Era madrugada quando Rafaela pegou o último ônibus que ia sentido a cidade de Aurora Celestina. No grupo do WhatsApp com suas amigas, mandou a sua localização, assim como Thaynara e Silviane já haviam feito horas antes. As três moravam longe umas das outras. Rafa em Minas Gerais, Thay a Sil, em São Paulo.
Foram horas dentro daquela lataria gigante, desconfortável e cheia de pessoas barulhentas, até que finalmente chegasse ao que, segundo Rafaela, era uma espécie de rodoviária abandonada dos filmes de terror. Precário e cheio de pessoas esquisitas. Perdeu a conta de quantas vezes segurou melhor a sua mochila, quando algum homem passava próximo dela.
Pegou o celular e agradeceu mentalmente pelo sinal estar bom. Viu algumas mensagens das meninas, explicando detalhadamente onde estavam. Olhou para um lado, para o outro e nada de ver as duas. Estava com tanta saudade que nem agia com a destreza necessária quando se está longe de casa.
— Meu pai, como ela é cega!
Os risos vieram não de muito longe, fazendo Rafaela girar mais uma vez e então, finalmente, ver duas garotas juntinhas, enquanto riam da cara de mocinha da novela das seis, quando sai do interior e vai para a cidade grande.
O problema é que no caso dela, era o contrário.
— Tadinha dela — o óculos de sol foi movido de um rosto bonito, com piercings no nariz e lábios, além de uma maquiagem elaborada demais para um lugar tão simples e quente. Silviane passou a mão pelos cabelos curtos, possibilitando que um frescor adestrasse os fios de cabelos crespos. — Thay, é sério. Coitada.
— Imbecis — Rafaela acabou puxando a mala de rodinha e caminhando até elas. É claro que a sua figura daria um pouco de medo nas pessoas. Alta, séria e mal encarada. Nem parecia ser a flor de mulher que aparentava ser superficialmente; um tom de pele negra mais clara, os olhos sempre atentos e a boca tão chamativa com o seu habitual batom vermelho, fora os longos cabelos cacheados. — Estão a quanto tempo aí?
— Uns três minutos — Silviane a abraçou. — Thay não me deixou ir até você.
— Seu monstro!
— Deixa de ser ridícula, Rafaela! — Ao invés de abraços, Rafaela e Thaynara foram logo trocando tapinhas bestas de crianças do primário. — Fiz até vídeo de você girando que nem uma beyblade.
— Você não fez isso — a voz até saiu melancólica. Tinham uma mania de fazer pack de figurinhas com fotos zoada em toda viagem em grupo que ocorria. — Você me odeia?
Thaynara revirou os olhos com todo o drama que viu. Nem deu tanta moral para a reclamação de Rafaela, já que estava mais ocupada em prender os seus cabelos lisos em um coque no alto da cabeça. Para apaziguar a sensação de estar sendo cozida dentro de suas roupas, decidiu usar um macacão preto curto, bem justo às curvas de seu belíssimo corpo que chamou bastante atenção desde que pôs os pés naquela rodoviária.
— Fez sim, amiga. — Silviane estava segurando pra não rir tão alto assim e chamar ainda mais a atenção do pessoal local e sem querer, incomodar alguém. — Ficou muito bom. Fizeram até figurinha.
— Ah, sinceramente. Odeio vocês. — Rafaela apontou, cheia de acusação. — Bom, alguém viu a Tatiana?
— Não, ela ainda não apareceu aqui. Está atrasada, inclusive. Chegamos faz umas duas horas. — Silviane explicou, deixando Rafa minimamente intrigada. — Um bom tempo na verdade.
— Duas horas?! Meu Deus, gente. — Rafaela ficou pasma, no entanto, era de conhecimento geral que Tatiana era muito ocupada e possivelmente não teria tanto tempo assim para buscá-las na rodoviária. Mas ela prometeu que iria, por isso estavam esperando-a.
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A Manifestação do Mal
УжасыA cidade de Aurora Celestina é a escolha de um grupo de amigas para sua viagem anual. De passagem pelo local, elas irão ver que, muitas das vezes, o Mal se materializa de forma humana, levando elas para um caminho sem volta.