Firmino José de Souza era um homem trabalhador. Caminhoneiro. Pai de família. Passava meses longe de casa enquanto levava várias cargas pesadas pelo Brasil afora. Naquela semana, recebeu de seu superior as ordens para transportar uma carreta com maçãs para o Nordeste.
Estava acostumado a dirigir por horas. Com a solidão. Bom, vez ou outra ele passava por outras casas, outras esposas. Não era um homem tão honesto assim, mas ninguém sabia de seus casos extraconjugais, então não via problema em agir como se fosse correto e justo. Tal “vantagem” dava a ele a vida que o mesmo tanto amava.
Na próxima cidade no qual colocaria os pés, tinha Suzana. A conheceu fazia alguns meses e, nesses breves encontros, a moça engravidou. Já pensava em formas de não vê-la, de conseguir escapar. Bloqueou a mesma de tudo que é rede social, mas ela o achou no contato da empresa onde ele era funcionário, e agora não tinha mais como escapar de sua responsabilidade como pai do bebê que ela estava esperando.
Filhos? Nossa, ele já tinha uns cinco por aí. Três com a sua esposa, um com sua ex namorada que vira e mexe, o visitava quando ele ia para uma cidade vizinha a dele, e agora a menina que Suzana esperava. Novamente seu salário seria reduzido, já que não queria encarar na justiça, o pedido por pensão. Dava pouco, mas era algo e ele se achava o pai do ano por isso.
Ele se via como alguém incrível, bom e muito inteligente, mas falhou miseravelmente naquela noite quando deu carona para um homem na beira de uma estrada vazia.
O nome dele? Firmino não sabia. O que notou foi que achou graça da forma como ele ria baixinho, com a voz rouca de alguém que passou a vida fumando, enquanto relatava detalhadamente das vezes em que fodeu bem cada uma de suas amantes. Tirou vantagem também de algumas adolescentes que não tinham tato para avaliar que ele era um canalha, muito menos um perigo.
Firmino era um homem sujo, e naquela noite, ele encontrou alguém pior do que ele.
Sangue. Havia tanto cheiro de sangue naquele ambiente que qualquer um passaria mal. Além dele, as vísceras de quem um dia foi Firmino José de Souza.
Foi num momento de distração que ele teve o pescoço atacado. A mordida foi tão fatal que, junto do sangue que esguichou dali, havia partes de carne também. A criatura, que era um ser maligno, buscava por pessoas como ele.
Ruins.
Firmino não era alguém bom, assim como tantas outras por aí. Clamou por um Deus que o mesmo vivia esnobando e não seguia à risca suas doutrinas. Por isso ele era tão saboroso. O sangue chegava a ser doce, enquanto era consumido por aquele ser do inferno. Ou melhor, que era para pertencer, mas que por alguma questão, não estava lá.
Largando o pescoço, foi para o abdômen gordo de alguém que estava acima do peso. Rasgou a camisa com facilidade, para então afundar as unhas grandes e pútridas, mas que tinham uma força descomunal. A carne foi dilacerada com facilidade, tendo pedaços grandes sendo retirados e levados até a boca com dentes grandes e afiados.
Saboroso. Consumir os restos de um pecador mentiroso, era mesmo primoroso. Passou algum tempo ali, se enfartando da mentira, da inveja, soberba e ganância.
A saciedade não veio. Queria mais sangue, mais vítimas. Desceu da carreta, olhando para os lados e visualizando uma placa quase apagada pelo breu da madrugada. O nome que tinha ali interessou aquele monstro.
A cidade de Aurora Celestina em breve receberia a visita do Mal.
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A Manifestação do Mal
HorrorA cidade de Aurora Celestina é a escolha de um grupo de amigas para sua viagem anual. De passagem pelo local, elas irão ver que, muitas das vezes, o Mal se materializa de forma humana, levando elas para um caminho sem volta.