mais dentro daquele carro parado no estacionamento em frente ao meu prédio. Era o típico gesto de um amigo tentando confortar outro pela perda de um ente querido, e isso deu‑me uma náusea tão intensa que julguei que ia vomitar ali dentro.— Abra o vidro. Rápido!
Pedi‑lhe. Ela deu meia‑volta à chave do carro e fez descer o vidro do meu lado. Coloquei a cabeça ligeiramente de fora e respirei fundo várias vezes o ar fresco da noite que guardava para si em segredo todo aquele cenário de despedida. De costas para ela, percebi pelo seu silêncio que ficou sem saber o que dizer para não piorar o estado em que tinha me deixado. De certa forma, eu agradecia a ela, pois sabia que naquele momento só a voz dela iria remexer de novo o meu estômago. Enquanto lutava contra o acelerar do meu ritmo cardíaco com respirações profundas, dei por mim a focar o meu olhar numa lata de Coca‑Cola vazia, amassada e abandonada junto ao passeio. Senti uma empatia imediata com aquele pedaço de lixo. No fundo, também eu tinha dado tudo o que tinha de mim. Também eu tinha sido completamente sugada, amassada e estava prestes a ser abandonada junto àquele mesmo passeio. Éramos a prova quase viva de que dar tudo é um bom começo para ficarmos sem nada.
— O que é que te falta?
Perguntei, assim que me recompus o suficiente para voltar a ouvir a voz dela. -Diga o que é que te falta ao meu lado se eu sempre te dei tudo o que tinha de mim. É o sexo que não é bom? Sou eu que não sou boa o suficiente para você? Meu Deus... já sei. Conheceu outra pessoa? Foi isso, não foi?— Não diga asneiras, Nicole. Nem comece a fazer filmes na sua cabeça. Eu não tenho ninguém. Já te expliquei que o problema é meu, vem de mim e é responsabilidade minha.
— Bobagem! Você apenas não quer dizer a verdade para não me magoar ainda mais. Mas se é para doer então prefiro, e peço, que me magoe com a verdade. Não tenha medo de dizer que já não me ama, não tenha medo de dizer que já não sente o mesmo, que não é mais a mesma coisa e que perdeu o interesse. Eu prefiro acerteza de que acabou de vez à dúvida indefinida do que isto ainda pode resultar.
— Desculpe, mas não me peça para dizer que não te amo porque sinto que não estaria sendo verdadeira. Mas também não sei se aquilo que eu sinto é forte o suficiente para chamar de amor. Assim que ela terminou de dizer aquela frase, comecei a sentir um nó na garganta e o estômago novamente às voltas.
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amando sem querer
FanficNão foi amor à primeira vista. Pelo contrário: Nicole detestou conhecer Waverly, que representava tudo que ela mais detestava: era arrogante, insensível e não compartilhava nada com ninguém. Mas uma promessa feita, a obrigou a se aproximar da mulh...